quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

A bata amarela

Ontem esteve outro dia chuvoso, escuro e triste!

No hospital, como o tempo não tem importância nenhuma, esqueci-o e vesti a minha bata amarela, com dois bolsos pregados, onde guardo palavras, sorrisos, ternura e também suaves mentiras, inofensivas, mas, às vezes, tão necessárias!

Levei-lhe o chá, estive ao lado dela, duas ou três vezes, numa troca, breve, de palavras e de tímidos sorrisos.

Depois de alguns anos, penso que aprendi a decifrar algumas das marcas que a doença vai deixando e quando o momento implacável e temido está próximo, sinto e quase cheiro, aquela vibração estranha, medonha, que fareja excitada, teimosa e circunda, circunda, maléfica, faminta, a sua presa indefesa!

E, ontem, de repente, num angustiado sobressalto, senti-a, invisível mas forte, rondar gulosa, quase palpável, a cama dela.

Fazia-se tarde, estava escuro mas antes de despir a minha bata amarela, fui vê-la. Emaciada e imóvel, recebeu-me com a sombra de um sorriso. Estava contente: teria alta no dia seguinte e ía, enfim, ver as suas meninas, duas cadelas jovens, uma Labrador e uma Boxer.
Teria de matar as muitas saudades que tinha delas, de longe, dado o seu estado de fraqueza e a pujante força das meninas que, se a vissem e se pudessem, correriam para ela, num arremesso incontrolável, loucas de alegria!
Depois, numa mudança súbita de assunto, disse-me que gostaria de ser voluntária.
Do meu bolso, tirei, então, muito de mansinho, uma mentira, daquelas que não fazem mal e disse-lhe que, quando estivesse melhor e tivesse recuperado forças, seria recebida, no voluntariado, de braços abertos.

Com o olhar vago, sem uma alteração no rosto de uma palidez de cera, numa voz baixa e monótona, disse-me , com uma confrangedora naturalidade, que era uma doente oncológica, em fase terminal avançada!
Disfarçando uma profunda emoção, procurei, com os meus dedos gelados, nos bolsos da minha bata amarela, a serenidade que sentia faltar-me e as palavras certas para lhe dizer. Mas não foi preciso! Com a mesma estranha calma, o mesmo olhar vago, a voz sem expressão disse-me que, medicamente, tinham já sido esgotados todos os caminhos e, com um suspiro, acrescentou um lacónico, “É a vida!”
Encolheu o ombro direito e foi como se já se tivesse desligado de tudo ou, de quase tudo.
Senti, com um arrepio, a pungência daquela aceitação, daquela entrega, aquela dádiva, calada, de si mesma, a um destino cruel. Talvez possa dizer que pressenti o lampejo de uma dolorosa desistência, mas desistir será, afinal, aceitar que não vale a pena lutar contra o inelutável, não sei!
Antes de eu poder articular uma palavra de coragem ou de consolo, disse-me que não tinha medo da morte. Temia, isso sim, a degradação e a dor!

Por momentos, não sei se devido a um excesso da minha imaginação, se devido a uma ligeira e momentânea fraqueza emocional, pareceu-me vê-la, branca e leve, quase etérea, elevar-se, ligeiramente, acima da cama.

Sentei-me, respirei fundo e, com a mão direita dela, transparente e fria, nas minhas, com o meu olhar fixo naqueles olhos vagos e sem brilho, a magnitude da minha impotência perante a crueldade do inexorável, a insignificância e a inutilidade da minha compaixão, das minhas mãos estendidas, das minhas pequenas mentiras e a vaga alterosa, avassaladora da minha infinita tristeza, atingiram-me, em cheio, como uma bola imensa, de fogo e de gelo! Como sempre, nestes casos!

E, como a chuva não tem realmente importância nenhuma, quando saí, não reparei que caía uma chuva branda e gélida que se misturou, com as minhas lágrimas grossas, pesadas, a cheirar a cansaço, a doença e a sofrimento, suavizando-as, purificando-as!

Não devo voltar a vê-la, mas uma centelha dela, da sua coragem, da sua capacidade de aceitação, ficou comigo, bordada com linhas de sombra e de luz, no tapete da vida que vou tecendo, embelezando-o, enriquecendo-o!

Chama-se A... e tem vinte e sete anos!

MC

2 comentários:

  1. Experiências desta dimensão dão conta da nossa fragilidade e da brevidade da vida. São ecos da alma que nos habita. O nosso olhar sobrepõe-se à realidade que olhamos - uma espécie de palimpsesto que sangra numa empatia solidária e que sugere o desejo de que a fragilidade que se nos apresenta ao olhar seja já uma realidade espiritual a lembrar-nos um amor de salvação.
    o texto está muito bem escrito e representa, de forma excelente, o universo de sentimentos e emoções que esse breve encontro desencadeou. Diante da morte, somos só fragilidade! Diante da esperança, somos só pequenez! Queremos e não queremos o que vemos, nem que seja apenas para um alívio mútuo, embora sofrimento de índole diferente. Um desgaste emocional imenso, esta tarefa da solidariedade humana!

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  2. Obrigada, Zé, querido Amigo! Esta, vai-se tornando numa tarefa talvez muito pesada, para ombros já um pouco frágeis, mas muito, muito gratificante, que é difícil de alijar!! Recebe-se tanto, muito mais do que é possível dar...
    Diante da morte, não somos nada, Zé! Diante da esperança, desvanecemo-nos, na tal pequenez que nos confina...

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