segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Um Portugal paralelo

Ouvir o Primeiro Ministro falar sobre o País, faz-me sentir suspensa entre
uma imenso espanto e uma profunda depressão.
Na verdade, embalada pelas suas belas e assertivas palavras, esqueço o
atraso de vida em que vivemos e sinto-me, por assim dizer, transportada para
um País maravilhoso, moderno, altamente competitivo, com excelente qualidade
de vida e onde os dias decorrem, serenos e fartos, entre rosas, pão e vinho doce!

A Economia está, apesar das más línguas, em crescendo, com a boa execução orçamental e o défice, ( palavra horrorosa!), controlado!
Neste País do seu contentamento, e nas suas palavras, a cruz do desemprego parece que vai tornar-se mais leve, porque ele, o Primeiro Ministro, com as grandes obras que determinou levar a cabo e com as inúmeras primeiras pedras que tem lançado, vai criar milhares de bons e seguros empregos, que, nas suas abençoadas mãos, vão crescer como carnudos cogumelos!
Os salários sofreram pequenas reduções, mas foi a bem da Nação, as pensões, no geral, mantêm-se estáveis e a inflação,, surpreendentemente, também parece ter descido!

A Saúde é, agora, óptima, com as excelentes medidas que têm sido tomadas!
Os Hospitais, quais hotéis de cinco estrelas, são numerosos e os doentes
tratados por Médicos que têm ao seu dispor o melhor equipamento médico, com
a mais avançada tecnologia, e são muito pacientes e serenos, porque não trabalham
demais, sem condições, dias a fio!
As enfermeiras circulam,quais borboletas esvoaçantes, pelas enfermarias, calmas e sorridentes, porque cada uma não tem de trabalhar por duas, mortas de cansaço!
Os Centros de Saúde,(há imensos), são locais arejados e bem decorados, com
salas de espera encantadoras e confortáveis mas, praticamente,
desnecessárias, porque os utentes são atendidos rapidamente e com extrema
solicitude!

Em caso de doença súbita ou acidente, está tudo muito bem organizado, a
assistência é espantosamente rápida e muito eficiente! Ninguém morre à
espera de socorro e as estradas, no caso de acidente, nunca ficam impedidas
dias, manhãs, tardes ou noites inteiras, provocando filas quilométricas de
carros.
Raramente há inundações ou incêndios porque as ruas, as margens dos rios e,
sobretudo, as matas e os bueiros estão sempre impecavelmente limpos!

Na Educação, são emocionantes as medidas fantásticas e inovadoras que têm
sido tomadas!
Há cada vez mais Escolas, enormes, modernas e confortáveis, para que os alunos se
sintam felizes e seguros e não tenham de perder horas preciosas de sono, de estudo e de brincadeira, percorrendo, enjoados e vomitados, longas distâncias, de
camioneta!
Os Professores queixam-se sem razão, pois são tratados com todo o respeito,
a mais elevada consideração e, porque não dizê-lo, com muito afecto, pelos
responsáveis da tutela que os admira, acarinha e apoia imenso! Nas aulas, os
alunos, ávidos de aprender e saber sempre mais, não agridem, nem insultam os
professores, nem se desfazem e roubam, uns aos outros, no recreio! Só em
casos muito, mesmo muito pontuais, sem qualquer importância!

O Primeiro Ministro quase não menciona a Justiça porque, realmente, a
Justiça quase não existe. Mas, de facto, num País onde tudo funciona tão
bem, onde não há violência, onde não há crime, onde não há corrupção e
onde são todos inocentes, puros e cândidos, a Justiça não é, sequer, precisa! Aqui,
encontra-se, quiçá, a razão para que, Esquadras desapareçam e, em algumas, haja só um polícia!

Mas, este não é, infelizmente, o nosso País real, aquele onde, mergulhados
numa profunda depressão, esgaravatamos, com sacrifício, suor e lágrimas, o
pão nosso de cada dia!


Recordo-me de ter lido, há tempos, uns artigos muito interessantes, sobre a
existência de mundos paralelos.

Talvez, Sócrates seja Primeiro Ministro de um Portugal paralelo a este,
igualzinho a este na forma, mas, um Portugal virtual, criado por suas mãos e
onde ele é o garboso, competente e mui amado governante, um País fantástico
e perfeito e que não é senão, uma trágica anedota de muito mau gosto, em comparação com este Portugal decadente, pobremente vestido de escuro, exasperado, esgotado e cada vez mais empobrecido, onde o desemprego aumenta exponencialmente, onde os custos do financiamento disparam, onde a despesa do estado derrapa vergonhosamente, onde a sombra ameaçadora da recessão nos tolhe, onde a assistência social é um falhanço e que é, afinal, a nossa triste, desgraçada realidade!

MC

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