Na primeira hora de Sábado, um estudante universitário foi torpemente abatido a tiro, no primeiro dia da semana da Queima, no Queimódromo.
Dois tiros nas costas tiraram a vida a um jovem de 24 anos que também teria sonhado com esses dias de festa.
Nesse mesmo Sábado, à noite, os colegas riram, brincaram, cantaram, dançaram, embebedaram-se, vomitaram, cairam e pisaram a terra ainda quente do sangue derramado por Marlon Correia, mortalmente baleado, quando tentava, generosamente, ajudar a impedir um assalto às bilheteiras.
O dia de hoje, 7 de Maio, foi ironicamente decretado, o dia de luto na Universidade. Digo ironicamente, porque este, de todos os dias, é sempre o mais festivo!
O funeral de Marlon foi de manhã, para não colidir com o Cortejo, à tarde. Os seus colegas, porque todos se integram na mesma Academia, esquecidos da tragédia que tão perto passou por eles, vão alegremente desfilar, numa explosão de entusiasmo, que se resume, como sempre, a uma patética e estúpida bebedeira quase colectiva!
Suspender o programa da Semana Académica, vulgo Queima, geraria, como foi dito para justificar a frieza e a indiferença da Federação Académica do Porto e dos estudantes, um enorme prejuízo, num negócio de Milhões!!!
Num país mergulhado numa profunda crise, essa explicação de uma queima milionária de um milhão de Euros, seria deliciosamente risível, se não fosse dolorosamente trágica!
Por outro lado é assustador que para tantos estudantes, que são o futuro do país, o direito à bebedeira se tenha sobreposto ao respeito pela morte trágica de um deles no recinto onde, poucas horas depois, milhares se arrastaram perdidos de bêbedos! Foi de uma impressionante insensibilidade e atrozmente ofensivo!
Marlon partiu antes de tempo, miseravelmente assassinado, porque se preocupou, não pensou só em si e foi em socorro de seguranças e quatro colegas em risco! Salvou-os! Pagou, com a vida, a sua generosidade!
Marlon e a sua família mereciam muito mais consideração e respeito, do que umas confrangedoras homenagens de uns "comoventes" e alcoólicos minutos de silêncio, aqui e ali!
Marlon era um deles!
Que descanse em paz!
MC
terça-feira, 7 de maio de 2013
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Escreve-me
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…
Florbela Espanca
Escreve-me!
Um parágrafo, uma frase, uma palavra. Compõe, para mim, um verso doce e leve como a brisa branda, nas madrugadas róseas da Primavera. Mas, não. Não escrevas a palavra saudade. Porque. A saudade que conheço e me persegue, tem o teu rosto, tem o teu toque, tem o teu nome. A saudade, que me inquieta e me domina, tem o teu cheiro, tem o teu gosto, tem o teu sorriso. Não, não escrevas a palavra saudade. Tu és luzimento, júbilo, carícia. Tu és teia de seda onde me abrigo e me aconchego. A saudade é negrume, é amargura, é lágrima fria e baça.
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto
d’açucenas!
Escreve-me! Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d’oração!
“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras
de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Um poema d’amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então… brandas… serenas…
Cinco pétalas roxas de saudade…
Escreve-me!
Inventa, para mim, uma flor esguia, de pétalas
aveludadas, com o perfume incendiado
das rosas vermelhas, que nunca me deste.
Inventa, para mim, uma claridade alada, onde se afunde a terna desmesura do teu
olhar quando se entrelaça com o verde, tenro e leve dos meus olhos. Inventa,
para mim, uma palavra ardente que, como uma rajada de vento, desperte o
braseiro deste amor amodorrado, no canto mais recôndito da alma! Escreve-me!
Há tanto tempo, que
não te vejo, não te oiço, não sei de ti. Mas. Às vezes, pressinto-te! Como se pressente a presença
invisível, mas quase táctil, de alguém muito amado que partiu, mas cujo
espírito permanece connosco...
Escreve-me! Um parágrafo, uma frase, uma palavra. Compõe, para mim, um verso doce e leve como a brisa branda, nas madrugadas róseas da Primavera. Mas, não. Não escrevas a palavra saudade. Porque. A saudade que conheço e me persegue, tem o teu rosto, tem o teu toque, tem o teu nome. A saudade, que me inquieta e me domina, tem o teu cheiro, tem o teu gosto, tem o teu sorriso. Não, não escrevas a palavra saudade. Tu és luzimento, júbilo, carícia. Tu és teia de seda onde me abrigo e me aconchego. A saudade é negrume, é amargura, é lágrima fria e baça.
É não estares aqui, que incomoda, caustica e dói. Mas. Não
sei, nesta hora em que te peço que me escrevas, não sei se foste tu que
partiste ou se, esquiva e frágil e a tocar já, o abismo da tua ausência, fui
eu, amor, que me perdi de ti!
Escreve-me
MC
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Os homens ocos
Os Homens Ocos
I
Nós somos os homens ocos,
Nós somos homens empalhados
Apoiados uns aos outros
A cabeça cheia de palha. Ai de nós!
Nossas vozes rouquenhas, quando sussurramos juntos,
São suaves e não têm sentido
Como o vento na relva seca
Ou os pés dos ratos que passam sobre vidro quebrado
Na nossa adega vazia.
Feitio sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento:
Os que já cruzaram
Com o olhar para a frente, o outro Reino da morte
Recordam-se de nós – se é que assim seja -
Não como almas perdidas, exaltadas, mas simplesmente
Como homens ocos
Homens empalhados.
II
Olhos, não ouso fitá-los nos sonhos
No reino do sonho da morte
Estes não aparecem;
Os olhos são a luz solar
Numa coluna partida
Ali na arvore que balança
E há vozes na canção do vento
Mais distantes e mais solenes
Que uma estrela que se apaga.
Que eu não mais me aproxime
Do reino do sonho da morte
Que eu use disfarces
Pelo de rato, pele de corvo, sarrafos cruzados
Num campo
Fazendo o que o vento faz
E não mais -
Não aquele encontro final
Na região crepuscular.
III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob a cintilação de uma estrela que se apaga.
É assim
No outro reino da morte
Despertar a sós
No instante em que estamos
Tremendo de ternura
Lábios que beijariam até a lage partida.
IV
Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta garganta partida dos nossos reinos perdidos.
Neste último reduto de encontros
Nós nos agrupamos
E evitamos falar
Reunidos nessa praia de rio cheio
Sem vista, a não ser
Que os olhos desapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
A única esperança
Do reino do crepúsculo da morte
Dos homens ocos.
V
Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Pêra silvestre, pêra silvestre,
Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Às cinco horas da manhã
Entre a idéia
E a realidade,
Entre o gesto
E o ato
Desce a sombra
Pois o reino é teu.
Entre a concepção e a criação,
Entre a emoção
Entre a emoção
E a resposta desce a sombra.
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo,
Entre a força
E a existência,
Entre a essência
E a descendência
Desce a sombra.
Pois o reino é teu,
Pois tua é
A vida é
Pois tua é
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
Não com um estrondo, mas com um gemido.
T. S. Eliot
Este é um poema forte, grandioso, perturbante, onde St Eliot, disseca a solidão da alma, que esvazia os homens, tornando-os ocos, secos, sombrios, imagens de pedra, nos campos cobertos de erva ressequida...
Talvez os homens ocos sejam aqueles que amámos e partiram para o Reino dos Mortos, mas que continuam connosco, cambaleantes, como espantalhos nas searas, a balançarem ao sabor do vento, sem cor, sem forma, sem sombra, mas ainda vagueando, ao nosso lado, no caminho que é o nosso.
Talvez estes Homens ocos, empalhados, olhos vazios, gargantas partidas, mudas, que andam sem rumo, na terra seca, morta, onde só os cactos medram, sejam o que resta numa Europa, pós Primeira Grande Guerra Mundial, agonizante, sob o pesado jugo do tratado de Versailles que Eliot desprezava, porque dificultava o renascer da Esperança e da Fé, num mundo devastado, em ruínas.
(A História repete-se e, numa associação macabra e inquietante, lembrei-me que talvez nós, neste nosso país do Sul, sejamos, também e agora, seres humanos ocos, esgotados, mãos descarnadas, súplices e cheias de nada, subjugados por uma Europa rica poderosa e castradora! Vítimas de erros que não cometemos, vítimas inocentes da insanidade, da ganância corruptora, da incompetência arrogante, dos senhores no poder!)
Talvez estes homens ocos sejamos todos nós! A vida esvazia-nos da Esperança maravilhosa, das ilusões preciosas, das visões róseas da juventude. E, nesse doloroso esvaziamento, nós, seres humanos com a alma dilacerada, o coração imobilizado, sem luz e sem sonhos, ficamos apenas com a terrível noção da futilidade de tudo, da nossa fragilidade, da nossa condição quebradiça e débil, num mundo a que não podemos chamar nosso e está destinado a acabar, não com um estrondo, mas com um gemido fraco, longo, torturado...
MC
I
Nós somos os homens ocos,
Nós somos homens empalhados
Apoiados uns aos outros
A cabeça cheia de palha. Ai de nós!
Nossas vozes rouquenhas, quando sussurramos juntos,
São suaves e não têm sentido
Como o vento na relva seca
Ou os pés dos ratos que passam sobre vidro quebrado
Na nossa adega vazia.
Feitio sem forma, sombra sem cor,
Força paralisada, gesto sem movimento:
Os que já cruzaram
Com o olhar para a frente, o outro Reino da morte
Recordam-se de nós – se é que assim seja -
Não como almas perdidas, exaltadas, mas simplesmente
Como homens ocos
Homens empalhados.
II
Olhos, não ouso fitá-los nos sonhos
No reino do sonho da morte
Estes não aparecem;
Os olhos são a luz solar
Numa coluna partida
Ali na arvore que balança
E há vozes na canção do vento
Mais distantes e mais solenes
Que uma estrela que se apaga.
Que eu não mais me aproxime
Do reino do sonho da morte
Que eu use disfarces
Pelo de rato, pele de corvo, sarrafos cruzados
Num campo
Fazendo o que o vento faz
E não mais -
Não aquele encontro final
Na região crepuscular.
III
Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
São erguidas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob a cintilação de uma estrela que se apaga.
É assim
No outro reino da morte
Despertar a sós
No instante em que estamos
Tremendo de ternura
Lábios que beijariam até a lage partida.
IV
Os olhos não estão aqui
Não há olhos aqui
Neste vale de estrelas moribundas
Neste vale oco
Esta garganta partida dos nossos reinos perdidos.
Neste último reduto de encontros
Nós nos agrupamos
E evitamos falar
Reunidos nessa praia de rio cheio
Sem vista, a não ser
Que os olhos desapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
A única esperança
Do reino do crepúsculo da morte
Dos homens ocos.
V
Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Pêra silvestre, pêra silvestre,
Aqui vamos andando à roda da pêra silvestre
Às cinco horas da manhã
Entre a idéia
E a realidade,
Entre o gesto
E o ato
Desce a sombra
Pois o reino é teu.
Entre a concepção e a criação,
Entre a emoção
Entre a emoção
E a resposta desce a sombra.
A vida é muito longa
Entre o desejo
E o espasmo,
Entre a força
E a existência,
Entre a essência
E a descendência
Desce a sombra.
Pois o reino é teu,
Pois tua é
A vida é
Pois tua é
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
É assim que acaba o mundo
Não com um estrondo, mas com um gemido.
T. S. Eliot
Este é um poema forte, grandioso, perturbante, onde St Eliot, disseca a solidão da alma, que esvazia os homens, tornando-os ocos, secos, sombrios, imagens de pedra, nos campos cobertos de erva ressequida...
Talvez os homens ocos sejam aqueles que amámos e partiram para o Reino dos Mortos, mas que continuam connosco, cambaleantes, como espantalhos nas searas, a balançarem ao sabor do vento, sem cor, sem forma, sem sombra, mas ainda vagueando, ao nosso lado, no caminho que é o nosso.
Talvez estes Homens ocos, empalhados, olhos vazios, gargantas partidas, mudas, que andam sem rumo, na terra seca, morta, onde só os cactos medram, sejam o que resta numa Europa, pós Primeira Grande Guerra Mundial, agonizante, sob o pesado jugo do tratado de Versailles que Eliot desprezava, porque dificultava o renascer da Esperança e da Fé, num mundo devastado, em ruínas.
(A História repete-se e, numa associação macabra e inquietante, lembrei-me que talvez nós, neste nosso país do Sul, sejamos, também e agora, seres humanos ocos, esgotados, mãos descarnadas, súplices e cheias de nada, subjugados por uma Europa rica poderosa e castradora! Vítimas de erros que não cometemos, vítimas inocentes da insanidade, da ganância corruptora, da incompetência arrogante, dos senhores no poder!)
Talvez estes homens ocos sejamos todos nós! A vida esvazia-nos da Esperança maravilhosa, das ilusões preciosas, das visões róseas da juventude. E, nesse doloroso esvaziamento, nós, seres humanos com a alma dilacerada, o coração imobilizado, sem luz e sem sonhos, ficamos apenas com a terrível noção da futilidade de tudo, da nossa fragilidade, da nossa condição quebradiça e débil, num mundo a que não podemos chamar nosso e está destinado a acabar, não com um estrondo, mas com um gemido fraco, longo, torturado...
MC
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Vieira queimado em..."esfinge" - Vasco Graça Moura
O padre António Vieira nunca foi "imperador da língua portuguesa". Essa é apenas uma das muitas mistificações engendradas por Fernando Pessoa, que nem sequer percebeu que a língua não é um império mas sim a principal base identitária de uma comunidade humana. De resto, se fosse realmente reconhecido como "imperador" e o seu império fosse deste mundo, a sua obra não poderia deixar de ser estudada, e muito a sério, nas nossas escolas...
Vieira foi, sim, um dos maiores escritores de todos os tempos da nossa língua, num quadro barroco em que soube fazê-la extravasar dos cânones e dos códigos parenéticos, teológicos, humanitários, oratórios, retóricos, argumentativos, políticos, diplomáticos, epistolográficos, proféticos, sociais e tantos outros em que a utilizava, assim como foi um mestre na maneira e no virtuosismo com que tão destramente se servia dela (e a servia) para a interpretação literal, analógica, tropológica e anagógica da palavra divina e das suas caleidoscópicas refracções.
Nessa razão de ser da sua longa vida, soube implantar uma dimensão fundamental que podemos considerar da ordem do estético, e que é expressiva e dinâmica, capaz de conjugar razão, emoção, erudição, conhecimento e mito, aproximação do real e flagrância, suspense e teatralidade, convicção e persuasão, chegando a estádios de um vigor estilístico, de uma energia verbal e de uma beleza retórica incomparáveis. Engendrou assim uma "estética pragmática", posta ao serviço de Deus e apostada na conversão e salvação das almas e hoje, mesmo para aqueles a quem não seja o reino de Cristo neste e deste mundo aquilo que propriamente mais interessa, a preocupação de Vieira com o homem e o seu destino e a sua orientação espiritual da vida prática dos cristãos a quem se dirigia para a dimensão da escatologia em nome da qual falava, proporcionam-nos páginas em que o verdadeiro prazer da leitura se combina com a descoberta de análises extraordinárias da natureza e do comportamento humanos.
Quando penso em Vieira, penso em Miguel Ângelo. E ocorre-me também que, um pouco à maneira do Deus bíblico, Vieira nos modela a nossa própria humanidade na argila da língua que falamos. Ele soube utilizar a palavra, enquanto massa estruturante e fluidez sonora e semântica em movimento, na genialidade de um pensamento dialéctico que é também encenação constantemente transfigurada em acção, numa distribuição de volumes, equilíbrios, pontos de fuga, tensões e resoluções, em que nos restitui também um mundo enquanto arquitectura verbal e representação metafísica.
Bastante estudado por especialistas, mas pouco lido pelo grande público e nunca editado em toda a extensão de uma obra que promete continuar a revelar inéditos e variantes numa profusão desvairada de arquivos nacionais e estrangeiros, Vieira vê chegada a hora do projecto mais ambicioso de edição de tudo quanto escreveu e que envolve, como principais entidades responsáveis pela saída dos trinta volumes projectados, a Universidade de Lisboa, a Santa Casa da Misericórdia e o Círculo de Leitores, além de muitos outros apoios e colaborações.
Os objectivos desse projecto, na sua reunião de cartas e documentos portugueses e latinos, do sermonário, da obra italiana, da obra profética, da intervenção política e diplomática, dos dispersos, de tudo o mais que importa dar a lume e até dos apócrifos, estão bem explicitados nos textos introdutórios e oxalá possam ser levados a cabo com as metodologias e os calendários previstos. Nas páginas de apresentação notabilíssimas que já pude ler, seja dasCartas, seja da Chave dos Profetas, não só encontrei percursos fascinantes, quase "de romance", da história das ideias, como apanhei também fios condutores preciosos que guiam o leitor num labirinto emaranhado de conceitos teológicos e situações históricas de que hoje estamos muito distantes. A escrita dos apresentadores é rigorosa, sabedora e eficaz. E consegue nunca aborrecer o leitor apesar da por vezes derrotante rarefacção da matéria. Ficamos a compreender melhor o mundo, este mundo, o de Vieira e o nosso, o que vem dele até nós, o que passará além de nós...
Esta magna edição é de saudar entusiasticamente, mas tem um grave problema. Digo isto com a reserva de que não sou especialista, mas sim o tal leitor comum a quem a edição expressamente se dirige (p. 33) e é apenas nessa qualidade que falo.
O grave problema está em que a edição pretende pautar-se pela norma ortográfica em vigor e afinal aplica uma norma que não está em vigor nem nunca esteve, e que é a do Acordo Ortográfico.
Sabe-se bem que esta questão tem feito correr rios de tinta. Mas entidades tão científica e economicamente poderosas como as mencionadas, tão responsáveis económica, cultural e socialmente, pela missão que desempenham, dispondo de estruturas institucionais que comportam faculdades, departamentos, conselhos científicos, sei lá que mais, não poderiam e não deveriam, antes de se lançarem a este portentoso empreendimento, pedir pareceres científicos e jurídicos abalizados na matéria?
Viverão num mundo nefelibata? Ignoram a polémica e os problemas? Não sabem que há hoje três grafias divergentes a serem aplicadas no mundo da língua portuguesa? Quem tem medo do Estado de direito? Quem tem medo da aplicação da Lei? Quem tem a desvergonha de, num caso destes, evitar fazê-lo, sem um escrúpulo, sem um prurido de consciência, sem uma forma, ao menos esboçada, de se isentar de responsabilidades pela opção tomada?
Que autoridade científica, jurídica ou cultural assiste aos directores da edição para falarem, a p. 33 (vol. Cartas), numa "actualização linguística no quadro das normas vigentes do português"? Ou à dr.ª Aida Lemos para aí afirmar, a p. 35, que as grafias foram "normalizadas segunda a norma em vigor"? Se o tivessem sido, nunca poderia ser aplicado o AO porque ele não constitui norma vigente...
Vieira e a sua obra incomparável saem desfigurados dessa irresponsabilidade de lesa-cultura que mancha indelevelmente um trabalho tão digno e de tão grande envergadura e que se fica a dever a tantos nomes importantes, em que sobressaem os dos directores da iniciativa, professores José Eduardo Franco e Pedro Calafate.
Estive na sessão de apresentação pública e de lançamento desse projecto ainda não há muitas semanas e regozijei-me ex corde com ele, como português, como escritor, como cidadão com algumas responsabilidades na cultura. Confesso que nunca me ocorreu que as coisas iam ser assim.
E também não me passou pela cabeça que alguns problemas de revisão tornariam relativamente caricata a apresentação, sendo de esperar que outros não ocorram no texto do grande jesuíta. Aponto dois, ambos do Tomo I/Volume I: a pp. 27/28 escreve-se "apesar de Teófilo Braga (...) ter despeitado a qualidade literária dos textos oratórios de Vieira (...)". Não me parece que o verbo "despeitar" como transitivo faça grande sentido nesta acepção.
Mas há pior: diz-se, a p. 25, que "os estudantes de Coimbra, instigados pela Inquisição, o tinham queimado em esfinge na praça de universidade, como herege e inimigo da pátria". Em esfinge???
Ora aproveitem lá a esfinge para mudar de revisor, guilhotinar estes três volumes inimigos da pátria e tratar da edição de Vieira como ela merece ser tratada...
Escritor
Público 3.04.2013
Pequenos textos, escritos em dias pequenos...
Perdeu-se no verde misterioso dos seus olhos, enxugou-lhe as
lágrimas de sangue da sua mágoa em carne viva, enredou-se no marfim macio do
seu corpo, e acabou, coração tumultuado no desconcerto do peito, só e perdido,
no azul profundo, das suas noites inquietas...
A Primavera parece estar, enfim, quase a chegar. O céu está quase azul, pontilhado, aqui e ali, por nuvens brancas como bolas de algodão... as árvores, atrevidas e resplandecentes, estão já em flor... nos jardins, anuncia-se uma explosão de cor, perfume e encantamento... o sol está quase a envolver a terra, numa chuva, ainda tímida e amena, de ouro e de luz... E, eu estou quase feliz!
Uma vida.
Perdeu o autocarro e chegou mais tarde, ele insultou-a. Não comprou vinho para o jantar, ele bateu-lhe. Não conseguiu calar o choro do bebé, ele espancou-a. Foi despedida do emprego, ele matou-a.
Perdeu o autocarro e chegou mais tarde, ele insultou-a. Não comprou vinho para o jantar, ele bateu-lhe. Não conseguiu calar o choro do bebé, ele espancou-a. Foi despedida do emprego, ele matou-a.
Não foi sonho. No
jardim, na madrugada cristalina, um unicórnio prateado descansava, majestoso e
pensativo, debaixo da velha magnólia florida.
No supermercado.
Encheu o carrinho com a sua fome. Pagou com a mão cheia de nada. Foi para casa, que não tinha paredes, não tinha telhado, não tinha nada. Não era casa, apenas um abrigo forrado de cartão, debaixo do velho e ruidoso viaduto.
Encheu o carrinho com a sua fome. Pagou com a mão cheia de nada. Foi para casa, que não tinha paredes, não tinha telhado, não tinha nada. Não era casa, apenas um abrigo forrado de cartão, debaixo do velho e ruidoso viaduto.
É cansaço, sim!
Porque. Tu sabes que, se metade de mim é abrigo, a outra metade, é cansaço!
Mas, se outra metade eu ainda tivesse, seria amor!
A vida é feita de encontros e desencontros. Talvez, um dia,
me encontre, num desencontro teu ou tu me encontres, num desencontro meu... Ou,
quem sabe, talvez continuemos, assim, eternamente desencontrados... Mas, apesar
de tudo, ainda abraço cada dia, com a lembrança fugidia do brilho dos teus
olhos e oiço a música da tua risada, a entoação da tua voz, em todos os sons do
mundo.
O arco-íris termina
na tua alma, é aí que o procuro; A rosa só precisa desse vestido de seda que
lhe fica tão bem, mas fica ainda mais bela quando se desnuda para ti; As folhas
amarelas suicidam-se, para que novas folhas nasçam e vistam de verde e de brilho
as tuas manhãs; O céu é uma igreja imensa onde rezas e te reencontras; Essa
flor, que voa de pássaro em pássaro, chama-se coração, onde te acolhes e te
aconchegas; Esse espaço não termina nunca! É infinito... Como esta saudade de
ti.
( A propósito de um poema belíssimo de Pablo Neruda)
( A propósito de um poema belíssimo de Pablo Neruda)
A Primavera emigrou
ou esqueceu-se que este é o seu tempo. O céu ainda não está azul, pontilhado,
aqui e ali, por nuvens brancas como bolas de algodão... as arvóres, essas sim,
fortes e decididas, estão esplendorosas, em flor... nos jardins, ainda não se
anuncia a explosão de cor, perfume e encantamento, que nos embeleza os dias...
o sol esconde-se, amodorrado e
aborrecido, no pingue-pongue da chuva que teima em envolver a terra, no seu
manto cinzento e sombrio...
E, no silêncio lânguido da tarde, dei comigo a pensar que
quase já não sei como se rabisca sol...
A vida não deve ser a preto e branco, aliás, nunca é a preto
e branco. Tem de ser bem colorida, verde, azul, amarela, vermelha e roxa. Roxa,
a vida, às vezes, é. Os socalcos, as
ravinas, os tropeços, as quedas, nas pedras do caminho, deixam sempre alguns
arranhões, algumas nódoas roxas, nos nossos sonhos, na nossa alma...
Trilhamos o caminho, passo a passo; subimos uma escada,
degrau a degrau; escrevemos o poema, palavra a palavra; construímos um amor,
instante a instante; adormecemos uma saudade, lágrima a lágrima; bebemos a
vida, gota a gota... E, é só gota a gota que matamos esta sede imensa de
viver...
O mendigo era quase invisível no tumulto da rua.
Quando me debrucei para lhe dar uma esmola, ergueu o rosto para mim.
Nos olhos tristes, safiras ardentes. No sorriso leve, o esplendor do sol.
Ali, no atropelo da rua, um olhar, um sorriso, uma espantosa orgia de azul, uma inebriante bebedeira de luz.
Quando me debrucei para lhe dar uma esmola, ergueu o rosto para mim.
Nos olhos tristes, safiras ardentes. No sorriso leve, o esplendor do sol.
Ali, no atropelo da rua, um olhar, um sorriso, uma espantosa orgia de azul, uma inebriante bebedeira de luz.
A Primavera parece estar, enfim, quase a chegar. O céu está quase azul, pontilhado, aqui e ali, por nuvens brancas como bolas de algodão... as árvores, atrevidas e resplandecentes, estão já em flor... nos jardins, anuncia-se uma explosão de cor, perfume e encantamento... o sol está quase a envolver a terra, numa chuva, ainda tímida e amena, de ouro e de luz... E, eu estou quase feliz!
Às vezes, menos ainda do que uma sílaba, a falta que nos faz
uma Letra inspiradora que nos conduza
ÀQUELA palavra, com asas, mágica, que quebre o feitiço que nos tolhe,
que nos liberte e nos permita acabar o poema...
Partiste.
Começo a esquecer o teu cheiro, o som da tua voz, o toque da tua pele. Começo a perder a tua face, o brilho dos teus olhos, o sabor dos teus beijos.
Mas, mesmo agrilhoada, na aridez agreste, turva, da tua ausência, eu ainda estou inteira.
Começo a esquecer o teu cheiro, o som da tua voz, o toque da tua pele. Começo a perder a tua face, o brilho dos teus olhos, o sabor dos teus beijos.
Mas, mesmo agrilhoada, na aridez agreste, turva, da tua ausência, eu ainda estou inteira.
MC
quarta-feira, 27 de março de 2013
Hoje é o teu aniversário!
Estou a pensar em ti, meu irmão querido! Como tantas vezes penso...
Mas, hoje é um dia diferente! Hoje é o teu aniversário!
Nas asas do vento brando, nesta manhã molhada e vestida de cinzento, pareceu-me ouvir a tua voz, o teu riso, o som leve e ritmado dos teus passos! E este vento que te traz, até mim, num sussurro, é o mesmo que te leva, num sobressalto, saudades minhas! Saudades da nossa infância, do teu sorriso, dessa tua bondade, dessa tua serenidade que te tornava tão especial!
Lembro-me da noite em que resolvemos fazer um bolo de chocolate que ficou muito bonito, tufado e apetitoso e depois, para completar aquela obra de arte, termos decidido cobri-lo com chantilly. A minha receita, para a cobertura, era bater, energicamente, manteiga com açúcar.
Lembro-me de nunca termos conseguido fazer o chantilly, a cozinha ter ficado num tremendo caos, o bolo ter continuado castanho, depois de um desperdício atroz de energia, de manteiga e de açúcar e, de no dia seguinte, parecermos dois “zombies”, enjoados e meio-doentes, por tanto termos provado a mistura.
Mas, como nos divertimos, nessa noite, enquanto todos dormiam!
Lembro-me de, dois dias antes de partires para desvendar o mistério insondável que se esconde para lá da curva final do caminho, termos recordado, as tuas mãos esguias e emaciadas, presas nas nas minhas, essa noite de travessura, de caos na cozinha, de risos, de chocolate, de manteiga e de açúcar e de ter sido essa, a última vez, que o brilho dos teus olhos e a doçura do teu sorriso encheram de luz, todos os cantos do meu coração.
Partiste cedo demais. O ponteiros do relógio, que marcava o tempo da tua vida, enlouqueceram e chegáste à curva fatídica, antes de tempo. Quase sem dizer Adeus, irmão querido, partiste e deixaste comigo, esta saudade infinita de ti, esta saudade, magoada, de mim! Da criança que fui a teu lado e dos pedacinhos, os melhores pedacinhos da minha alma que leváste contigo e que, eu sei, guardas para sempre, num recanto resguardado do teu coração, agora imobilizado, na cintilação límpida da tua luz...
Nunca te perdi a face e de ti guardo, ainda, o perfume da tua curta passagem pela vida, pela minha vida.
Feliz Aniversário, meu doce irmão! Onde quer que estejas, meu querido, o meu presente são esta saudade infatigável de nós crianças, de nós jovens, de nós, enfim, e as minhas lágrimas...
Um beijo.
MC
Mas, hoje é um dia diferente! Hoje é o teu aniversário!
Nas asas do vento brando, nesta manhã molhada e vestida de cinzento, pareceu-me ouvir a tua voz, o teu riso, o som leve e ritmado dos teus passos! E este vento que te traz, até mim, num sussurro, é o mesmo que te leva, num sobressalto, saudades minhas! Saudades da nossa infância, do teu sorriso, dessa tua bondade, dessa tua serenidade que te tornava tão especial!
Lembro-me da noite em que resolvemos fazer um bolo de chocolate que ficou muito bonito, tufado e apetitoso e depois, para completar aquela obra de arte, termos decidido cobri-lo com chantilly. A minha receita, para a cobertura, era bater, energicamente, manteiga com açúcar.
Lembro-me de nunca termos conseguido fazer o chantilly, a cozinha ter ficado num tremendo caos, o bolo ter continuado castanho, depois de um desperdício atroz de energia, de manteiga e de açúcar e, de no dia seguinte, parecermos dois “zombies”, enjoados e meio-doentes, por tanto termos provado a mistura.
Mas, como nos divertimos, nessa noite, enquanto todos dormiam!
Lembro-me de, dois dias antes de partires para desvendar o mistério insondável que se esconde para lá da curva final do caminho, termos recordado, as tuas mãos esguias e emaciadas, presas nas nas minhas, essa noite de travessura, de caos na cozinha, de risos, de chocolate, de manteiga e de açúcar e de ter sido essa, a última vez, que o brilho dos teus olhos e a doçura do teu sorriso encheram de luz, todos os cantos do meu coração.
Partiste cedo demais. O ponteiros do relógio, que marcava o tempo da tua vida, enlouqueceram e chegáste à curva fatídica, antes de tempo. Quase sem dizer Adeus, irmão querido, partiste e deixaste comigo, esta saudade infinita de ti, esta saudade, magoada, de mim! Da criança que fui a teu lado e dos pedacinhos, os melhores pedacinhos da minha alma que leváste contigo e que, eu sei, guardas para sempre, num recanto resguardado do teu coração, agora imobilizado, na cintilação límpida da tua luz...
Nunca te perdi a face e de ti guardo, ainda, o perfume da tua curta passagem pela vida, pela minha vida.
Feliz Aniversário, meu doce irmão! Onde quer que estejas, meu querido, o meu presente são esta saudade infatigável de nós crianças, de nós jovens, de nós, enfim, e as minhas lágrimas...
Um beijo.
MC
sábado, 23 de março de 2013
Se te comparo ao Verão...
Sonnet 18
Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature's changing course untrimm'd;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou owest;
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou growest:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this and this gives life to thee.
Soneto 18 ~
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
William
Shakespeare
No
Inverno gelado dos meus dias, tu foste um inesperado e ardente Verão! E, no céu
tempestuoso e sombrio dos meus pesadelos, o teu olhar foi o sol quente e
brilhante que aqueceu e iluminou a minha alma! Nas tuas mãos depositei as
minhas mágoas, os meus desapontamentos! Na serenidade do teu peito, reclinei o
desconcerto tumultuado do meu corpo em sobressalto. Em ti, floresceram todas as
rosas que embelezam e perfumam os meus sonhos, hastes delicadas e quebradiças
que, teimosamente, arrasto e onde me enleio!
Shall I compare thee to a summer's day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer's lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm'd;
And every fair from fair sometime declines,
By chance or nature's changing course untrimm'd;
But thy eternal summer shall not fade
Nor lose possession of that fair thou owest;
Nor shall Death brag thou wander'st in his shade,
When in eternal lines to time thou growest:
So long as men can breathe or eyes can see,
So long lives this and this gives life to thee.
Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.
Ás vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.
Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:
Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.
Contigo
na minha vida, o Verão, tempo incerto e curto, será eterno. Será...?
MC
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