A menina irradiava alegria, como um pardal saltitante, em dia de primavera.
Tinha um vestido novo, amarelo, como um raio de sol e ía passear com o pai. Era bonito e elegante, o pai!
As amigas do irmão diziam que parecia um actor de cinema. Para ela, ele era, simplesmente o pai, o seu herói, o seu aconchego, a sua segurança!
Quando passaram pela casa do Luisinho, viu o pai dele no jardim. Era feio, vermelhusco e pançudo. Nesse momento, ria e a falava alto com a D. Berta que empurrava, docemente, o filho, no baloiço.
A menina teve muita pena do Luisinho que não tinha um pai que parecia um actor de cinema, bem parecido e charmoso. Devia ser triste, ter um pai feio, que não tinha um sorriso bonito e que não o levava a passear, como o dela!
“ Queres ir comer um gelado, princesa?”
“ Um gelado? Quero, papá! Que bom!”
Olhou orgulhosa e com ternura para o pai e lembrou-se, de novo, do Luisinho, mal vestido, despenteado, sem graça, a andar de baloiço, no jardim.
Na esplanada da gelataria, uma senhora morena, de cabelos compridos e óculos escuros, estava sentada a uma mesa. O pai corou ligeiramente, como um rapazinho e o seu rosto iluminou-se num enorme sorriso, ao vê-la. O pai beijou-a, levemente, no rosto e sentaram-se à mesma mesa.
Chamava-se Ângela.
Era simpática mas a menina não gostou dela! Na verdade, evitava encará-la . O grande decote , a saia muito curta e as suas risadas nervosas intimidavam-na! A mãe não era nada assim! Pior, no entanto, era o desapontamento, o enorme desapontamento, de não ter o pai só para si, nessa tarde de encantamento!
Calada, saboreou, devagar e gostosamente, o gelado de chocolate e de morango.
O pai conversava, ria gesticulava ligeiramente, tocando levemente, as mãos, os braços, o cabelo de Ângela, e parecia tê-la esquecido!
Cansou-se de estar, ali, como uma boneca, momentaneamente, deixada a um canto, e pediu para ir à papelaria que ficava mesmo ao lado. O pai autorizou de imediato e disse-lhe que, daí a pouco, iria buscá-la.
Ela lá foi, vaidosa, no seu vestido novo, amarelo como um raio de sol e, de novo, alegre, como um pardal saltitante, em dia de primavera.
Na papelaria, encantou-se com uns blocos pequeninos e coloridos que iriam ficar muito bem na sua colecção.
Decidiu ir ter com o pai.
A meio do caminho, estacou, quase sofucada de espanto e de angústia: o pai, de costas para ela, debruçava-se para a senhora morena, de cabelos compridos e, agora, sem os óculos escuros. De mãos dadas, os dois olhavam-se embevecidos, perdidos num mundo só deles, os rostos tão juntos que quase se tocavam e acariciavam, na cumplicidade amorosa de um beijo, em suspenso.
A menina sentiu os olhos alagarem-se de lágrimas, as pernas tremeram, como se fossem geleia, um nó esquisito apertou-lhe a garganta e, do estômago, subiu uma agonia azeda. Encostou-se a uma árvore, respirou fundo e o nó, forte como um garrote, desapertou-se num vómito que a aliviou mas, que lhe sujou o vestido novo, com salpicos grossos e viscosos.
Voltou à papelaria e, pouco depois, viu o pai, à porta, a sorrir.
A menina entrou no carro. Estava triste, aturdida e muito cansada! Não tentou, sequer, falar. Talvez para quebrar aquele silêncio pesado, que o incomodava, o pai disse-lhe que a Ângela era médica, como ele, trabalhavam juntos e eram amigos. O marido era deputado em Bruxelas e tinham dois filhos.
Silenciosa, sem o ouvir, olhou para o pai e achou-o diferente: não lhe pareceu assim tão bonito, o seu sorriso enjoou-a e, estranhamente, não se sentiu orgulhosa, nem feliz, nem segura, a seu lado!
Na verdade, nesse momento, detestou-o!
Quando passou pela casa do Luisinho, viu-o com o pai, feio, vermelhusco e pançudo, a manápula grande e peluda, pousada, ternamente, na nuca do filho.
E teve muita inveja do Luisinho! Sentiu uma inveja danada, que lhe oprimiu o peito e quase lhe estrangulou a respiração, daquele menino que tinha um pai que não parecia um actor de cinema mas ria, falava alto e brincava com ele, no jardim e não tinha uma amiga, morena e espaventosa, que se chamava Ângela.
Quando entrou em casa, correu para a mãe, abraçou-a e, num arroubo de ternura, disse-lhe baixinho:
“ És tão bonita, mamã! És a mãe mais bonita do mundo! Gosto tanto de ti!”
E foi para o quarto, o vestido novo, amarelo, já sem a luz e o brilho cintilante de um raio de sol, amarrotado, salpicado de vómito escuro e viscoso e a cheirar a azedo.
Antes de fechar a porta ainda ouviu a voz clara da mãe, a escorrer carinho, dizer:
“ Tens de levar a Ritinha mais vezes à gelataria, querido!”
A menina deitou-se na cama e aí ficou, muito quieta, atordoada, sem forças, como um pardal desorientado, cheio de frio, com uma asa, subitamente, ferida de morte, numa tarde de temporal.
MC

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segunda-feira, 22 de junho de 2009
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Até logo Mãe!
Era a noite de Passagem de Ano.
Ana viu-se, mais uma vez ao espelho e sorriu, feliz, no seu vestido vaporoso em suaves tons pastel. Ía começar o novo ano, com cores bonitas, claras e radiosas que prenunciassem alegria e tudo de bom, nos próximos doze meses.
O Gustavo viria buscá-la dentro de um quarto de hora.
O penteado e a maquilhagem tinham ficado perfeitos, e o vestido, assentava-lhe como uma luva.
Estava bonita, envolta num delicado perfume, a rosas e a jasmim e emanava dela a luz radiosa da mulher que se sente bem consigo própria.
Uma nuvem, contudo, toldou-lhe o brilho do olhar e os traços do seu rosto endureceram ligeiramente, quando se lembrou da Mãe, no quarto ao lado.
Mas, que poderia ela fazer?
“Esta noite, entre todas as noites, tenho de sair e divertir-me! Esta noite, quero esquecer este pesadelo, este drama que me consome! Chega!”, pensou.
A mãe, quase inconsciente, jazia na cama. Não falava, não se mexia, era alimentada por sonda e só nos olhos grandes, escuros e ainda bonitos, se parecia concentrar o sopro de vida que ainda pulsava nela!
A senhora Irene, a empregada da casa, dissera-lhe, compungida e, talvez um pouco reprovadora, nessa manhã, que estava preocupada porque achava a mãe diferente.
Diferente, como? A mãe, há muito que estava sempre na mesma: imóvel, calada, sem reacção, como uma concha vazia.
Os hospitais não deviam mandar para casa doentes, no estado em que se encontrava a mãe.
Diziam que era para se sentirem mais confortáveis no aconchego da família e do lar! Mais confortáveis, como?
A mãe já não parecia sentir nada e ela, Ana, tinha um ritmo de vida que não se compadecia com o aconchego de alguém que já não interagia e parecia tão longe, tão perdida numa ausência triste e fria, sem retorno.
Na verdade, a senhora Irene lá ía cuidando, carinhosamente, da mãe e da limpeza da casa, com a ajuda do serviço de enfermagem domiciliário, todas as manhãs.
À noite, a doente tinha de ficar sozinha. Mas, eram só umas horas e, no estado, de quase completa apatia, em que a mãe se encontrava, não fazia diferença!
O Gustavo devia estar mesmo a chegar.
Não lhe apetecia ir ver a mãe antes de ir para a festa de Passagem de Ano.
Aquele quadro de sombria quietude e profundo silêncio, deprimia-a dolorosamente!
Hesitou à porta mas, num rebate de consciência, entrou, devagarinho, no quarto, o vestido comprido a roçagar mansamente.
A mãe, pequeno vulto, mal perceptível, sob as roupas da cama, olhou-a fixamente, os olhos grandes e escuros, brilhantes de febre ou, talvez de lágrimas.
Ela era uma lufada de vida, de cor e de beleza naquele quarto, mergulhado na penumbra, que cheirava a doença, a uma incipiente dissolução e a uma infinita tristeza!
Ana sentiu uma forte opressão no peito, como se uma presença poderosa dominasse, invisível e destruidora e acentuasse, malévola, o cheiro insidioso e fétido de decadência e de podridão.
Meio-agoniada, Ana levou, num gesto brusco, a mão perfumada ao nariz e a jarra esguia, pousada na mesinha de cabeceira, virou-se, a rosa branca que lá pusera essa manhã, caiu, algumas pétalas soltaram-se e a água ainda a gotejar, ía tornando maior a pocinha cristalina, que se formara, no chão.
Ana assustou-se, estremeceu e, num arrepio, recuou.
“Até logo, Mãe!”
E, sem tocar ou beijar o rosto branco e esquálido, saiu do quarto, quase a correr, porque não podia suportar a fixidez daqueles olhos grandes, escuros, misteriosos que lhe atravessavam a alma, como uma súplica, como uma despedida ou... como uma acusação!
E, porque já estava de saída, Ana não viu o movimento ténue, muito ténue da mão descarnada da mãe, como que a querer tocá-la ou prender-lhe o vestido, nem viu os seus lábios tentarem, angustiados, dizer o nome dela, nem viu as duas lágrimas grandes, grossas, como punhos, que escorreram daqueles olhos grandes e escuros e se perderam, desoladas, na almofada!
Ana também não a viu abrir a boca, no desesperado espasmo da falta de ar, nem ouviu o seu leve estertor, tão leve, como um adejar de pássaro aflito, nem viu o pânico estampado no rosto desfigurado da mãe, a enfrentar, na mais profunda solidão, o supremo mistério da morte!
Gustavo deu-lhe um toque para o telemóvel.
Ela aconchegou-se com um arrepio, no casaco de peles e correu ao encontro dele, como se fugisse da mãe, daquela agonia lenta e, talvez também, de si própria, com duas pétalas da rosa branca, ainda presas na orla do vestido, mas que acabaram por cair, desamparadas, na carpete da entrada, como lágrimas de adeus!
Egoísmo/ Indiferença (Pecado Mortal)
MC
Ana viu-se, mais uma vez ao espelho e sorriu, feliz, no seu vestido vaporoso em suaves tons pastel. Ía começar o novo ano, com cores bonitas, claras e radiosas que prenunciassem alegria e tudo de bom, nos próximos doze meses.
O Gustavo viria buscá-la dentro de um quarto de hora.
O penteado e a maquilhagem tinham ficado perfeitos, e o vestido, assentava-lhe como uma luva.
Estava bonita, envolta num delicado perfume, a rosas e a jasmim e emanava dela a luz radiosa da mulher que se sente bem consigo própria.
Uma nuvem, contudo, toldou-lhe o brilho do olhar e os traços do seu rosto endureceram ligeiramente, quando se lembrou da Mãe, no quarto ao lado.
Mas, que poderia ela fazer?
“Esta noite, entre todas as noites, tenho de sair e divertir-me! Esta noite, quero esquecer este pesadelo, este drama que me consome! Chega!”, pensou.
A mãe, quase inconsciente, jazia na cama. Não falava, não se mexia, era alimentada por sonda e só nos olhos grandes, escuros e ainda bonitos, se parecia concentrar o sopro de vida que ainda pulsava nela!
A senhora Irene, a empregada da casa, dissera-lhe, compungida e, talvez um pouco reprovadora, nessa manhã, que estava preocupada porque achava a mãe diferente.
Diferente, como? A mãe, há muito que estava sempre na mesma: imóvel, calada, sem reacção, como uma concha vazia.
Os hospitais não deviam mandar para casa doentes, no estado em que se encontrava a mãe.
Diziam que era para se sentirem mais confortáveis no aconchego da família e do lar! Mais confortáveis, como?
A mãe já não parecia sentir nada e ela, Ana, tinha um ritmo de vida que não se compadecia com o aconchego de alguém que já não interagia e parecia tão longe, tão perdida numa ausência triste e fria, sem retorno.
Na verdade, a senhora Irene lá ía cuidando, carinhosamente, da mãe e da limpeza da casa, com a ajuda do serviço de enfermagem domiciliário, todas as manhãs.
À noite, a doente tinha de ficar sozinha. Mas, eram só umas horas e, no estado, de quase completa apatia, em que a mãe se encontrava, não fazia diferença!
O Gustavo devia estar mesmo a chegar.
Não lhe apetecia ir ver a mãe antes de ir para a festa de Passagem de Ano.
Aquele quadro de sombria quietude e profundo silêncio, deprimia-a dolorosamente!
Hesitou à porta mas, num rebate de consciência, entrou, devagarinho, no quarto, o vestido comprido a roçagar mansamente.
A mãe, pequeno vulto, mal perceptível, sob as roupas da cama, olhou-a fixamente, os olhos grandes e escuros, brilhantes de febre ou, talvez de lágrimas.
Ela era uma lufada de vida, de cor e de beleza naquele quarto, mergulhado na penumbra, que cheirava a doença, a uma incipiente dissolução e a uma infinita tristeza!
Ana sentiu uma forte opressão no peito, como se uma presença poderosa dominasse, invisível e destruidora e acentuasse, malévola, o cheiro insidioso e fétido de decadência e de podridão.
Meio-agoniada, Ana levou, num gesto brusco, a mão perfumada ao nariz e a jarra esguia, pousada na mesinha de cabeceira, virou-se, a rosa branca que lá pusera essa manhã, caiu, algumas pétalas soltaram-se e a água ainda a gotejar, ía tornando maior a pocinha cristalina, que se formara, no chão.
Ana assustou-se, estremeceu e, num arrepio, recuou.
“Até logo, Mãe!”
E, sem tocar ou beijar o rosto branco e esquálido, saiu do quarto, quase a correr, porque não podia suportar a fixidez daqueles olhos grandes, escuros, misteriosos que lhe atravessavam a alma, como uma súplica, como uma despedida ou... como uma acusação!
E, porque já estava de saída, Ana não viu o movimento ténue, muito ténue da mão descarnada da mãe, como que a querer tocá-la ou prender-lhe o vestido, nem viu os seus lábios tentarem, angustiados, dizer o nome dela, nem viu as duas lágrimas grandes, grossas, como punhos, que escorreram daqueles olhos grandes e escuros e se perderam, desoladas, na almofada!
Ana também não a viu abrir a boca, no desesperado espasmo da falta de ar, nem ouviu o seu leve estertor, tão leve, como um adejar de pássaro aflito, nem viu o pânico estampado no rosto desfigurado da mãe, a enfrentar, na mais profunda solidão, o supremo mistério da morte!
Gustavo deu-lhe um toque para o telemóvel.
Ela aconchegou-se com um arrepio, no casaco de peles e correu ao encontro dele, como se fugisse da mãe, daquela agonia lenta e, talvez também, de si própria, com duas pétalas da rosa branca, ainda presas na orla do vestido, mas que acabaram por cair, desamparadas, na carpete da entrada, como lágrimas de adeus!
Egoísmo/ Indiferença (Pecado Mortal)
MC
terça-feira, 14 de abril de 2009
A jarra de cristal...Josefa?
Não era uma rapariga atraente nem, particularmente simpática.
Trabalhava numa repartição das Finanças e, apesar de ser muito reservada, dava-se bem com todas as outras funcionárias. Era prestável e atenciosa! Vestia modestamente, não ía ao cabeleireiro, não se maquilhava e não se lhe conheciam amigos.
Não comentava os filmes ou, os livros do momento e nunca aceitava os convites das companheiras de trabalho, para uma saída à noite.
Parecia ter dificuldades económicas e poupava tudo o que podia! Comia, no escritório, num canto da sua secretária, o almoço frugal que trazia de casa.
As outras raparigas, às vezes convidavam-na, com o pretexto de uma qualquer celebração, para almoçar com elas, porque as incomodava a melancolia, o acanhamento e a pobreza envergonhada que julgavam advinhar na Josefa.
E, lamentavam a vida estreita e vazia daquela mulher ainda jovem mas, tão despojada, tão limitada, tão tristemente, solitária!
No entanto, a Josefa não era pobre! Tinha dinheiro, muito dinheiro, que herdara de uma velha tia de quem tratara com desvelo mas, com os olhos postos no testamento e na avultada herança que ela, por sua morte, esperava, avara e ansiosa!
Tinha, no apartamento onde morara com a tia, um pequeno cofre, aparafusado, num roupeiro, onde guardava, com reverência, algumas dezenas de notas, novas e tersas, só para ter o infinito prazer de as ver, de as tocar suavemente, de as cheirar, deliciada!
Despida, deitada na cama, era já um ritual seu, colocá-las sobre o rosto, sobre os seios, sobre a barriga e sobre as coxas.
Com os olhos fechados, muito quieta, a respiração um pouco opressa, sentia uma ansiedade esquisita, uma exaltação que quase fazia doer e o suor escorria, como se estivesse em fogo, deixando-lhe a pele viscosa e o cabelo empastado na nuca!
O seu corpo nunca tinha sido fonte de prazer para ninguém, nem ela nunca sentira aquele arrebatamento, aquela plenitude quase divina, de dois corpos que se fundem, no acto carnal de desejo e de, digamos, amor!
Mas, nesses momentos de intenso deleite, em que as notas pousadas, de leve, sobre si, pareciam ter dedos, que a acariciavam e lhe tocavam a pele com a sensualidade morna, fremente e erótica de um amante, era como se , sem ela saber, estivesse a viver uma impensável relação de amor e de sexo, com aqueles pedaços de papel, que a cobriam! Era, então, que lhes chamava queridas e sentia a profunda frustação de não as poder abraçar com força, contra o peito nú!
Era, certamente, uma perversidade mas, Josefa amava o dinheiro com a avidez, o encantamento e a luxúria com que se entregaria ao ser amado!
Eram lindas e coloridas as notas que, nos seus momentos de delírio, pareciam dedilhar, docemente, o seu corpo e que ela manuseava com um imenso cuidado e carinho!
Era, talvez, esse traço estranho, desagradável e perverso que se escondia na Josefa, que afastava as pessoas que conviviam com ela, sem que, elas próprias soubessem explicar o porquê da sua instintiva repulsa!
Um dia, uma das raparigas do escritório, a Inês, que comprara um apartamento, convidou-as para um pequeno jantar, no Sábado seguinte, para celebrar a a beleza da sua casa nova e o seu arrojo na compra!
Pensaram na Josefa, sempre só, e decidiram que ninguém levaria os namorados: era um jantar de mulheres!
A Inês mandaria vir pizzas, a Madalena, a Rita e a Sofia ofereceram-se para tratar das sobremesas, que teriam de ser variadas!
A Josefa não se ofereceu para levar nada, o que não surpreendeu ninguém e recusou participar no pequeno presente que todas queriam dar, em conjunto, dizendo que queria fazer uma surpresa!
A Inês e ela apanhavam, cada uma o seu autocarro, na mesma paragem.
Num fim de tarde, nessa semana, era ainda cedo e entretiveram-se a ver a cara e requintada loja de porcelanas e de cristais, que ficava mesmo em frente.
De repente, a Inês apontou para uma lindíssima e elegante jarra de cristal cor-de rosa e disse que um dia teria uma exactamente assim, fosse qual fosse o seu preço! Depois riu-se da sua tolice, despediu-se e correu para o autocarro que, entretanto, chegara.
A Josefa mal a ouvia! Desde o convite para o jantar, andava inquieta e preocupada com o presente, com a tal surpresa que prometera fazer! Não queria, isso não, gastar dinheiro!
Na Sexta-feira, antes de apanhar o autocarro, olhou, distraída para a montra da loja dos cristais e decidiu entrar. Talvez, quem sabe, encontrasse qualquer bugiganga pequenina e barata.
Quando entrou, viu, quase junto ao balcão, cinco pedaços de cristal cor-de–rosa que lhe lembraram, de imediato, a jarra da montra.
Josefa olhou, curiosa, para a empregada e disse:” Não me diga que estes pedaços, aqui caídos, são o que resta daquela linda jarra que esteve na montra?
“ Foi um cliente que a partiu! Felizmente, eu tinha outra em armazém mas, o descuido ficou-lhe caro! Levou uma jarra e pagou duas!”
A empregada, uma rapariguita com um aborrecimento mortal estampado no rosto, preparava-se para os apanhar os cinco pedaços quebrados quando, num relâmpago, a Josefa teve o que lhe pareceu ser uma ideia genial! Observou a empregada que lhe pareceu pouco esperta e muito contrariada por ter de estar ali, na loja, sem clientes!
Então, respirou fundo e disse: “ Ao ver estes pedaços de cristal, pensei pregar uma partida à minha irmã mais nova que tem estado insuportável. Poderia, por favor, pô-los na embalagem e fazer um embrulho bonito, como se a jarra estivesse perfeita e fosse um presente?
A empregada olhou para a Josefa com espanto e meio-desconfiada! Josefa apressou-se a dizer: “ Irmã mais nova, sabe? Fazia-lhe muito bem uma liçãozinha...!
Enquanto ela fazia o embrulho com um bonito papel e um vistoso laço com duas pequenas rosas de cetim presas, no centro, a Josefa foi passeando pela loja, sentindo uma excitação quase incontrolável que não a deixava estar parada, inundada por um imenso alívio e uma satisfação fantástica consigo própria!
“Foi uma sorte! Foi uma sorte!” repetia baixinho.
No Sábado, à noite, quando a Inês abriu a porta, foi uma Josefa quase sufocada de aflição e lavada em lágrimas, que lhe entrou , de rompante, pela casa dentro: “ Caí, Inês! Comprei-te aquela jarra de cristal cor-de–rosa de que tanto gostaste, lembras-te? Mas, tropecei ao descer o passeio, caí desamparada e a jarra partiu-se! Tenho a certeza, Inês, partiu-se! E agora...?
A Inês tentou acalmar a Josefa abraçando-a com afecto: “ A jarra de cristal... Josefa? Para mim? Sossega! O que interessa é a intenção e tu foste amorosa!
Mas, sabes, acho que a jarra está intacta! Não se partiu, vais ver! Aliás não se ouve o som de pedaços de cristal a chocalhar!”
E, abanou suavemente a caixa que permaneceu silenciosa!
Josefa empalideceu e ficou rígida! Não podia ser possível...
Inês, tirou o o laço e o papel devagar e com muito cuidado, como que, para saborear, por mais tempo, o momento delicioso de abrir um presente tão desejado! A jarra era tão linda!
Depois, com um gesto manso, abriu a caixa onde, perante o desapontamento da Inês, o assombro de todas e o olhar horrorizado da Josefa, se aninhavam, num nicho, em forma de jarra, forrado a papel de veludo azul, cinco pedaços de cristal cor-de-rosa, cada um dos quais, cuidadosamente, embrulhado em delicado papel de seda!
"A Luxúria é como a Avareza: quanto mais tesouros tem, mais sôfrega se torna"
(Montesquieu)
Luxúria/ Avareza( Pecados mortais)
MC
Trabalhava numa repartição das Finanças e, apesar de ser muito reservada, dava-se bem com todas as outras funcionárias. Era prestável e atenciosa! Vestia modestamente, não ía ao cabeleireiro, não se maquilhava e não se lhe conheciam amigos.
Não comentava os filmes ou, os livros do momento e nunca aceitava os convites das companheiras de trabalho, para uma saída à noite.
Parecia ter dificuldades económicas e poupava tudo o que podia! Comia, no escritório, num canto da sua secretária, o almoço frugal que trazia de casa.
As outras raparigas, às vezes convidavam-na, com o pretexto de uma qualquer celebração, para almoçar com elas, porque as incomodava a melancolia, o acanhamento e a pobreza envergonhada que julgavam advinhar na Josefa.
E, lamentavam a vida estreita e vazia daquela mulher ainda jovem mas, tão despojada, tão limitada, tão tristemente, solitária!
No entanto, a Josefa não era pobre! Tinha dinheiro, muito dinheiro, que herdara de uma velha tia de quem tratara com desvelo mas, com os olhos postos no testamento e na avultada herança que ela, por sua morte, esperava, avara e ansiosa!
Tinha, no apartamento onde morara com a tia, um pequeno cofre, aparafusado, num roupeiro, onde guardava, com reverência, algumas dezenas de notas, novas e tersas, só para ter o infinito prazer de as ver, de as tocar suavemente, de as cheirar, deliciada!
Despida, deitada na cama, era já um ritual seu, colocá-las sobre o rosto, sobre os seios, sobre a barriga e sobre as coxas.
Com os olhos fechados, muito quieta, a respiração um pouco opressa, sentia uma ansiedade esquisita, uma exaltação que quase fazia doer e o suor escorria, como se estivesse em fogo, deixando-lhe a pele viscosa e o cabelo empastado na nuca!
O seu corpo nunca tinha sido fonte de prazer para ninguém, nem ela nunca sentira aquele arrebatamento, aquela plenitude quase divina, de dois corpos que se fundem, no acto carnal de desejo e de, digamos, amor!
Mas, nesses momentos de intenso deleite, em que as notas pousadas, de leve, sobre si, pareciam ter dedos, que a acariciavam e lhe tocavam a pele com a sensualidade morna, fremente e erótica de um amante, era como se , sem ela saber, estivesse a viver uma impensável relação de amor e de sexo, com aqueles pedaços de papel, que a cobriam! Era, então, que lhes chamava queridas e sentia a profunda frustação de não as poder abraçar com força, contra o peito nú!
Era, certamente, uma perversidade mas, Josefa amava o dinheiro com a avidez, o encantamento e a luxúria com que se entregaria ao ser amado!
Eram lindas e coloridas as notas que, nos seus momentos de delírio, pareciam dedilhar, docemente, o seu corpo e que ela manuseava com um imenso cuidado e carinho!
Era, talvez, esse traço estranho, desagradável e perverso que se escondia na Josefa, que afastava as pessoas que conviviam com ela, sem que, elas próprias soubessem explicar o porquê da sua instintiva repulsa!
Um dia, uma das raparigas do escritório, a Inês, que comprara um apartamento, convidou-as para um pequeno jantar, no Sábado seguinte, para celebrar a a beleza da sua casa nova e o seu arrojo na compra!
Pensaram na Josefa, sempre só, e decidiram que ninguém levaria os namorados: era um jantar de mulheres!
A Inês mandaria vir pizzas, a Madalena, a Rita e a Sofia ofereceram-se para tratar das sobremesas, que teriam de ser variadas!
A Josefa não se ofereceu para levar nada, o que não surpreendeu ninguém e recusou participar no pequeno presente que todas queriam dar, em conjunto, dizendo que queria fazer uma surpresa!
A Inês e ela apanhavam, cada uma o seu autocarro, na mesma paragem.
Num fim de tarde, nessa semana, era ainda cedo e entretiveram-se a ver a cara e requintada loja de porcelanas e de cristais, que ficava mesmo em frente.
De repente, a Inês apontou para uma lindíssima e elegante jarra de cristal cor-de rosa e disse que um dia teria uma exactamente assim, fosse qual fosse o seu preço! Depois riu-se da sua tolice, despediu-se e correu para o autocarro que, entretanto, chegara.
A Josefa mal a ouvia! Desde o convite para o jantar, andava inquieta e preocupada com o presente, com a tal surpresa que prometera fazer! Não queria, isso não, gastar dinheiro!
Na Sexta-feira, antes de apanhar o autocarro, olhou, distraída para a montra da loja dos cristais e decidiu entrar. Talvez, quem sabe, encontrasse qualquer bugiganga pequenina e barata.
Quando entrou, viu, quase junto ao balcão, cinco pedaços de cristal cor-de–rosa que lhe lembraram, de imediato, a jarra da montra.
Josefa olhou, curiosa, para a empregada e disse:” Não me diga que estes pedaços, aqui caídos, são o que resta daquela linda jarra que esteve na montra?
“ Foi um cliente que a partiu! Felizmente, eu tinha outra em armazém mas, o descuido ficou-lhe caro! Levou uma jarra e pagou duas!”
A empregada, uma rapariguita com um aborrecimento mortal estampado no rosto, preparava-se para os apanhar os cinco pedaços quebrados quando, num relâmpago, a Josefa teve o que lhe pareceu ser uma ideia genial! Observou a empregada que lhe pareceu pouco esperta e muito contrariada por ter de estar ali, na loja, sem clientes!
Então, respirou fundo e disse: “ Ao ver estes pedaços de cristal, pensei pregar uma partida à minha irmã mais nova que tem estado insuportável. Poderia, por favor, pô-los na embalagem e fazer um embrulho bonito, como se a jarra estivesse perfeita e fosse um presente?
A empregada olhou para a Josefa com espanto e meio-desconfiada! Josefa apressou-se a dizer: “ Irmã mais nova, sabe? Fazia-lhe muito bem uma liçãozinha...!
Enquanto ela fazia o embrulho com um bonito papel e um vistoso laço com duas pequenas rosas de cetim presas, no centro, a Josefa foi passeando pela loja, sentindo uma excitação quase incontrolável que não a deixava estar parada, inundada por um imenso alívio e uma satisfação fantástica consigo própria!
“Foi uma sorte! Foi uma sorte!” repetia baixinho.
No Sábado, à noite, quando a Inês abriu a porta, foi uma Josefa quase sufocada de aflição e lavada em lágrimas, que lhe entrou , de rompante, pela casa dentro: “ Caí, Inês! Comprei-te aquela jarra de cristal cor-de–rosa de que tanto gostaste, lembras-te? Mas, tropecei ao descer o passeio, caí desamparada e a jarra partiu-se! Tenho a certeza, Inês, partiu-se! E agora...?
A Inês tentou acalmar a Josefa abraçando-a com afecto: “ A jarra de cristal... Josefa? Para mim? Sossega! O que interessa é a intenção e tu foste amorosa!
Mas, sabes, acho que a jarra está intacta! Não se partiu, vais ver! Aliás não se ouve o som de pedaços de cristal a chocalhar!”
E, abanou suavemente a caixa que permaneceu silenciosa!
Josefa empalideceu e ficou rígida! Não podia ser possível...
Inês, tirou o o laço e o papel devagar e com muito cuidado, como que, para saborear, por mais tempo, o momento delicioso de abrir um presente tão desejado! A jarra era tão linda!
Depois, com um gesto manso, abriu a caixa onde, perante o desapontamento da Inês, o assombro de todas e o olhar horrorizado da Josefa, se aninhavam, num nicho, em forma de jarra, forrado a papel de veludo azul, cinco pedaços de cristal cor-de-rosa, cada um dos quais, cuidadosamente, embrulhado em delicado papel de seda!
"A Luxúria é como a Avareza: quanto mais tesouros tem, mais sôfrega se torna"
(Montesquieu)
Luxúria/ Avareza( Pecados mortais)
MC
segunda-feira, 30 de março de 2009
Que vais fazer da tua vida...Bernardo?
Chamo-me Bernardo.
Os meus amigos dizem que tenho um nome “ bué” de chic! Eu não acho nada!
Tenho quinze anos e estou na Tutoria ou, melhor, num Colégio de Correcção, em regime de vigilância especial.
A minha mãe é prostituta e era traficante de droga mas, está presa, há uns meses. Compreendo-a! Todo o dinheiro era pouco para fazer face às despesas. Tenho mais dois irmãos e uma irmã. Todos mais novos do que eu.
O meu pai? Sei lá quem é o meu pai! Se calhar, nem a minha mãe sabe! Mas, bem ou mal, criou-nos, a todos, sozinha!
Tinha doze anos quando comecei a andar com um gangue, no gamanço. Até tenho jeito e não me estava a sair nada mal! O chefe, um gajo de dezassete anos, o João, gostava de mim e do meu trabalho mas, tive o azar de ser apanhado!
E, aqui estou na Tutoria, quer dizer, neste Colégio de Correcção, para me corrigir e para me fazer um homem digno e honesto, um cidadão de bem e de valor, na sociedade a que pertenço, como dizem os nossos superiores!
No entanto, acho que nem eles acreditam no que dizem e sabem que, nunca seremos dignos, nem honestos, nem nunca teremos importância nenhuma na sociedade a que, parece, pertencemos!!
No que a mim diz respeito, não será fácil ou, mesmo possível, mudar os hábitos de sorna lazarenta que me agradam e deixar a vida de rua e de roubo, a única que sempre conheci!
Tempos houve, em que a minha mãe tentou mudar o destino: conseguiu arranjar um emprego precário, é claro, e um namorado estável. Durante dois anos vivemos razoavelmente bem e senti-me quase feliz!
Mas, ela engravidou da minha irmã, perdeu, imediatamente,o emprego e o namorado deu à sola!
Voltou tudo à estaca zero!
Acho que é por isso que nunca gostei da minha irmã, nunca lhe consegui pegar ao colo e tudo me impacienta nela! Estragou, ao nascer, o pouco, mas bom, que tínhamos!!
Dizem que sou indisciplinado e agressivo! A verdade é que odeio estar aqui preso, sim, porque isto é uma prisão camuflada sob a caridosa etiqueta de Colégio mas, onde impera o regime autoritário e duro de uma cadeia e me obrigam a estudar!
Temos professores que vêm aqui dar-nos as aulas e são outros, de fora, que vêm fazer-nos os exames.
Esses, os que vêm de fora, dão-me vontade de rir! Falam baixinho, sorriem, com um sorriso plastificado, colado nos lábios e tratam-nos como se estivéssemos doentes e tivessem medo de se conspurcar, em contacto connosco! Algumas, as mais patéticas, trazem-nos rebuçados, chocolates ou bolachas, como quem dá uns ossitos a cãezinhos!
Não, a comparação não é correcta! Porque os cães que recebem ossinhos e bolachas, vão ao veterinário, são bem alimentados, são queridos e têm muito mimo!
Nós, não!
Elas dão-nos os rebuçados, os chocolates e as bolachas porque não se sentem à vontade connosco e bem lá no fundo, têm medo destes rapazes que roubaram, foram agressivos, violaram e, em situações limite, podem, talvez, ter assassinado! E, continuam instáveis!
Na tutoria, quer dizer, no Colégio de Correcção, dizem-nos para agradecer essas amabilidades! A mim, apetece-me atirar-lhes com aquelas míseras guloseimas à cara e mandá-las para o raio que as parta!
Advinho-lhes, aliás, o mal disfarçado alívio, quando se vão embora, com os seus sorrisos de plástico mas, ansiosas e apressadas!
Apesar de tudo e da minha frieza, tenho pena que a minha mãe tenha andado a vender o corpo na prostituição e a alma, no tráfico da droga!
Mas, francamente, acho que não gosto dela! É seca, fria, ríspida e agressiva!
Tenho saudades de beijos, de palavras carinhosas e de incentivo, de mimos inesperados, mesmo sem nunca ter tido nada disso!
Tenho sede do carinho da minha mãe, que já se esqueceu de mim, há muito tempo e do afecto e do companheirismo do pai que nunca conheci!
Às vezes, nos meus momentos de delírio, penso como tudo seria diferente se eu tivesse vivido com os meus pais e com os meus irmãos, numa casa confortável e ter, o que chamam, uma vida normal e tranquila!
Gostava, sobretudo, de poder comprar música, muita música, roupas que me ficassem bem e usar um perfume bom, quente e sensual, como o do nosso director!
Penso que, nessa situação, até ía gostar de ir à escola, curtir umas saídas com os amigos e conhecer umas miúdas giras, que não fossem fáceis e soubessem conversar, sem dizerem um palavrão em cada três palavras!
Gostava , mesmo, de ter uma namorada que me curtisse, como sou: feio, com espinhas na cara e desengonçado!
É por tudo isto, que vivo roído de inveja! Tenho uma inveja tremenda dos gajos da minha idade que são bem-parecidos e atraentes, andam bem vestidos e cheiram bem, que sempre tiveram uma vida confortável, um quarto só para eles, com computador e televisão e nunca se viram atirados para o gamanço, porque era preciso trazer dinheiro para casa!
Tenho inveja da comidinha boa que sempre tiveram, na mesa, da cama quente e do beijo da mãe antes de adormecer!
Tenho uma inveja danada do sucesso que esses gajos têm junto das miúdas mais giras da escola!
Dizem que cobiça é querer o que não se tem!
Inveja é querer que o outro não tenha o que não se tem e mostra o instinto do roubo!
Eu, que não sou filósofo, acho que ando roído por tudo isso, pela cobiça e pela inveja! E, também por esta revolta, esta raiva imensa que me sufoca e me consome e que estas grades pesadas, que me prendem, não conseguem conter e nunca irão extinguir!
Porque não é aqui, nem em lado nenhum que me vou corrigir e tornar-me num homem digno, um homem de bem e honesto, como eles dizem, embora não acreditem!
Mas, tudo isso, agora, não interessa nada!
Sei, isso sim, que já tenho uma vida, à minha medida, lá fora, à minha espera!
Uma vida, como a de nós todos, que aqui estamos, que é um beco escuro, sem saída, onde não se vislumbra a Esperança, nem se vê Futuro! Porque, se calhar, nem queremos!
Vou, aliás, ter de parar de escrever porque, para dizer a verdade, não vejo mesmo nada!
Estou cego pelas lágrimas grossas de pura raiva, que me encharcam o rosto e por esta inveja má, virulenta, medonha, cada vez mais forte, cada vez mais mortal, cada vez mais, profundamente, enraizada em mim!
MC
( A Inveja - Pecado Mortal)
Os meus amigos dizem que tenho um nome “ bué” de chic! Eu não acho nada!
Tenho quinze anos e estou na Tutoria ou, melhor, num Colégio de Correcção, em regime de vigilância especial.
A minha mãe é prostituta e era traficante de droga mas, está presa, há uns meses. Compreendo-a! Todo o dinheiro era pouco para fazer face às despesas. Tenho mais dois irmãos e uma irmã. Todos mais novos do que eu.
O meu pai? Sei lá quem é o meu pai! Se calhar, nem a minha mãe sabe! Mas, bem ou mal, criou-nos, a todos, sozinha!
Tinha doze anos quando comecei a andar com um gangue, no gamanço. Até tenho jeito e não me estava a sair nada mal! O chefe, um gajo de dezassete anos, o João, gostava de mim e do meu trabalho mas, tive o azar de ser apanhado!
E, aqui estou na Tutoria, quer dizer, neste Colégio de Correcção, para me corrigir e para me fazer um homem digno e honesto, um cidadão de bem e de valor, na sociedade a que pertenço, como dizem os nossos superiores!
No entanto, acho que nem eles acreditam no que dizem e sabem que, nunca seremos dignos, nem honestos, nem nunca teremos importância nenhuma na sociedade a que, parece, pertencemos!!
No que a mim diz respeito, não será fácil ou, mesmo possível, mudar os hábitos de sorna lazarenta que me agradam e deixar a vida de rua e de roubo, a única que sempre conheci!
Tempos houve, em que a minha mãe tentou mudar o destino: conseguiu arranjar um emprego precário, é claro, e um namorado estável. Durante dois anos vivemos razoavelmente bem e senti-me quase feliz!
Mas, ela engravidou da minha irmã, perdeu, imediatamente,o emprego e o namorado deu à sola!
Voltou tudo à estaca zero!
Acho que é por isso que nunca gostei da minha irmã, nunca lhe consegui pegar ao colo e tudo me impacienta nela! Estragou, ao nascer, o pouco, mas bom, que tínhamos!!
Dizem que sou indisciplinado e agressivo! A verdade é que odeio estar aqui preso, sim, porque isto é uma prisão camuflada sob a caridosa etiqueta de Colégio mas, onde impera o regime autoritário e duro de uma cadeia e me obrigam a estudar!
Temos professores que vêm aqui dar-nos as aulas e são outros, de fora, que vêm fazer-nos os exames.
Esses, os que vêm de fora, dão-me vontade de rir! Falam baixinho, sorriem, com um sorriso plastificado, colado nos lábios e tratam-nos como se estivéssemos doentes e tivessem medo de se conspurcar, em contacto connosco! Algumas, as mais patéticas, trazem-nos rebuçados, chocolates ou bolachas, como quem dá uns ossitos a cãezinhos!
Não, a comparação não é correcta! Porque os cães que recebem ossinhos e bolachas, vão ao veterinário, são bem alimentados, são queridos e têm muito mimo!
Nós, não!
Elas dão-nos os rebuçados, os chocolates e as bolachas porque não se sentem à vontade connosco e bem lá no fundo, têm medo destes rapazes que roubaram, foram agressivos, violaram e, em situações limite, podem, talvez, ter assassinado! E, continuam instáveis!
Na tutoria, quer dizer, no Colégio de Correcção, dizem-nos para agradecer essas amabilidades! A mim, apetece-me atirar-lhes com aquelas míseras guloseimas à cara e mandá-las para o raio que as parta!
Advinho-lhes, aliás, o mal disfarçado alívio, quando se vão embora, com os seus sorrisos de plástico mas, ansiosas e apressadas!
Apesar de tudo e da minha frieza, tenho pena que a minha mãe tenha andado a vender o corpo na prostituição e a alma, no tráfico da droga!
Mas, francamente, acho que não gosto dela! É seca, fria, ríspida e agressiva!
Tenho saudades de beijos, de palavras carinhosas e de incentivo, de mimos inesperados, mesmo sem nunca ter tido nada disso!
Tenho sede do carinho da minha mãe, que já se esqueceu de mim, há muito tempo e do afecto e do companheirismo do pai que nunca conheci!
Às vezes, nos meus momentos de delírio, penso como tudo seria diferente se eu tivesse vivido com os meus pais e com os meus irmãos, numa casa confortável e ter, o que chamam, uma vida normal e tranquila!
Gostava, sobretudo, de poder comprar música, muita música, roupas que me ficassem bem e usar um perfume bom, quente e sensual, como o do nosso director!
Penso que, nessa situação, até ía gostar de ir à escola, curtir umas saídas com os amigos e conhecer umas miúdas giras, que não fossem fáceis e soubessem conversar, sem dizerem um palavrão em cada três palavras!
Gostava , mesmo, de ter uma namorada que me curtisse, como sou: feio, com espinhas na cara e desengonçado!
É por tudo isto, que vivo roído de inveja! Tenho uma inveja tremenda dos gajos da minha idade que são bem-parecidos e atraentes, andam bem vestidos e cheiram bem, que sempre tiveram uma vida confortável, um quarto só para eles, com computador e televisão e nunca se viram atirados para o gamanço, porque era preciso trazer dinheiro para casa!
Tenho inveja da comidinha boa que sempre tiveram, na mesa, da cama quente e do beijo da mãe antes de adormecer!
Tenho uma inveja danada do sucesso que esses gajos têm junto das miúdas mais giras da escola!
Dizem que cobiça é querer o que não se tem!
Inveja é querer que o outro não tenha o que não se tem e mostra o instinto do roubo!
Eu, que não sou filósofo, acho que ando roído por tudo isso, pela cobiça e pela inveja! E, também por esta revolta, esta raiva imensa que me sufoca e me consome e que estas grades pesadas, que me prendem, não conseguem conter e nunca irão extinguir!
Porque não é aqui, nem em lado nenhum que me vou corrigir e tornar-me num homem digno, um homem de bem e honesto, como eles dizem, embora não acreditem!
Mas, tudo isso, agora, não interessa nada!
Sei, isso sim, que já tenho uma vida, à minha medida, lá fora, à minha espera!
Uma vida, como a de nós todos, que aqui estamos, que é um beco escuro, sem saída, onde não se vislumbra a Esperança, nem se vê Futuro! Porque, se calhar, nem queremos!
Vou, aliás, ter de parar de escrever porque, para dizer a verdade, não vejo mesmo nada!
Estou cego pelas lágrimas grossas de pura raiva, que me encharcam o rosto e por esta inveja má, virulenta, medonha, cada vez mais forte, cada vez mais mortal, cada vez mais, profundamente, enraizada em mim!
MC
( A Inveja - Pecado Mortal)
quarta-feira, 25 de março de 2009
Eu, preguiçosamente, a espreguiçar-me ao sol...
O dia está radioso!
O sofá de veludo azul onde, preguiçosamente, me estendo, está inundado de sol.
Estico os meus braços esguios e, as minhas unhas pintadas, brilham suavemente como pedacinhos de nácar.
Estendo as pernas compridas e rebolo, na maciez azul do veludo, o meu corpo voluptuoso, que se expande, num suspiro de intenso prazer!
O sol beija o meu corpo e arranca mil reflexos de oiro,da minha pele, sedosa e macia. Dizem que sou bela! Sei que sou bela e com a vivaz sensualidade que perpassa no quadro “ Olympia”, de Manet!
A luz é intensa e semi-cerro os olhos claros, de um verde tenro e líquido, pontilhados de oiro!
Há pó no ar. Franzo o nariz, pequeno diamante negro e abro a boca, onde brilham os meus dentes, pequeninos e brancos, como pedrinhas de sal, num bocejo de puro gozo, de deliciosa preguiça!
Uma noite, ao serão, ouvi alguém falar de um livro "Oblomov, o magnífico preguiçoso"
de um escritor russo, Ivan Goncharov!
Simpatizei logo com esse Oblomov! Eu sou como ele, uma magnífica e adorável preguiçosa!
Eu sou, aliás, neste momento, a imagem viva da preguiça, a espreguiçar-se, preguiçosamente, ao sol!
Hoje tenho um laço de seda verde, ao pescoço! Adoro a cor verde! Fica-me bem e condiz com os meus olhos!
Daqui a pouco, ele chega. É baixo, careca, e desinteressante. Dizem que é irascível, agressivo e detestável!
Comigo, não! Comigo é terno, sereno e paciente!
Às vezes aborrece-me de morte! Outras vezes, enfurece-me! Como no dia em que, por exemplo, a brincar, ousou pôr, a meu lado, um rato preto de borracha. Delicada, como sou, fugi espavorida, arrepiada quando vi o rato! Tenho horror a ratos!
Eu não sou como essas vadias que andam nas ruas, pelas madrugadas! Eu sou uma menina, respeitável e esplendorosa!
Ele deve estar mesmo a chegar. Que maçada! Sinto-me tão bem, nesta preguiça mole e gostosa!
Quando abrir a porta, vai começar a gritar: Nini, Nini! Que nome ridículo! Chamar-me Nini, a mim, descendente de reis! Eu deveria ter um nome nobre, assim como, Sofia, Letízia, Constança, sei lá...!
Detesto que me chame Nini! Detesto que me chame bichaninha! Detesto! Detesto!
Ah! Que sol tão bom, tão suave!
Como é delicioso preguiçar-me, num sofá de veludo azul, onde posso espetar e polir as minhas unhas cor-de rosa!
Sinto-me bem! Sinto-me bela e absolutamente perfeita, a rebolar-me, feliz, nesta preguiça branda!
Chegou! Já o ouço aos gritos: Nini! Nini!
Se ele pensa que vou levantar, para ir, a correr ter com ele e interromper, assim de repente, este doce enlevo de sossego e de paz, está muito enganado!
Ele é que tem de vir ter comigo e esfregar-me a barriga! Por acaso, hoje, apetece-me imenso que me acaricie a barriga! Que é cor-de-rosa e macia!
Depois de me maçar com os seus cumprimentos, o ritual é sempre o mesmo: bebe o seu whisky de malte e eu bebo também umas gotinhas, desde que seja Glenrothes. Adoro este whisky! É bom e doirado como o sol!
Em seguida, abraça-me! Mas, se amarrota ou, tira do lugar, o meu laço de seda verde, dou-lhe uma arranhadela, na careca! Não, dou-lhe duas arranhadelas, na careca!
Preciso de ir ao instituto de beleza e se o magoar muito, ele leva-me lá mais depressa!
Lá fora, dizem, ele é agressivo e intratável. Até me contaram que confessou, aos gritos, na Assembleia da República, que é uma assembleia muito importante, que gosta de malhar à direita e à esquerda! Mas, cá em casa, sou eu que malho nele, quer dizer, sou eu que lhe dou unhadas e o esgatanho! Quando me aborrece ou, como daquela vez em que me assustou, de morte, com o rato preto de borracha!
Mas, não posso exagerar! A Teté, a minha querida amiga, está tão infeliz, tão magrinha, até envelheceu. O senhor lá da casa era banqueiro, não sei que tipo de bancos fazia, foi à falência e ela, coitadinha, nunca mais comeu filet mignon, nem pescada fresca! Nem parece a mesma!
Este, por enquanto, está no Governo, ouvi dizer que é responsável pela Defesa. O que ele defende, eu não sei, nem interessa nada! O que eu sei é se vai governando e está tudo bem cá em casa!
É que eu sou esquisita! Como membro da mais depurada realeza, sou alérgica a sardinhas e a carapau! Só como carne, se for filet mignon e peixe, só se for suave e carnudo e não tiver espinhas!
“Então, Nini, não vens ter com o papá?”
E, pegou-me ao colo! Adoro ser preguiçosa e odeio que me incomodem, quando descanso! Tirou-me do sol e eu dou-lhe uma unhada!Não, dou-lhe duas unhadas!
“Vá lá, Nini, trouxe-te o teu perfume, um patê francês, que mandei vir, especialmente, de Paris, para ti e arranhas o papá? Menina ingrata!
Por falar em arranhar, amanhã vais ao “Poupée Beauté”, para te tratarem e pintarem as unhas e escovar essa pelagem maravilhosa que está um pouco baça. E, como te sinto muito tensa, Nini, vou marcar-te uma semana no “Ronron`s Spa”. Precisas de umas massagens com óleos relaxantes, uns tratamentos com pedras quentes e uma pequena dieta de desintoxicação! Que dizes, gatinha querida?”
Estou sem fala! Estou entalada de comoção!
“Então, Nini, nem sequer te ouço um Miau de agradecimento?”
Ele ensandeceu! Tanto malhou à direita, tanto malhou à esquerda, que enlouqueceu! Eu, uma gata de raça nobre, eu, uma felina da mais pura linhagem, eu, uma tigreza elegante, requintada, fina, com sangue real persa a correr-me nas veias, soltar um suburbano Miau?
Mas, enfim, enquanto este careca insignificante se vai governando no Governo e vai malhando nos outros, a verdade é que, a mim, enche-me de mimos, e trata-me com todos os cuidados e a veneração a que tenho direito, como a princesa persa que sou! E, simplesmente, adora-me!
A vida é bela!
É claro,que não vou, jamais, soltar um mísero Miau! Mas, para lhe agradar, sussuro-lhe, mesmo junto da possidónia orelhinha, um chic, doce e encantador Miôôôô...
MC
( A Preguiça - Pecado Mortal)
O sofá de veludo azul onde, preguiçosamente, me estendo, está inundado de sol.
Estico os meus braços esguios e, as minhas unhas pintadas, brilham suavemente como pedacinhos de nácar.
Estendo as pernas compridas e rebolo, na maciez azul do veludo, o meu corpo voluptuoso, que se expande, num suspiro de intenso prazer!
O sol beija o meu corpo e arranca mil reflexos de oiro,da minha pele, sedosa e macia. Dizem que sou bela! Sei que sou bela e com a vivaz sensualidade que perpassa no quadro “ Olympia”, de Manet!
A luz é intensa e semi-cerro os olhos claros, de um verde tenro e líquido, pontilhados de oiro!
Há pó no ar. Franzo o nariz, pequeno diamante negro e abro a boca, onde brilham os meus dentes, pequeninos e brancos, como pedrinhas de sal, num bocejo de puro gozo, de deliciosa preguiça!
Uma noite, ao serão, ouvi alguém falar de um livro "Oblomov, o magnífico preguiçoso"
de um escritor russo, Ivan Goncharov!
Simpatizei logo com esse Oblomov! Eu sou como ele, uma magnífica e adorável preguiçosa!
Eu sou, aliás, neste momento, a imagem viva da preguiça, a espreguiçar-se, preguiçosamente, ao sol!
Hoje tenho um laço de seda verde, ao pescoço! Adoro a cor verde! Fica-me bem e condiz com os meus olhos!
Daqui a pouco, ele chega. É baixo, careca, e desinteressante. Dizem que é irascível, agressivo e detestável!
Comigo, não! Comigo é terno, sereno e paciente!
Às vezes aborrece-me de morte! Outras vezes, enfurece-me! Como no dia em que, por exemplo, a brincar, ousou pôr, a meu lado, um rato preto de borracha. Delicada, como sou, fugi espavorida, arrepiada quando vi o rato! Tenho horror a ratos!
Eu não sou como essas vadias que andam nas ruas, pelas madrugadas! Eu sou uma menina, respeitável e esplendorosa!
Ele deve estar mesmo a chegar. Que maçada! Sinto-me tão bem, nesta preguiça mole e gostosa!
Quando abrir a porta, vai começar a gritar: Nini, Nini! Que nome ridículo! Chamar-me Nini, a mim, descendente de reis! Eu deveria ter um nome nobre, assim como, Sofia, Letízia, Constança, sei lá...!
Detesto que me chame Nini! Detesto que me chame bichaninha! Detesto! Detesto!
Ah! Que sol tão bom, tão suave!
Como é delicioso preguiçar-me, num sofá de veludo azul, onde posso espetar e polir as minhas unhas cor-de rosa!
Sinto-me bem! Sinto-me bela e absolutamente perfeita, a rebolar-me, feliz, nesta preguiça branda!
Chegou! Já o ouço aos gritos: Nini! Nini!
Se ele pensa que vou levantar, para ir, a correr ter com ele e interromper, assim de repente, este doce enlevo de sossego e de paz, está muito enganado!
Ele é que tem de vir ter comigo e esfregar-me a barriga! Por acaso, hoje, apetece-me imenso que me acaricie a barriga! Que é cor-de-rosa e macia!
Depois de me maçar com os seus cumprimentos, o ritual é sempre o mesmo: bebe o seu whisky de malte e eu bebo também umas gotinhas, desde que seja Glenrothes. Adoro este whisky! É bom e doirado como o sol!
Em seguida, abraça-me! Mas, se amarrota ou, tira do lugar, o meu laço de seda verde, dou-lhe uma arranhadela, na careca! Não, dou-lhe duas arranhadelas, na careca!
Preciso de ir ao instituto de beleza e se o magoar muito, ele leva-me lá mais depressa!
Lá fora, dizem, ele é agressivo e intratável. Até me contaram que confessou, aos gritos, na Assembleia da República, que é uma assembleia muito importante, que gosta de malhar à direita e à esquerda! Mas, cá em casa, sou eu que malho nele, quer dizer, sou eu que lhe dou unhadas e o esgatanho! Quando me aborrece ou, como daquela vez em que me assustou, de morte, com o rato preto de borracha!
Mas, não posso exagerar! A Teté, a minha querida amiga, está tão infeliz, tão magrinha, até envelheceu. O senhor lá da casa era banqueiro, não sei que tipo de bancos fazia, foi à falência e ela, coitadinha, nunca mais comeu filet mignon, nem pescada fresca! Nem parece a mesma!
Este, por enquanto, está no Governo, ouvi dizer que é responsável pela Defesa. O que ele defende, eu não sei, nem interessa nada! O que eu sei é se vai governando e está tudo bem cá em casa!
É que eu sou esquisita! Como membro da mais depurada realeza, sou alérgica a sardinhas e a carapau! Só como carne, se for filet mignon e peixe, só se for suave e carnudo e não tiver espinhas!
“Então, Nini, não vens ter com o papá?”
E, pegou-me ao colo! Adoro ser preguiçosa e odeio que me incomodem, quando descanso! Tirou-me do sol e eu dou-lhe uma unhada!Não, dou-lhe duas unhadas!
“Vá lá, Nini, trouxe-te o teu perfume, um patê francês, que mandei vir, especialmente, de Paris, para ti e arranhas o papá? Menina ingrata!
Por falar em arranhar, amanhã vais ao “Poupée Beauté”, para te tratarem e pintarem as unhas e escovar essa pelagem maravilhosa que está um pouco baça. E, como te sinto muito tensa, Nini, vou marcar-te uma semana no “Ronron`s Spa”. Precisas de umas massagens com óleos relaxantes, uns tratamentos com pedras quentes e uma pequena dieta de desintoxicação! Que dizes, gatinha querida?”
Estou sem fala! Estou entalada de comoção!
“Então, Nini, nem sequer te ouço um Miau de agradecimento?”
Ele ensandeceu! Tanto malhou à direita, tanto malhou à esquerda, que enlouqueceu! Eu, uma gata de raça nobre, eu, uma felina da mais pura linhagem, eu, uma tigreza elegante, requintada, fina, com sangue real persa a correr-me nas veias, soltar um suburbano Miau?
Mas, enfim, enquanto este careca insignificante se vai governando no Governo e vai malhando nos outros, a verdade é que, a mim, enche-me de mimos, e trata-me com todos os cuidados e a veneração a que tenho direito, como a princesa persa que sou! E, simplesmente, adora-me!
A vida é bela!
É claro,que não vou, jamais, soltar um mísero Miau! Mas, para lhe agradar, sussuro-lhe, mesmo junto da possidónia orelhinha, um chic, doce e encantador Miôôôô...
MC
( A Preguiça - Pecado Mortal)
Uma sopa, um par de sapatos e... uns olhos azuis!
Eu tinha casado há pouco tempo e a vida tornara-se muito opressiva, fatigante e maçadora para a menina culta mas, mimada, e displicente que sempre fora.
Como os alemães dizem, “ Aller Anfang ist schwer”! E, de facto, tive dificuldade em me adaptar a um estilo de vida, a uma rotina sem graça, que me era completamente desconhecida: cuidar de uma casa, estudar e dar aulas.
Eu gostava de ter tempo para mim, adorava ler, ouvir música, ir ao restaurante, ao cinema, sair e conversar com as amigas! Agora tudo se modificara!
Vivíamos em Lisboa e eu tentava ser forte e cumprir as minhas novas tarefas mas, sentia-me só, desiludida, insatisfeita! Estava, pois, a atravessar uma fase muito difícil, muito desmotivante e cansativa!
Uma tia tinha-me oferecido, pouco antes de me casar, uma pequena mas lindíssima imagem do Menino Jesus, com os pés descalços, sobre o Mundo.
Era Inverno e faziam-me muita impressão aqueles pézinhos nus, pousados sobre um Mundo gelado, que me parecia tão cinzento, tão complicado e tão diferente do mundo morno e róseo dos meus sonhos!
A realidade pesava-me como uma armadura de ferro que me sofucava e os meus sonhos pareciam-me cada vez mais etéreos e longínquos!
Não sou, propriamente, uma católica praticante regular. Não sei meditar, não sei rezar, porque dificilmente me concentro e não tenho paciência para desfiar orações, com o pensamento a correr doido, à desfilada, por outros caminhos!
Mas, de acordo com as raízes da minha educação judaico-cristã, como a minha filha diz, gostava de “conversar” com a pequena imagem e pedia-Lhe que me ajudasse a ultrapassar o cansaço, o desconsolo e a profunda insatisfação daquela rotina desbotada e esgotante em que a minha vida se estava, paulatinamente, a transformar!
E, porque aqueles pés descalços me afligiam, prometi-Lhe que daria um par de sapatos, a um pobre, como se fosse a Ele mas, só quando eu pudesse, claro! Nesse tempo, as finanças eram muito frágeis!
Num desses meus dias mais cinzentos, vivia, então, num apartamento, no Dafundo, na marginal de Lisboa, tocaram à campainha.
Fui abrir e, no patamar meio-obscurecido, vi diante de mim, um homem alto, magro, o cabelo curto, loiro, encaracolado, quase frisado, com cerca de quarenta e cinco anos, ( pareceu-me, então, um senhor velhote), vestido modestamente, mas limpo.
“ Boa tarde!”
“Boa tarde, menina, pode ajudar-me?”
Quando me voltava para ir buscar uma moeda, ele disse: “Não, dinheiro, não! Uma sopa, por favor!”
Fiquei surpreendida mas, senti-me muito bem comigo mesma, porque tinha precisamente acabado de fazer a sopa para o jantar e, sem pensar, convidei-o a entrar para a cozinha, com o sorriso, a alegria e a confiança, com que se convida um amigo ou, um “velho” conhecido da nossa confiança!
Quando se sentou e o encarei, vi os olhos azuis mais espantosos que, algum dia, se fixaram nos meus!
Eram uns olhos de um azul belíssimo, puro, profundo que não posso comparar a safiras porque estas sairiam a perder e não sei, nunca soube, eu que tanto gosto de brincar com os adjectivos, definir a expressão daquele olhar de céu e de mar!
Não lhe fiz perguntas mas, ele contou-me que tinha saído, nesse dia, do hospital, onde tinha sido operado ao estômago. Não me recordo de me ter dito onde tinha estado internado mas, lembro-me, perfeitamente, da minha consternação porque só tinha, em casa, uma sopa de grão-de-bico para lhe dar!
“ Desculpe, não posso dar-lhe a minha sopa. É de grão-de-bico e é muito pesada! O senhor foi operado ao estômago e pode fazer-lhe mal.”
Nunca, desde que estudei Cesário Verde, digo, ouço leio, vejo ou, como grão-de-bico, que não me lembre do belíssimo poema “A tarde”, a gloriosa tela impressionista, magistralmente pintada com a cor e a beleza das palavras e onde o poeta diz, a certa altura, daquele pic-nic de burguesas “... foste colher, sem imposturas tolas, a um granzoal azul de grão-de-bico um ramalhete rubro de papoulas.”
Mas, ele disse-me com um sorriso sereno e bonito que inundou de luz a cozinha modesta e gasta: “ Posso comer, sim! No hospital davam-me tudo!”
Tirei-lhe a sopa, dei-lhe água, não me lembro se lhe dei pão e retirei-me, para a sala ao lado.
Deixei-o comer sossegado, por delicadeza, para que não se sentisse vigiado e porque, francamente, era difícil despregar os olhos daquele mar de veludo azul!
Quando calculei que tivesse terminado, regressei à cozinha e ofereci-lhe mais sopa. Não quis mais nada mas, delicadamente, disse-me que estava muito boa e que sentia o estômago mais aconchegado.
Meio-encabulada, perguntei-lhe em que o podia ajudar. Ficou calado uns instantes e, quando eu pensava que ele se ía levantar, para ir embora, disse-me baixinho, sem olhar para mim: “Se tivesse uns sapatos que me pudesse dar, agradecia-lhe muito! Os meus estão muito gastos e magoam-me.”
Com espanto, olhei para aqueles olhos de um azul puro, lindíssimo, como nunca vi outros iguais e que, então, fixavam os meus, à espera da minha resposta.
Num impulso, lembrei-me de uns sapatos do meu marido, a um canto da despensa, à espera de serem engraxados.
“ Tenho ali um par mas, não sei se lhe servem!”
Na verdade, os pés dele eram magros mas, aparentemente, bastante mais compridos do que os do meu marido.
“ Não se preocupe, se mos puder dar, servem-me com certeza!”
Dei-lhe os sapatos e ele calçou-os. Mirou os pés com aquele seu sorriso cheio de luz, sereno e bonito e disse: “ Estão muito bem! Muito obrigado! Deus a abençoe!”
Acompanhei-o à porta. Sorriu e eu fiquei, ali, pasmada, por uma fracção de segundos, presa ao azul puro e profundo, daqueles olhos, pousados em mim.
Antes de fechar a porta, desejei-lhe, timidamente, as melhoras. Voltou-se, sorriu, agradeceu e vi aqueles olhos azuis, pela última vez!
Ao escrever este texto, ocorreu-me que nunca soube o seu nome! Não lho perguntei, nem ele mo disse!
Depois de fechar a porta, caí em mim!
Não me preocupei com a minha imprudência, com o perigo em que, impensadamente, me poderia ter posto, ao meter em casa um completo desconhecido, como se fosse um “velho” amigo que merecesse toda a minha confiança!
Não, por estranho que pareça, lembrei-me, primeiro, com um sobressalto de alegria que já tinha cumprido a promessa e, a seguir, preocupei-me, aflita, com os sapatos!
E, se o meu marido me perguntasse pelos sapatos, ele que é e sempre foi, tão cuidadoso e meticuloso, com as suas coisas?
Nesse dia, quando “conversei” com a pequena imagem do Menino ainda descalço, pedi-Lhe que aquela estranha visita ficasse só entre nós! Eu tinha sido muito imprudente e impulsiva!
Pouco tempo depois, mudámos de casa. Aliás, toda a nossa vida mudou! Não mudou, assim de repente, como um milagre divino mas, foi sempre mudando para melhor, para muito melhor, em todos os aspectos!
Se tenho tido fases mais complicadas e dias maus, como toda a gente, a verdade é que, muitas têm sido as bençãos que têm fluído sobre mim, especialmente, as bençãos personificadas nas minhas filhas, duas jóias preciosas que têm enchido de luz, de amor, de alegria e de plenitude, a minha vida!
E mesmo, nos meus dias mais cinzentos e nas fases mais penosas, surge sempre, vindo não sei de onde, um raio de sol que ilumina e cobre de oiro e de paz, todos os recantos da minha alma, confortando-me e amparando-me, como se uma mão amiga, amorosa, permanecesse, docemente, pousada no meu ombro!
Curiosamente, o meu marido nunca se lembrou dos sapatos, a um canto da despensa, à espera de serem engraxados e eu nunca lhe falei neste episódio! Ficou comigo, guardado no meu coração, até ao dia em que o contei às minhas filhas! E, hoje, tantos anos depois, que o registo aqui!
Não sei o que se passou, nesse dia, na modesta e gasta cozinha do meu apartamento!
Não vivi, certamente, um momento de esplendorosa transcendência e recebi apenas, a prosaica visita, ainda que, indiscutivelmente, um pouco singular, de um homem meio-doente, que nunca esqueci e a quem dei uma sopa de grão-de-bico e um par de sapatos.
Mas, sei que, mesmo hoje, tantos anos depois, eu reconheceria aquele rosto magro, aquele sorriso luminoso, sereno e bonito, aquele cabelo loiro, encaracolado, quase frisado e aqueles olhos de um azul belíssimo, puro e profundo, entre outros mil rostos, no mundo!
Talvez, quem sabe, um dia, num outro plano, numa outra
dimensão, a luz daquele olhar azul que não sei, nunca soube definir, atravesse a minha alma, como tem atravessado a minha vida!
MC
( A Caridade - Virtude)
Como os alemães dizem, “ Aller Anfang ist schwer”! E, de facto, tive dificuldade em me adaptar a um estilo de vida, a uma rotina sem graça, que me era completamente desconhecida: cuidar de uma casa, estudar e dar aulas.
Eu gostava de ter tempo para mim, adorava ler, ouvir música, ir ao restaurante, ao cinema, sair e conversar com as amigas! Agora tudo se modificara!
Vivíamos em Lisboa e eu tentava ser forte e cumprir as minhas novas tarefas mas, sentia-me só, desiludida, insatisfeita! Estava, pois, a atravessar uma fase muito difícil, muito desmotivante e cansativa!
Uma tia tinha-me oferecido, pouco antes de me casar, uma pequena mas lindíssima imagem do Menino Jesus, com os pés descalços, sobre o Mundo.
Era Inverno e faziam-me muita impressão aqueles pézinhos nus, pousados sobre um Mundo gelado, que me parecia tão cinzento, tão complicado e tão diferente do mundo morno e róseo dos meus sonhos!
A realidade pesava-me como uma armadura de ferro que me sofucava e os meus sonhos pareciam-me cada vez mais etéreos e longínquos!
Não sou, propriamente, uma católica praticante regular. Não sei meditar, não sei rezar, porque dificilmente me concentro e não tenho paciência para desfiar orações, com o pensamento a correr doido, à desfilada, por outros caminhos!
Mas, de acordo com as raízes da minha educação judaico-cristã, como a minha filha diz, gostava de “conversar” com a pequena imagem e pedia-Lhe que me ajudasse a ultrapassar o cansaço, o desconsolo e a profunda insatisfação daquela rotina desbotada e esgotante em que a minha vida se estava, paulatinamente, a transformar!
E, porque aqueles pés descalços me afligiam, prometi-Lhe que daria um par de sapatos, a um pobre, como se fosse a Ele mas, só quando eu pudesse, claro! Nesse tempo, as finanças eram muito frágeis!
Num desses meus dias mais cinzentos, vivia, então, num apartamento, no Dafundo, na marginal de Lisboa, tocaram à campainha.
Fui abrir e, no patamar meio-obscurecido, vi diante de mim, um homem alto, magro, o cabelo curto, loiro, encaracolado, quase frisado, com cerca de quarenta e cinco anos, ( pareceu-me, então, um senhor velhote), vestido modestamente, mas limpo.
“ Boa tarde!”
“Boa tarde, menina, pode ajudar-me?”
Quando me voltava para ir buscar uma moeda, ele disse: “Não, dinheiro, não! Uma sopa, por favor!”
Fiquei surpreendida mas, senti-me muito bem comigo mesma, porque tinha precisamente acabado de fazer a sopa para o jantar e, sem pensar, convidei-o a entrar para a cozinha, com o sorriso, a alegria e a confiança, com que se convida um amigo ou, um “velho” conhecido da nossa confiança!
Quando se sentou e o encarei, vi os olhos azuis mais espantosos que, algum dia, se fixaram nos meus!
Eram uns olhos de um azul belíssimo, puro, profundo que não posso comparar a safiras porque estas sairiam a perder e não sei, nunca soube, eu que tanto gosto de brincar com os adjectivos, definir a expressão daquele olhar de céu e de mar!
Não lhe fiz perguntas mas, ele contou-me que tinha saído, nesse dia, do hospital, onde tinha sido operado ao estômago. Não me recordo de me ter dito onde tinha estado internado mas, lembro-me, perfeitamente, da minha consternação porque só tinha, em casa, uma sopa de grão-de-bico para lhe dar!
“ Desculpe, não posso dar-lhe a minha sopa. É de grão-de-bico e é muito pesada! O senhor foi operado ao estômago e pode fazer-lhe mal.”
Nunca, desde que estudei Cesário Verde, digo, ouço leio, vejo ou, como grão-de-bico, que não me lembre do belíssimo poema “A tarde”, a gloriosa tela impressionista, magistralmente pintada com a cor e a beleza das palavras e onde o poeta diz, a certa altura, daquele pic-nic de burguesas “... foste colher, sem imposturas tolas, a um granzoal azul de grão-de-bico um ramalhete rubro de papoulas.”
Mas, ele disse-me com um sorriso sereno e bonito que inundou de luz a cozinha modesta e gasta: “ Posso comer, sim! No hospital davam-me tudo!”
Tirei-lhe a sopa, dei-lhe água, não me lembro se lhe dei pão e retirei-me, para a sala ao lado.
Deixei-o comer sossegado, por delicadeza, para que não se sentisse vigiado e porque, francamente, era difícil despregar os olhos daquele mar de veludo azul!
Quando calculei que tivesse terminado, regressei à cozinha e ofereci-lhe mais sopa. Não quis mais nada mas, delicadamente, disse-me que estava muito boa e que sentia o estômago mais aconchegado.
Meio-encabulada, perguntei-lhe em que o podia ajudar. Ficou calado uns instantes e, quando eu pensava que ele se ía levantar, para ir embora, disse-me baixinho, sem olhar para mim: “Se tivesse uns sapatos que me pudesse dar, agradecia-lhe muito! Os meus estão muito gastos e magoam-me.”
Com espanto, olhei para aqueles olhos de um azul puro, lindíssimo, como nunca vi outros iguais e que, então, fixavam os meus, à espera da minha resposta.
Num impulso, lembrei-me de uns sapatos do meu marido, a um canto da despensa, à espera de serem engraxados.
“ Tenho ali um par mas, não sei se lhe servem!”
Na verdade, os pés dele eram magros mas, aparentemente, bastante mais compridos do que os do meu marido.
“ Não se preocupe, se mos puder dar, servem-me com certeza!”
Dei-lhe os sapatos e ele calçou-os. Mirou os pés com aquele seu sorriso cheio de luz, sereno e bonito e disse: “ Estão muito bem! Muito obrigado! Deus a abençoe!”
Acompanhei-o à porta. Sorriu e eu fiquei, ali, pasmada, por uma fracção de segundos, presa ao azul puro e profundo, daqueles olhos, pousados em mim.
Antes de fechar a porta, desejei-lhe, timidamente, as melhoras. Voltou-se, sorriu, agradeceu e vi aqueles olhos azuis, pela última vez!
Ao escrever este texto, ocorreu-me que nunca soube o seu nome! Não lho perguntei, nem ele mo disse!
Depois de fechar a porta, caí em mim!
Não me preocupei com a minha imprudência, com o perigo em que, impensadamente, me poderia ter posto, ao meter em casa um completo desconhecido, como se fosse um “velho” amigo que merecesse toda a minha confiança!
Não, por estranho que pareça, lembrei-me, primeiro, com um sobressalto de alegria que já tinha cumprido a promessa e, a seguir, preocupei-me, aflita, com os sapatos!
E, se o meu marido me perguntasse pelos sapatos, ele que é e sempre foi, tão cuidadoso e meticuloso, com as suas coisas?
Nesse dia, quando “conversei” com a pequena imagem do Menino ainda descalço, pedi-Lhe que aquela estranha visita ficasse só entre nós! Eu tinha sido muito imprudente e impulsiva!
Pouco tempo depois, mudámos de casa. Aliás, toda a nossa vida mudou! Não mudou, assim de repente, como um milagre divino mas, foi sempre mudando para melhor, para muito melhor, em todos os aspectos!
Se tenho tido fases mais complicadas e dias maus, como toda a gente, a verdade é que, muitas têm sido as bençãos que têm fluído sobre mim, especialmente, as bençãos personificadas nas minhas filhas, duas jóias preciosas que têm enchido de luz, de amor, de alegria e de plenitude, a minha vida!
E mesmo, nos meus dias mais cinzentos e nas fases mais penosas, surge sempre, vindo não sei de onde, um raio de sol que ilumina e cobre de oiro e de paz, todos os recantos da minha alma, confortando-me e amparando-me, como se uma mão amiga, amorosa, permanecesse, docemente, pousada no meu ombro!
Curiosamente, o meu marido nunca se lembrou dos sapatos, a um canto da despensa, à espera de serem engraxados e eu nunca lhe falei neste episódio! Ficou comigo, guardado no meu coração, até ao dia em que o contei às minhas filhas! E, hoje, tantos anos depois, que o registo aqui!
Não sei o que se passou, nesse dia, na modesta e gasta cozinha do meu apartamento!
Não vivi, certamente, um momento de esplendorosa transcendência e recebi apenas, a prosaica visita, ainda que, indiscutivelmente, um pouco singular, de um homem meio-doente, que nunca esqueci e a quem dei uma sopa de grão-de-bico e um par de sapatos.
Mas, sei que, mesmo hoje, tantos anos depois, eu reconheceria aquele rosto magro, aquele sorriso luminoso, sereno e bonito, aquele cabelo loiro, encaracolado, quase frisado e aqueles olhos de um azul belíssimo, puro e profundo, entre outros mil rostos, no mundo!
Talvez, quem sabe, um dia, num outro plano, numa outra
dimensão, a luz daquele olhar azul que não sei, nunca soube definir, atravesse a minha alma, como tem atravessado a minha vida!
MC
( A Caridade - Virtude)
terça-feira, 24 de março de 2009
O Senhor Pinheiro
Sou, há muitos anos, voluntária, num hospital.
No ano passado, talvez, precisamente, por esta altura, o doente que mais me preocupava era o senhor Pinheiro, um velhote modesto, esquelético, amarelo, com o corpo crivado de drenos e com uns sacos pendurados que fediam.
Desistira de tudo e só pedia, angustiadamente , para ir para casa. Mas, as filhas não queriam levá-lo, o que, até certo ponto, se compreendia: cheirava mal, não comia sozinho, era preciso dar-lhe banho, mudar-lhe a fralda cagada ou, na melhor das hipóteses, a pingar de mijo escuro e fedorento!
“ Está melhor, Sr. Pinheiro?”
“Não, menina, não estou! E as putas ruins das minhas filhas não me tiram desta merda! Estou tão cansado! Sinto que estou cada vez pior e sei que, um destes dias, vou direitinho para o caralho! Foda-se, eu só queria ver a minha casa e o meu quintal, uma última vez, menina!”
“ Tenha calma, Sr. Pinheiro! Quando estiver melhor, volta para casa e vai dar muitas passeatas no seu quintal!”
“ Mas, eu tenho tantas saudades, porra! Estou farto de estar aqui e sei que não vou melhorar, merda nenhuma!”
E, na verdade, dias depois, o Sr. Pinheiro foi mesmo direitinho para o caralho, sem que as putas ruins das filhas o tivessem deixado voltar a ver, pela última vez, a casa e matar a porra das saudades que tinha do seu quintal!
Nota – Este texto é a resposta ao desafio que me foi feito pelo Dr. Mário Cláudio, para escrever sobre uma obra de Caridade com palavrões “pesados”, uma vez que, na sua douta opinião, a minha escrita é muito “certinha”, muito "penteadinha" e muito “alinhadinha”!
Este, é o texto conseguido e, creio, absolutamente "despenteado" e“desalinhado”!
MC
A Caridade - Virtude
No ano passado, talvez, precisamente, por esta altura, o doente que mais me preocupava era o senhor Pinheiro, um velhote modesto, esquelético, amarelo, com o corpo crivado de drenos e com uns sacos pendurados que fediam.
Desistira de tudo e só pedia, angustiadamente , para ir para casa. Mas, as filhas não queriam levá-lo, o que, até certo ponto, se compreendia: cheirava mal, não comia sozinho, era preciso dar-lhe banho, mudar-lhe a fralda cagada ou, na melhor das hipóteses, a pingar de mijo escuro e fedorento!
“ Está melhor, Sr. Pinheiro?”
“Não, menina, não estou! E as putas ruins das minhas filhas não me tiram desta merda! Estou tão cansado! Sinto que estou cada vez pior e sei que, um destes dias, vou direitinho para o caralho! Foda-se, eu só queria ver a minha casa e o meu quintal, uma última vez, menina!”
“ Tenha calma, Sr. Pinheiro! Quando estiver melhor, volta para casa e vai dar muitas passeatas no seu quintal!”
“ Mas, eu tenho tantas saudades, porra! Estou farto de estar aqui e sei que não vou melhorar, merda nenhuma!”
E, na verdade, dias depois, o Sr. Pinheiro foi mesmo direitinho para o caralho, sem que as putas ruins das filhas o tivessem deixado voltar a ver, pela última vez, a casa e matar a porra das saudades que tinha do seu quintal!
Nota – Este texto é a resposta ao desafio que me foi feito pelo Dr. Mário Cláudio, para escrever sobre uma obra de Caridade com palavrões “pesados”, uma vez que, na sua douta opinião, a minha escrita é muito “certinha”, muito "penteadinha" e muito “alinhadinha”!
Este, é o texto conseguido e, creio, absolutamente "despenteado" e“desalinhado”!
MC
A Caridade - Virtude
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
De Profundis: Anorexia e pétalas de rosa
Estou confusa! Isto parece ser um velório! Isto é um velório! Há muitas rosas brancas, orquídeas, círios, uma Cruz enorme e uma urna a transbordar de seda e tule brancos! Cheira a velas, a flores e a lágrimas.
Não sei porque estou aqui, neste velório.
Comigo, estão muitos colegas meus e muitos professores. A minha professora de Português, a Drª Maria Emília, chora muito. No entanto, estão todos tão entregues a si próprios, que não me vêem, nem me ouvem!
O que estará a fazer aqui, o meu irmão? Meu Deus, como chora! Estou a seu lado, abraço-o, passo-lhe a mão pelo cabelo loiro e macio mas, ele continua sentado no banco duro, de madeira, a cabeça apoiada nas mãos e chora baixinho.
Deve ter sido alguém da Escola que morreu! Por isso, estou aqui! Mas, quem teria morrido? Perante o choro, tão sentido, do meu irmão, lembrei-me da Francisca, a namorada que ele adora mas, para meu espanto, ela acabou de entrar e abraça-o, com infinito cuidado, como se ele estivesse muito doente ou, como se, subitamente, se tivesse tornado delicado e frágil, como uma peça preciosa de cristal.
Ali, ao canto está o João, o rapaz por quem me apaixonei perdidamente, com o encantamento do primeiro amor e a insegurança e o lirismo dos meus dezasseis anos!
Um dia, na cantina, vi-o quase a desfazer-se em pranto, por ter tido uma negativa muito baixa, a Matemática. Aproximei-me dele e tentei desdramatizar aquele erro de percurso e dar-lhe coragem para não deixar que um pai, muito severo e extremamente exigente, o desmoralizasse!
Quando uns colegas nossos, nos viram juntos, meteram-se com ele e disseram-lhe, a rir, que eu era perfeita, para ser sua namorada! A sua gargalhada escarninha, o olhar meio enjoado, meio piedoso que me lançou e o “Não!”, que lhe escapou, quase gritado, rápido, dos lábios, envergonharam-me terrivelmente e magoaram-me profundamente!
Nessa noite, despi-me e olhei-me, criticamente, ao espelho. Angustiada, tive de admitir que era, de facto, uma rapariga desinteressante e nada bonita! A minha cara era muito redonda, com bochechas balofas e luzidias. Os meus braços eram fortes, muito roliços e as minhas ancas e pernas pareceram-me muito volumosas, flácidas, feias! Não tinha sequer cintura mas, um rolo carnudo, enrolava-se, à minha volta, como se fosse um cinto e começava a ter uma barriguinha que tremelicava de gordura!
Eu era, na verdade e para meu infinito desgosto, muito diferente das outras raparigas, bonitas, soltas, esguias, minhas amigas e colegas da escola, que tinham sucesso com os rapazes.
Já estava habituada a que me dissessem que estava a ficar demasiado rechonchuda, até a minha mãe me pedia que não comesse tantos doces e, embora, não gostasse que me falassem na minha imagem corporal, nunca me tinha preocupado tanto, nem nunca me tinha sentido tão infeliz, como nesse dia!
Decidi, nesse momento, sozinha, no meu quarto, fazer uma dieta a sério!
Comecei a beber muita água, para enganar o estômago e acalmar a ânsia de comer! Comecei a cortar o pequeno almoço, o lanche e a não tocar nos farináceos, nem nas gorduras. Só comia sopas batidas, cozidos, grelhados, iogurtes magros, alimentos dietéticos e alguma fruta, essencialmente, maçãs e ananás. Tudo mastigado vagarosamente, cuidadosamente!
Depois, ao almoço, comecei a “ter de ficar na escola”. O mais difícil, foi, realmente, arranjar muitas e variadas desculpas para evitar as refeições em família. Punham-me à frente, tudo o que eu mais gostava e os olhos de lince da minha mãe seguiam todos os meus movimentos à mesa! Por isso, muitas, muitas vezes, fui a festas e jantei com amigas que faziam anos...
Fazia muito exercício físico, às vezes, quase até à exaustão! Agora, já não posso...
Em meses, tinha perdido muito peso, continuo a perder peso mas, nunca deixei de me sentir pesada, inchada, enorme!
A comida repugna-me! Ao princípio, ainda ía comendo, depois, fingia que comia e escondia o que podia, nos bolsos ou, no lenço, quando ninguém estava a ver, para depois, deitar fora. Tornei-me hábil e manhosa!
Tomava medicamentos para não engordar, que me davam forças e energia mas, como não me ajudavam a emagrecer tanto quanto desejava, recorria, como recorro ainda, aos laxantes. Às vezes, como então, tenho uma vontade louca de comer este ou aquele petisco, este ou aquele bolo mas, controlo-me e bebo água.
Agrada-me este controlo que tenho sobre mim e sabe-me bem a abstinência a que me forço! Gosto de me sentir limpa e vazia por dentro!
Estudava muito e tinha notas muito altas! Queria ser a melhor, em tudo! Ultimamente, já não consigo! Estou muito cansada!
Mas, continuo a querer dominar, controlar tudo, sobretudo, controlar os desejos do meu estômago, quando me pede, insistentemente, gulodices e as comidas de que eu gosto!
Dizem-me que estou a perder peso, em excesso e que já tenho os ossos quase à mostra e as veias salientes. Mas, eu continuo a ver-me pesada, enorme! Por isso e para esconder os refêgos de gordura, que se vão amontoando, em mim, uso roupa larga!
Vejo-me ao espelho e sei que não tenho graciosidade nenhuma, nem encanto, nem leveza!
Um elefante a dançar a valsa, seria, talvez, mais elegante do que eu a deslocar-me, de um lado para o outro, com as minhas banhas a tremerem, como gelatina!
Nos meus sonhos mais róseos, eu vejo-me linda, leve, deslizante, quase etérea, como uma sílfide! E, é assim, que eu irei ser! Um dia!
Quando atingi os trinta quilos, internaram-me, no hospital!
Foi a maneira mais suave que os meus pais encontraram para me dizerem que não gostam de mim e estão fartos de me aturarem! Ninguém, aliás, gosta de uma rapariga volumosa, balofa e feia!
Tenho a pele seca e fina que, mesmo assim, eu esfrego muito bem, com sabonete, para que nem uma ponta de gordura me possa conspurcar!
Já não tenho menstruação há uns meses e os meus braços, pernas e costas estão cobertos de uma penugem, que, dizem, se chama lanugo, que eu escondo com a roupa larga que gosto de usar!
O meu cabelo está mais fino e muito menos farto mas, não é a pele, nem o cabelo, nem o lanugo, nem a amenorreia, que me preocupam!
Os meus pais discutem muito, por minha causa, eu sei, e parecem sofrer cada dia mais, especialmente a minha mãe, sempre tão bonita e elegante mas, a perder, rapidamente, o viço e a alegria! E, eu sem saber o que fazer por eles!
Também, não entendo muito bem porque se afligem e se afligiram, sempre tanto, com a minha dieta!
Numa biografia da Sissi, a linda e elegantíssima imperatriz da Áustria e rainha da Hungria, cujos vestidos ainda hoje são um espanto, pela cintura tão delicada e fina que manteve até à morte, conta-se que, quando foi assassinada, aos sessenta anos, ela tinha muitos dias, em que só comia uma laranja. Eu como mais: duas maçãs ou, duas fatias de ananás e um iogurte magro com alguns cereais!
No hospital, tenho conhecido muitos jovens com anseios iguais aos meus mas, alguns horrorizam-me porque persistem, teimosamente, numa dieta de que já não necessitam pois, são já pele e osso, com os olhos enormes, nem sei se vazios ou, meio alucinados, os braços e as pernas cheios de manchas arroxeadas, e fazem-me lembrar aqueles meninos, completamente desnutridos, da Somália mas, sem as barrigas enormes, grávidas de nada, grávidas de falta de tudo!
Há uma rapariga, que me faz muita impressão, porque até cospe a saliva! Para não se sentir conspurcada!
A vida no hospital, não é fácil! Querem que “façamos as pazes” com a comida! Não quero! Custou-me muito chegar aos trinta quilos, para agora deitar tudo a perder! Não! Nem um grama, nem uma caloria, nem um bocadinho de gordura vai entrar dentro de mim!
Não quero voltar a sentir aquela sensação de enfartamento e de sujidade, como quando me obrigaram a comer uma colher de arroz, um pedacinho de peixe e uma folha de alface!
Só fiquei bem, quando, às escondidas, vomitei tudo!
Tenho medo de começar a comer e nunca mais ser capaz de parar! Sei lá...!
E, depois, esta abstinência a que me obrigo, esta sensação de limpeza e de esvaziamento, dão-me um imenso conforto!
Continuo no velório! Ouço, num grupo de professores, a minha professora de Inglês, dizer: “Que pena! Ela era tão inteligente, tão ansiosa por saber! Poderia ter ido tão longe!”
O João, rodeado de colegas nossos, com os lindos olhos humedecidos de lágrimas dizia, que eu ouvi, quando passei por eles:” Eu gostava tanto dela! Era tão engraçada, tão boa colega, tão amiga! Vou sentir muito a sua falta!”
Tenho de saber quem é esta “ela” de quem todos falam! Quem será esta “ela” por quem o João chora e de quem vai ele sentir, assim, tanta falta?
O meu irmão continua sentado no banco duro, de madeira, os olhos chorosos, a cabeça baixa. A Francisca está a agarrá-lo, ansiosamente, quase furiosamente, como se receie o perigo iminente de ele cair do banco abaixo!
Neste momento, entram os meus pais. Meu Deus, como estão diferentes, parecem ter envelhecido muitos anos, os rostos exaustos, devastados!
Fui direita a eles para os abraçar e consolar mas, imersos na sua dor profunda, uma dor muito deles, não me vêem, nem me ouvem!. Que estranho é isto tudo! Parece que estou a viver a irrealidade paralisante de um tremendo pesadelo, do qual, por mais que me debata, não consigo acordar!
Indiferente às minhas carícias e à meiguice das minhas palavras, a minha mãe aproxima-se da urna, agora quase coberta de rosas brancas, que se vão começando a desfolhar, e um rio de lágrimas desaba sobre quem ali descansa!
Por quem chorará, assim, tão aflitivamente, a minha mãe? O meu pai não chora, não se aproxima da urna, nem da minha mãe, que mal se segura de pé! Não fala com ninguém! Parece de pedra! Ali está, ao canto, tão cansado, tão desligado, tão ausente! Nem sei de qual dos dois tenho mais pena!
Mas quem é aquela “ela”, por quem todos choram?
Aproximo-me da urna envernizada e olho, atentamente, para quem ali repousa. Vejo um pequeno volume, envolto em sedas e tules brancos, quase afogado em rosas brancas que se vão desfolhando com o calor e, entre tules e pétalas de rosa, vejo um rosto emaciado, magro, a pele esticada sobre os ossos, e as mãos esqueléticas, com os dedos entrelaçados, entre os quais, o João prendeu um pequenino bouquet de orquídeas brancas! Pelo menos foi o que ouvi a Teresa dizer, há pouco!
O rosto não me é estranho... Na verdade, é vagamente parecido com o meu... Mas, eu tenho a cara redonda com bochechas balofas e luzidias!
Sobre o rosto imóvel, de cera, ainda escorrem as lágrimas da minha mãe e parece que é a morta que chora!
De repente, lembro-me...
Tinha andado, há uns tempos, a sentir-me muito triste, muito angustiada, muito deprimida e a Andreia deu-me, a meu pedido, uns comprimidos, daqueles que nos fazem sentir melhor. Tomei-os e adormeci! Tenho a vaga ideia de um alvoroço estranho, à minha volta, de ouvir rodas a chiarem enquanto me levavam, às sacudidelas, para uma sala branca e fria e de ouvir uma voz que, na altura, reconheci, dizer:” Fica connosco, Rita! Fica connosco, querida! Por favor, Rita, fica comigo! Vamos perdê-la! Estou perdê-la! Perdi-a!”
Depois, senti-me cair... cair, sobre um colchão branco, enorme, feito de nuvens macias e fofas. Pareceu-me ouvir vozes, muito ao longe, um leve adejar, à minha volta e o som, lindo, ciciado, do Bolero de Ravel que adoro e que ouço, incansavelmente!
Lembro-me de, nesse momento, me sentir muito bem! Relaxada, calma, liberta! Depois, mais nada...!
Surpreendida, compreendi, enfim!
Sou eu que, branca, imóvel e finalmente tranquila, entre tules e pétalas de rosa, descanso ali! A minha luta, sem quartel, contra o excesso de peso e a comida, terminou! Nem mais um grama, nem mais uma caloria, nem mais um bocadinho de gordura, vão entrar dentro de mim! Nunca mais!
Porque, serenamente, morri, esta madrugada!
Como diria Sartre, “ les jeux sont faits” ! Sinto uma imensa e fantástica indiferença descer sobre mim e afastar-me, irremediavelmente, de todos e de tudo!
Mas, estranhamente, não me importo!
Aprisionada, perdida, nos tentáculos poderosos, dessa gélida indiferença , esqueço os meus afectos, as minhas alegrias, os meus dramas e os meus medos! Numa absoluta solidão!
Para sempre...!
(A Abstinência - Virtude)
( Neste caso, acima referido, a Abstinência doentia, levada ao exagero)
MC
Não sei porque estou aqui, neste velório.
Comigo, estão muitos colegas meus e muitos professores. A minha professora de Português, a Drª Maria Emília, chora muito. No entanto, estão todos tão entregues a si próprios, que não me vêem, nem me ouvem!
O que estará a fazer aqui, o meu irmão? Meu Deus, como chora! Estou a seu lado, abraço-o, passo-lhe a mão pelo cabelo loiro e macio mas, ele continua sentado no banco duro, de madeira, a cabeça apoiada nas mãos e chora baixinho.
Deve ter sido alguém da Escola que morreu! Por isso, estou aqui! Mas, quem teria morrido? Perante o choro, tão sentido, do meu irmão, lembrei-me da Francisca, a namorada que ele adora mas, para meu espanto, ela acabou de entrar e abraça-o, com infinito cuidado, como se ele estivesse muito doente ou, como se, subitamente, se tivesse tornado delicado e frágil, como uma peça preciosa de cristal.
Ali, ao canto está o João, o rapaz por quem me apaixonei perdidamente, com o encantamento do primeiro amor e a insegurança e o lirismo dos meus dezasseis anos!
Um dia, na cantina, vi-o quase a desfazer-se em pranto, por ter tido uma negativa muito baixa, a Matemática. Aproximei-me dele e tentei desdramatizar aquele erro de percurso e dar-lhe coragem para não deixar que um pai, muito severo e extremamente exigente, o desmoralizasse!
Quando uns colegas nossos, nos viram juntos, meteram-se com ele e disseram-lhe, a rir, que eu era perfeita, para ser sua namorada! A sua gargalhada escarninha, o olhar meio enjoado, meio piedoso que me lançou e o “Não!”, que lhe escapou, quase gritado, rápido, dos lábios, envergonharam-me terrivelmente e magoaram-me profundamente!
Nessa noite, despi-me e olhei-me, criticamente, ao espelho. Angustiada, tive de admitir que era, de facto, uma rapariga desinteressante e nada bonita! A minha cara era muito redonda, com bochechas balofas e luzidias. Os meus braços eram fortes, muito roliços e as minhas ancas e pernas pareceram-me muito volumosas, flácidas, feias! Não tinha sequer cintura mas, um rolo carnudo, enrolava-se, à minha volta, como se fosse um cinto e começava a ter uma barriguinha que tremelicava de gordura!
Eu era, na verdade e para meu infinito desgosto, muito diferente das outras raparigas, bonitas, soltas, esguias, minhas amigas e colegas da escola, que tinham sucesso com os rapazes.
Já estava habituada a que me dissessem que estava a ficar demasiado rechonchuda, até a minha mãe me pedia que não comesse tantos doces e, embora, não gostasse que me falassem na minha imagem corporal, nunca me tinha preocupado tanto, nem nunca me tinha sentido tão infeliz, como nesse dia!
Decidi, nesse momento, sozinha, no meu quarto, fazer uma dieta a sério!
Comecei a beber muita água, para enganar o estômago e acalmar a ânsia de comer! Comecei a cortar o pequeno almoço, o lanche e a não tocar nos farináceos, nem nas gorduras. Só comia sopas batidas, cozidos, grelhados, iogurtes magros, alimentos dietéticos e alguma fruta, essencialmente, maçãs e ananás. Tudo mastigado vagarosamente, cuidadosamente!
Depois, ao almoço, comecei a “ter de ficar na escola”. O mais difícil, foi, realmente, arranjar muitas e variadas desculpas para evitar as refeições em família. Punham-me à frente, tudo o que eu mais gostava e os olhos de lince da minha mãe seguiam todos os meus movimentos à mesa! Por isso, muitas, muitas vezes, fui a festas e jantei com amigas que faziam anos...
Fazia muito exercício físico, às vezes, quase até à exaustão! Agora, já não posso...
Em meses, tinha perdido muito peso, continuo a perder peso mas, nunca deixei de me sentir pesada, inchada, enorme!
A comida repugna-me! Ao princípio, ainda ía comendo, depois, fingia que comia e escondia o que podia, nos bolsos ou, no lenço, quando ninguém estava a ver, para depois, deitar fora. Tornei-me hábil e manhosa!
Tomava medicamentos para não engordar, que me davam forças e energia mas, como não me ajudavam a emagrecer tanto quanto desejava, recorria, como recorro ainda, aos laxantes. Às vezes, como então, tenho uma vontade louca de comer este ou aquele petisco, este ou aquele bolo mas, controlo-me e bebo água.
Agrada-me este controlo que tenho sobre mim e sabe-me bem a abstinência a que me forço! Gosto de me sentir limpa e vazia por dentro!
Estudava muito e tinha notas muito altas! Queria ser a melhor, em tudo! Ultimamente, já não consigo! Estou muito cansada!
Mas, continuo a querer dominar, controlar tudo, sobretudo, controlar os desejos do meu estômago, quando me pede, insistentemente, gulodices e as comidas de que eu gosto!
Dizem-me que estou a perder peso, em excesso e que já tenho os ossos quase à mostra e as veias salientes. Mas, eu continuo a ver-me pesada, enorme! Por isso e para esconder os refêgos de gordura, que se vão amontoando, em mim, uso roupa larga!
Vejo-me ao espelho e sei que não tenho graciosidade nenhuma, nem encanto, nem leveza!
Um elefante a dançar a valsa, seria, talvez, mais elegante do que eu a deslocar-me, de um lado para o outro, com as minhas banhas a tremerem, como gelatina!
Nos meus sonhos mais róseos, eu vejo-me linda, leve, deslizante, quase etérea, como uma sílfide! E, é assim, que eu irei ser! Um dia!
Quando atingi os trinta quilos, internaram-me, no hospital!
Foi a maneira mais suave que os meus pais encontraram para me dizerem que não gostam de mim e estão fartos de me aturarem! Ninguém, aliás, gosta de uma rapariga volumosa, balofa e feia!
Tenho a pele seca e fina que, mesmo assim, eu esfrego muito bem, com sabonete, para que nem uma ponta de gordura me possa conspurcar!
Já não tenho menstruação há uns meses e os meus braços, pernas e costas estão cobertos de uma penugem, que, dizem, se chama lanugo, que eu escondo com a roupa larga que gosto de usar!
O meu cabelo está mais fino e muito menos farto mas, não é a pele, nem o cabelo, nem o lanugo, nem a amenorreia, que me preocupam!
Os meus pais discutem muito, por minha causa, eu sei, e parecem sofrer cada dia mais, especialmente a minha mãe, sempre tão bonita e elegante mas, a perder, rapidamente, o viço e a alegria! E, eu sem saber o que fazer por eles!
Também, não entendo muito bem porque se afligem e se afligiram, sempre tanto, com a minha dieta!
Numa biografia da Sissi, a linda e elegantíssima imperatriz da Áustria e rainha da Hungria, cujos vestidos ainda hoje são um espanto, pela cintura tão delicada e fina que manteve até à morte, conta-se que, quando foi assassinada, aos sessenta anos, ela tinha muitos dias, em que só comia uma laranja. Eu como mais: duas maçãs ou, duas fatias de ananás e um iogurte magro com alguns cereais!
No hospital, tenho conhecido muitos jovens com anseios iguais aos meus mas, alguns horrorizam-me porque persistem, teimosamente, numa dieta de que já não necessitam pois, são já pele e osso, com os olhos enormes, nem sei se vazios ou, meio alucinados, os braços e as pernas cheios de manchas arroxeadas, e fazem-me lembrar aqueles meninos, completamente desnutridos, da Somália mas, sem as barrigas enormes, grávidas de nada, grávidas de falta de tudo!
Há uma rapariga, que me faz muita impressão, porque até cospe a saliva! Para não se sentir conspurcada!
A vida no hospital, não é fácil! Querem que “façamos as pazes” com a comida! Não quero! Custou-me muito chegar aos trinta quilos, para agora deitar tudo a perder! Não! Nem um grama, nem uma caloria, nem um bocadinho de gordura vai entrar dentro de mim!
Não quero voltar a sentir aquela sensação de enfartamento e de sujidade, como quando me obrigaram a comer uma colher de arroz, um pedacinho de peixe e uma folha de alface!
Só fiquei bem, quando, às escondidas, vomitei tudo!
Tenho medo de começar a comer e nunca mais ser capaz de parar! Sei lá...!
E, depois, esta abstinência a que me obrigo, esta sensação de limpeza e de esvaziamento, dão-me um imenso conforto!
Continuo no velório! Ouço, num grupo de professores, a minha professora de Inglês, dizer: “Que pena! Ela era tão inteligente, tão ansiosa por saber! Poderia ter ido tão longe!”
O João, rodeado de colegas nossos, com os lindos olhos humedecidos de lágrimas dizia, que eu ouvi, quando passei por eles:” Eu gostava tanto dela! Era tão engraçada, tão boa colega, tão amiga! Vou sentir muito a sua falta!”
Tenho de saber quem é esta “ela” de quem todos falam! Quem será esta “ela” por quem o João chora e de quem vai ele sentir, assim, tanta falta?
O meu irmão continua sentado no banco duro, de madeira, os olhos chorosos, a cabeça baixa. A Francisca está a agarrá-lo, ansiosamente, quase furiosamente, como se receie o perigo iminente de ele cair do banco abaixo!
Neste momento, entram os meus pais. Meu Deus, como estão diferentes, parecem ter envelhecido muitos anos, os rostos exaustos, devastados!
Fui direita a eles para os abraçar e consolar mas, imersos na sua dor profunda, uma dor muito deles, não me vêem, nem me ouvem!. Que estranho é isto tudo! Parece que estou a viver a irrealidade paralisante de um tremendo pesadelo, do qual, por mais que me debata, não consigo acordar!
Indiferente às minhas carícias e à meiguice das minhas palavras, a minha mãe aproxima-se da urna, agora quase coberta de rosas brancas, que se vão começando a desfolhar, e um rio de lágrimas desaba sobre quem ali descansa!
Por quem chorará, assim, tão aflitivamente, a minha mãe? O meu pai não chora, não se aproxima da urna, nem da minha mãe, que mal se segura de pé! Não fala com ninguém! Parece de pedra! Ali está, ao canto, tão cansado, tão desligado, tão ausente! Nem sei de qual dos dois tenho mais pena!
Mas quem é aquela “ela”, por quem todos choram?
Aproximo-me da urna envernizada e olho, atentamente, para quem ali repousa. Vejo um pequeno volume, envolto em sedas e tules brancos, quase afogado em rosas brancas que se vão desfolhando com o calor e, entre tules e pétalas de rosa, vejo um rosto emaciado, magro, a pele esticada sobre os ossos, e as mãos esqueléticas, com os dedos entrelaçados, entre os quais, o João prendeu um pequenino bouquet de orquídeas brancas! Pelo menos foi o que ouvi a Teresa dizer, há pouco!
O rosto não me é estranho... Na verdade, é vagamente parecido com o meu... Mas, eu tenho a cara redonda com bochechas balofas e luzidias!
Sobre o rosto imóvel, de cera, ainda escorrem as lágrimas da minha mãe e parece que é a morta que chora!
De repente, lembro-me...
Tinha andado, há uns tempos, a sentir-me muito triste, muito angustiada, muito deprimida e a Andreia deu-me, a meu pedido, uns comprimidos, daqueles que nos fazem sentir melhor. Tomei-os e adormeci! Tenho a vaga ideia de um alvoroço estranho, à minha volta, de ouvir rodas a chiarem enquanto me levavam, às sacudidelas, para uma sala branca e fria e de ouvir uma voz que, na altura, reconheci, dizer:” Fica connosco, Rita! Fica connosco, querida! Por favor, Rita, fica comigo! Vamos perdê-la! Estou perdê-la! Perdi-a!”
Depois, senti-me cair... cair, sobre um colchão branco, enorme, feito de nuvens macias e fofas. Pareceu-me ouvir vozes, muito ao longe, um leve adejar, à minha volta e o som, lindo, ciciado, do Bolero de Ravel que adoro e que ouço, incansavelmente!
Lembro-me de, nesse momento, me sentir muito bem! Relaxada, calma, liberta! Depois, mais nada...!
Surpreendida, compreendi, enfim!
Sou eu que, branca, imóvel e finalmente tranquila, entre tules e pétalas de rosa, descanso ali! A minha luta, sem quartel, contra o excesso de peso e a comida, terminou! Nem mais um grama, nem mais uma caloria, nem mais um bocadinho de gordura, vão entrar dentro de mim! Nunca mais!
Porque, serenamente, morri, esta madrugada!
Como diria Sartre, “ les jeux sont faits” ! Sinto uma imensa e fantástica indiferença descer sobre mim e afastar-me, irremediavelmente, de todos e de tudo!
Mas, estranhamente, não me importo!
Aprisionada, perdida, nos tentáculos poderosos, dessa gélida indiferença , esqueço os meus afectos, as minhas alegrias, os meus dramas e os meus medos! Numa absoluta solidão!
Para sempre...!
(A Abstinência - Virtude)
( Neste caso, acima referido, a Abstinência doentia, levada ao exagero)
MC
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
A Gula e... a Vida!
Pão de Ló húmido... de Chocolate
Ingredientes
4ovos
6gemas
200 grs de açúcar
130 grs de farinha
80 grs de chocolate
Preparação
Misturar as gemas com os ovos e o açúcar.
Bater bem, durante aproximadamente, 25 minutos. A meio ligar o forno a 250º.
À medida que juntava os ingredientes para, passado tanto tempo, fazer, de novo, este bolo, a sua vida de casada, foi-se desenrolando, perante ela, como um filme, onde ela era a estrela principal! Dizem que acontece o mesmo com os afogados: nos breves minutos que antecedem a morte, perpassa-lhes, nítida, na memória, os pedaços bons e os pedaços maus da sua vida, que se esvai!
Dizem, ainda, que, por isso, os afogados choram, quando dão à costa! Dos olhos, sem luz, escorrem lágrimas, com cheiro a desespero e a morte, no momento em que alguém querido se aproxima. Talvez, por não terem tido tempo de se despedir, de pedir perdão ou... de perdoar.
Este era o bolo predilecto do marido.
Ao princípio, nos primeiros anos de casados, faziam-no, a quatro mãos. Era uma festa, um arraial, um enlevo e uma canseira depois, com a cozinha, numa perfeita desordem, também limpa pelos dois, quando, enfim, o Pão de Ló húmido... de Chocolate, ficava pronto!
Era, então, que o cheiro doce, guloso, vibrante, quase erótico do chocolate, inundava toda a casa
Ele separava as claras das gemas e ligava o forno.
Ela sabia que, nesse momento e sem poder esperar mais tempo, também ele, a arder de amor e de desejo, agarrava-a, abraçava-a, beijava-a nos lábios, no pescoço, nos seios, excitado e guloso , como se, também, ela fosse chocolate macio e, com as mãos, a tremer, em frémitos de gula, ele percorria-lhe o corpo bonito que cheirava a juventude, a morango e a baunilha. E, ela deixava-se perder, suspirando baixinho, como se, por magia, se tivesse transformado em chocolate quente, aveludado, derretido, entre os lábios e as mãos dele, a taça com os ovos e o açúcar, esquecida no balcão da cozinha...
Com o tempo, era ela que fazia o Pão de Ló húmido... de Chocolate, o doce predilecto dele, agora feito a duas mãos, as dela, porque o ritmo dos dias era outro!
Mas, a alegria, o prazer com que ele o comia, era o mesmo e fazia-a rir, a sua fingida surpresa, quando a via pousá-lo na mesa!
Depois, abraçava-a, beijava-a e percorria-lhe o corpo, com a sofreguidão, a gula, de um faminto ou, saboreava-a, devagar, ternamente, como se fosse ela o seu chocolate crocante, mais doce, mais precioso e raro!
À parte, misturar a farinha com o chocolate em pó.
Quando terminar de bater, juntar ao creme de ovos, a mistura de farinha e chocolate, peneirados.
Durante anos, ela continuou a fazer o bolo húmido e apetitoso, a casa inundada com o cheiro sensual, quase lascivo, do chocolate morno mas, a atitude dele foi-se tornando diferente: às vezes, só provava. Para não engordar, dizia.
Ao princípio, os dois tinham sido um só, que o fio da vida enrolava na mesma cadência. Depois, com o tempo, com as dificuldades que íam surgindo, cada um era um, que a vida ía enrolando, enrolando, afastando e... sorvendo, em separado!
Nasceram as filhas e o trabalho era tanto que ela não tinha sequer tempo para fazer o Pão de Ló húmido ... de Chocolate e ele também já não perguntava pelo seu doce predilecto!
Mexer, delicadamente, a mistura.
A casa cheirava, agora, a leite, a pó de talco, a lápis de cor, a cadernos, a ballet, a flores e, se calhar, ao profundo cansaço dela!
Ela estava, realmente, cada vez mais cansada, com o trabalho profissional, com o arranjo da casa, que fazia sozinha, com os cuidados com as filhas que cresciam e precisavam tanto da sua atenção!
Enquanto mexia, suavemente, a massa aveludada, recordou o Domingo em que ela lhe confessara que, com as despesas que tinha, não podia pagar a uma empregada mas, estava tão exausta que, o que mais queria, era alguém que a ajudasse!
Insensível, rude, quase mau, ele dissera-lhe que quem não tem dinheiro, não tem vícios!
Ele estava a reconstruír uma casa enorme, que era o seu sonho dourado, feito de pedra e, ao qual tinha todo o direito, e ela devia sentir-se orgulhosa, trabalhar e não se queixar!
Untar com manteiga uma forma sem buraco e forrar com papel vegetal também untado e deitar a massa.
Uma noite, ao jantar, ele disse-lhe que tinha de ir a Londres, com uma cliente e o cunhado dela, para tratar de um assunto de heranças.
Enquanto ía untando a forma, ela recordou o cuidado com que lhe prepara a mala ! Recordou os post-its que tinha colado no casaco do pijama, “ Dorme bem, querido! Boa noite!” e os que colara nas duas camisas “ Bom dia, querido, que tudo corra muito bem! Aqui estou à tua espera, cheia de saudades!”
À noite, ele telefonara e ela perguntara.”Onde estás?” “No hotel. Vou dormir.” “ Não vais passear por Londres, à noite? É tão bonita!” Não, estou cansado!”
E, ela, tranquila e crédula, foi também para a cama, com as suas meninas, que cheiravam a inocência, a sabonete e a pó de talco Johnson.! Radiantes, mergulharam as três, num sonho lindo, perfumado e colorido, enfeitado com estrelas prateadas, rosas amarelas, e açucenas, e com cheiro a chocolate, a baunilha e a framboesas!
Nesse momento, lágrimas de revolta, de raiva e de fúria, grandes, pesadas, como punhos, rolaram-lhe pelo rosto, como um pequeno rio de mágoa.
Apeteceu-lhe atirar com a forma ao chão mas, conteve-se! Não seria, assim, tão primária! Nunca se perde a compostura, tinham-lhe ensinado, em criança!
Afastou-se, no entanto, da taça, mesmo ao lado, para que o Pão de Ló húmido...de Chocolate, não ficasse amargo e ainda mais húmido, com o rio cristalino das suas lágrimas!
Como pudera ser tão burra? Como pudera ser tão ingénua? Como pudera ser tão estúpida?
Uma menina grande mas tonta, a escrever bilhetinhos a um homem mentiroso e empolgado por outras experiências, por técnicas de sedução que ela nunca conhecera!
Quando regressou, ele trouxe-lhe um perfume “ Caleche” da marca elegante e, então, bastante exclusiva, “Hermès”. Surpreendida, perguntou-lhe: “Escolheste este perfume sozinho?”; “Não, a menina da perfumaria ajudou-me!”
Mesmo para as filhas, os eternos peluches eram diferentes dos habituais ursos.
Surpreendeu-se mas, depressa esqueceu as suspeitas! Não era ela que afirmava, perante o espanto e a risonha incredulidade das amigas, que, não só poria as mãos, no fogo, pela fidelidade do marido, como se lançaria toda, na fogueira?
Até um dia...!
Levar ao forno, a 230º, durante 10 minutos.
Findo este tempo, reduzir para 150º e deixar ficar mais 5 minutos.
Ele estava diferente há muito! Tudo o irritava nela, em casa, nas filhas! Não tinha tempo para nada, nem mesmo para as festinhas do colégio, a que não ía ou, se se dava ao trabalho de ir, chegava no fim!
Um dia, ela confrontou-o com a verdade: “Tens ou tiveste uma amante!”;
“Tive!” “ A tua cliente, com quem te lambuzaste, em Londres?”; “ Sim, mas acabou tudo, há muito tempo! Como soubeste, só agora?”; “ Desde há muito tempo, que te sinto diferente e distante! Mas, sabes, nem quis acreditar! Fiz como a avestruz e ignorei! Agora tenho recebido chamadas telefónicas esquisitas! Já não dá para fazer de conta! Como foste capaz?”; “ A culpa foi tua! Só pensavas no trabalho e nas filhas!”
Aquela cruel e cobarde injustiça, sob a forma de uma desculpa esfarrapada e insultuosa, foi a punhalada final, como a estocada de misericórdia que o toureiro dá ao touro, depois de lhe ter infligido um longo e tremendo martírio, na arena!
Foram dias e dias, semanas e semanas de luta titânica. Consigo mesma! Sozinha!
Ele nunca lhe pediu desculpa, mas, jurou que só a amara a ela! Sempre! Disse-lhe que tinha um bombom em casa e perdera tempo com um rebuçado velho e azedo!
Voltou a ser o rapaz terno e atencioso, com quem casara.
Agora tinha uma empregada a tempo inteiro! Raramente cozinhava e jantavam fora frequentemente.
Oferecia-lhe tudo: roupas caras, como ela nunca vestira, jóias, produtos de beleza caros, perfumes, que ela escolhia e viajavam muito! Ela ía aceitando...
Tinha sido demasiado tempo de esquecimento de si mesma!
Tudo o que ele, agora, lhe dava, era-lhe, simplesmente, devido! Tout court!
Ofereceu-lhe mesmo um perfume, “ In love again”, de Yves Saint Laurent. Era um símbolo de recomeço, dizia ele!
Agora era ele, o tonto! Ela detestava os perfumes de Yves Saint Laurent! Para ser honesta, experimentou-o! Deitou-o fora!
Deixá-lo, para quê? Tinha duas filhas que precisavam do amor e da presença dos dois, para terem estabilidade emocional e, ( porque não dizê-lo?), estabilidade financeira. E, não podia esquecer que estava muita tristeza sua, muita renúncia, muita solidão, muito trabalho seu , muito suor, enterrados, naquele sonho de pedra, em feitio de casa!
Sentia-se velha, exausta! Mas, foi procurar forças, lá no mais recôndito de si e impôs-se!
Um laço forte, fortíssimo estava, contudo e para sempre, destruído, desfeito, desatado!
Pediu-lhe, muitas vezes, para voltarem a fazer o Pão de Ló húmido... de Chocolate, a quatro mãos! Tentou, uma vez mas, não conseguiu! Sentiu um constrangimento insuportável! Ele percebeu e não insistiu! Por vergonha, talvez!
Ou, estaria, de novo, a ser ingénua?
Retirar do forno e desenformar quando estiver arrefecido>
Também ela tinha arrefecido...
Perdoara? Ela julgara, sinceramente, que sim! Mas, como perdoara, se não esquecera? Perdoar é tremendamente difícil, quando esquecer é impossível! E, é tão exasperante a incapacidade de esquecer a dor da traição, a náusea da mentira e o desespero da confiança destruída!
Amava-o ainda? Não sabia! A paixão acaba e o amor transforma-se! Sempre!
Agora era, talvez, amizade, carinho e... hábito! Resignação, nunca!
Resignar-se é estagnar, é deixar-se morrer, crucificada na agonia lenta da submissão, do desalento, da desesperança!
E, ela impusera-se! Cedera, é certo, mas era ela, agora, que dominava, no jogo da vida, a dois!
Era tempo de tirar o Pão de Ló húmido...de Chocolate, já arrefecido, do forno!
Ele fora em trabalho a Lisboa e pedira-lhe para que fosse com ele! Ela sabia que era trabalho mas, poderia ser passeio, se ela quisesse e sabia, também , que ele não voltara a prevaricar. Mas, não foi com ele!
Deu uma desculpa e ficou em casa, a fazer o doce predilecto dele! Para ele...?
Faziam hoje trinta anos de casados! Seria possível?
De manhã, a florista entregara, em casa, um lindíssimo cesto, com trinta rosas vermelhas, e com um cartão, muito terno, do marido!
A ela, apetecera-lhe fazer aquele bolo que, de uma certa maneira, guardava, em si, o registo do seu casamento!
Ficou alguns minutos a olhar para para aquela massa ressumante, de chocolate...
Que fazer-lhe? Comê-lo, não! Agora, enjoava-a e, de resto, a dieta não o permitia! Dar à empregada? Não, que pensaria ela? Deitá-lo fora? Também não! Há muita fome no mundo! Seria um pecado!
“Bem, veremos!” pensou, com um sorriso.
A Teresa tinha-a desafiado para irem, com a Camila, ao cinema, ver “ A dúvida” e depois jantarem, num restaurante da Foz.
Aceitaria o desafio ou...não?
Estava, de qualquer modo, a fazer-se tarde. Subiu ao quarto, tomou um banho, vestiu-se, maquilhou-se ligeiramente e penteou-se. Deixou cair, sobre si, um chuvisco delicioso de Chanel nº 5.
Viu-se ao espelho e gostou do que viu!
Era ainda uma mulher bonita, atraente, elegante e bem conservada, apesar de tanta amargura e tanta canseira!
Tocaram à campainha. O coração disparou...
Desceu as escadas a correr! Seria a primeira vez...
O cheiro doce, guloso, vibrante, quase erótico, do chocolate quente, inundava toda a casa...
Respirou fundo, deu um jeito à blusa de seda e abriu a porta.
O rosto bonito iluminou-se num sorriso e os olhos verdes, brilharam, com a cor e a doçura das folhas tenras e orvalhadas, nas madrugadas macias e transparentes de Verão...
“Entra!”, disse docemente.
Quando retirar do forno e poucos minutos depois, o Pão de Ló húmido... de
Chocolate, vai perder o aspecto bonito, tufado e fofo ! Vai baixar. É normal...
MC
( A Gula - Pecado Mortal)
O Escritor e as Palavras
Um Escritor não tricota com palavras! Ele escreve e cria!
Mas, se quisesse, deveria ser muito fácil, para ele, tricotar textos lindos, com sentido ou, até mesmo sem sentido, mas sempre, extraordinariamente belos! Em Prosa ou em Poesia! Um Escritor conhece profundamente as palavras, escuta-as, ama-as, esgrime com elas! E elas falam-lhe, confiam-lhe segredos, cantam e riem só para ele! São caprichosas, mimadas e difíceis, as palavras! Às vezes, também se zangam, gritam, choram e fazem birra!
O Escritor, no entanto, entende-as, acarinha-as e perdoa-lhes os caprichos porque são parte da seu mundo e elas, que não têm vida sem ele, como se, cada uma delas, fosse Mulher, deixam-se mimar perdoar e amar!
Quando o Escritor se retira para o mundo fantástico das palavras, escolhe-as, brinca com elas, junta-as, separa-as, rejeita-as, mistura-as, a seu gosto e, como se uma fada o tivesse especialmente fadado, tem, dentro de si, esse dom mágico, raro, que lhe permite criar as obras literárias, do nosso deslumbramento, transbordantes de talento, luminosas, enriquecedoras, perfeitas!
MC
( O Escritor e as Palavras)
Mas, se quisesse, deveria ser muito fácil, para ele, tricotar textos lindos, com sentido ou, até mesmo sem sentido, mas sempre, extraordinariamente belos! Em Prosa ou em Poesia! Um Escritor conhece profundamente as palavras, escuta-as, ama-as, esgrime com elas! E elas falam-lhe, confiam-lhe segredos, cantam e riem só para ele! São caprichosas, mimadas e difíceis, as palavras! Às vezes, também se zangam, gritam, choram e fazem birra!
O Escritor, no entanto, entende-as, acarinha-as e perdoa-lhes os caprichos porque são parte da seu mundo e elas, que não têm vida sem ele, como se, cada uma delas, fosse Mulher, deixam-se mimar perdoar e amar!
Quando o Escritor se retira para o mundo fantástico das palavras, escolhe-as, brinca com elas, junta-as, separa-as, rejeita-as, mistura-as, a seu gosto e, como se uma fada o tivesse especialmente fadado, tem, dentro de si, esse dom mágico, raro, que lhe permite criar as obras literárias, do nosso deslumbramento, transbordantes de talento, luminosas, enriquecedoras, perfeitas!
MC
( O Escritor e as Palavras)
Tricotando com Palavras
Tive, na Faculdade, um professor escocês que, a conselho psiquiátrico, tricotava longas tiras de malha, quando tinha de ficar parado, isto é, enquanto vigiava frequências ou exames.
Fascinava-me a rapidez incrível com que tricotava e o ponto certinho, que quase tranformava aquelas tiras de malha, lindíssimas, em obras de arte, de leveza e perfeição!
Muitas vezes dei comigo a pensar para que serviriam aquelas longas tiras de tricot, cada qual de sua cor. Até que, decidi que deviam ser cachecóis!
Não sei fazer tricot mas, não resisto ao desafio de tentar tricotar uma longa tira de palavras., não sei ainda como mas, com certeza, nunca com a beleza da malha certinha, do meu professor escocês!
Neste meu tricot, as palavras são os meus novelos e a esferográfica e depois, as teclas do computador, as minhas agulhas.
As palavras são preciosas, como jóias antigas! Mas, também são flexíveis e, deixam-se modelar, vestir, colorir e perfumar por aqueles que as amam e fazem delas, fonte inesgotável, de criação!
Assim sendo, as palavras respiram a vida, tomam a forma, vestem-se da cor, compõem a música e exalam o perfume, que o Escritor quiser!
Mas, não sei se vou saber tricotar com elas! O meu professor, aqui a meu lado , sorri e diz-me que sim...
Na esteira de Cesare Pavese, que escreveu a frase “ o mar parece azeite”, escrevi, um dia, que “o mar parece um oleado ondulante e pardo”. Não é aquele, nem este mar que quero tricotar! Não tenho novelos esverdinhados e viscosos como o azeite, nem tenho novelos pardos como um oleado!
Prefiro aquela massa líquida, imensa, translúcida, de um azul profundo, salpicado de luz, que não quero rematado por espuma mas, por gatinhos brancos, pequenas bolinhas de pelo, que saltitam, rebolam e brincam contentes e libertos da dor de pensar, como o gato de Fernando Pessoa.
Estes gatinhos, só meus, não brincam na rua, brincam na areia, também, como se fosse na cama e, sem molhar as patinhas felpudas, são a mais bela cercadura viva, para esse mar do meu encantamento
E, no meu vestido azul, enfeitado de veludo branco, que me fica tão bem, eu tricoto
esse mar magnífico, com os meus novelos azuis, bordados a fio de prata e com os
meus novelos brancos, cansados de tanta brincadeira! E, à medida que se desenrolam osnovelos e as malhas se entrelaçam, enroscam-se, ternamente, no ar, a música deliciosa, sorridente de Mozart e o perfume, suave e macio, dos lírios do campo, da lavanda, da alfazema e do tomilho.
Mas, logo a seguir, desce a noite gelada e tempestuosa e o mar é, agora, um abismo imenso, negro, rasgado por relâmpagos que ziguezagueiam e se despedaçam nas vagas encapeladas, violentas que batem fortes, em furioso turbilhão, contra as rochas e açoitam, endoidecidas, a areia serena e branda. E, a música poderosa de Wagner, que traz consigo laivos de vermelho que lembram sangue e que lembram guerra, irrompe das profundezas desse abismo aterrador, com o cheiro a raiva, a vingança, a sal e a algas.
E eu tricoto esse mar com as palavras pesadas, assustadoras que são os meus novelos de escuridão e de pesadelo!
Foi muito penoso tricotar este mar, de vagas enormes, a ribombar, alterosas.
Enganei-me no ponto e deixei caír malhas, como lágrimas.
Estou cansada e encolho-me, com frio, no meu vestido escuro, com laivos vermelhos
que lembram sangue e lembram guerra.
Mas, a noite tempestuosa esvai-se e o dia nasce...
E, na claridade límpida e serena da madrugada, o mar que vejo, é azul cristalino,com pinceladas de cor-de-rosa, salpicado de ouro e vai-se aproximando, devagarinho, timidamente, num marulhar feito de ternura e de amor, ao encontro da areia dourada, fina, macia e húmida que o espera, também ela, témula e ansiosa. E o mar, num redemoinho de emoções, com o coração aos tropeços, o cor-de-rosa agora feito o vermelho da paixão, espraia-se nela e, cobrindo-a com um rendilhado delicado de espuma, qual renda de bilros, abraça-a, beija-a e sussurra-lhe inconfessáveis segredos, envolvendo-a nas suas ondas mansas, para logo se fundirem num abraço de luz!
Depois, na languidez preguiçosa, apaziguada, do amor saciado, ele deixa-se ficar, a revoltear, junto dela, numa suave ondulação.
E, eu, no meu vestido azul claro com pinceladas de rosa e de vermelho, vaporoso e, quase translúcido, tricoto com os meus novelos macios, a fio de luz entrelaçados, este mar enamorado e a areia, sua amada! Deles emergem, suavemente, a doçura de “Für Elise” de Beethoven, e o doce e envolvente perfume das rosas e do jasmim e o cheiro delicado e pensativo das gardénias.
O tempo muda e o mar reflecte o céu que, de repente, ficou cinzento e agora quase, mas quase, esverdinhado, viscoso e pardo. Este é o mar gélido, desolado dos náufragos, dos suicidas, do desespero e da loucura!
E, eu, no meu vestido cinzento, opaco e feio, tricoto este mar de infelicidade, de vidas violentamente interrompidas, esse mar onde repousam sonhos em pedaços, projectos destroçados, farrapos de Esperança perdida, com os meus novelos cinzentos, baços, e tristes e neles, agora, é Chopin que chora baixinho e cheira a velas e a flores murchas, apodrecidas! Como os afogados, como os sonhos desfeitos, como os projectos, para sempre, apenas projectos, como os farrapos de Esperança destroçada!
Esgotou-me, tricotar este mar a cheirar a morte e a podridão!
É tempo de voar, reencontrar a alegria de viver e de correr, ansiosamente, atrás do
sonho de voltar ao ponto de partida!
Mas, chorosa, deparei-me com um mar de luto. Um mar estranho que me enjoou, que me provocou a agonia do vómito e dos suores frios, quando o cheiro horrendo da fome mais negra, da doença sem remédio, da miséria mais pungente, da guerra mais impiedosa, me atingiu, em cheio, como uma bola incandescente!
Não sei tricotar este mar! Não vou tricotar este mar! Não quero tricotar este mar!
Então, com o poder imenso, fantástico, quase divino das palavras feitas novelos de lã, modifico este mar e transformo-o numa toalha imensa, esplêndida, cheia de cor e de luz, com um remate de espuma que é, afinal, uma sumptuosa renda de Bruges, que estendo sobre uma mesa infinita, agora alegre e farta pois, sobre ela há inesgotáveis alimentos e remédios, uma imensa solidariedade e uma forte e terna fraternidade! Para que não haja fome, nem doença, nem miséria, nem guerra!
E, eu tricoto esta toalha maravilhosa com os meus novelos amarelos, vermelhos, azuis, cor de laranja e verdes e deles brota a música sensual da kizomba, e o som agreste e excitante, dos batuques, e deles, brotam também os cheiros fortes, tropicais, da vegetação exuberante, do abacaxi, do maracujá, da papaia, do coco e o cheiro a barro, consolado da terra vermelha, depois da chuva!
E, tricoto, ainda, com os meus novelos, agora, endiabrados, carregados de erotismo e desejo, os corpos negros, lascivos, suados, que se agitam indomáveis, em frémitos de prazer e de paixão, ao ritmo inquietante e frenético dos batuques!
As palavras, meus novelos feiticeiros, conferem-me, ainda, com o seu poder mágico, quase divino, a possibilidade singular de criar, só para mim, um espaço de maravilhosa fascinação, neste mar africano.
Não vou pôr no mar, em seu lugar, um relâmpago, como fez Luís Miguel Nava. Os
relâmpagos são brilhantes, belos e poderosos mas, assustadores!
Também não vou pôr no mar, em seu lugar, um vasto campo de miosótis pequeninos e
azuis, onde eu pudesse dançar, solta e descalça, ao som de uma melodia belíssima,
fantástica, que o mar compusesse, só para mim, como fiz um dia!
Não! No lugar do mar, vou pôr um mangal, sem mosquitos, transbordante de encanto e de romantismo, com flamingos cor-de-rosa, só meus, acácias em flor, só minhas e uma cascata imensa, cristalina, cheia de luz e brilho, a brotar, deslumbrante, entrelaçada numa vegetação magnífica, vestida de verde de mil matizes, também, só minha!
Um mangal só meu, para me encantar, para me libertar, para me encontrar e nunca mais me perder! De mim!
E, eu, envolta em panos coloridos, artisticamente traçados sobre o meu corpo, modelando-o, com os meus novelos que escorrem beleza e magia, num delírio de cores e ofuscantes de luz, tricoto este mangal de fantasia, onde ressoam os batuques, a kizomba e, onde paira, provocante, o cheiro fresco mas, atrevido, das acácias em flor!
É espantoso, como este desenrolar dos meus novelos mágicos ora, luminosos e coloridos ora, baços e escuros, trouxe, de volta, até mim, depois de tanto tempo, o meu professor que aqui esteve comigo, em amena conversa, enquanto tricotei, com palavras, esta longa tira de escrita que, nem sequer pode ser um cachecol bonito, fofo e perfeito como os seus!
Já arrumei o meu texto tricotado.
O meu professor escocês já se despediu, e, como é um cavalheiro, limitou-se a sorrir e a dizer-me, docemente: “ My dear, don`t worry! It`s just a question of practice!”
Mas, lá no fundo, penso que lhe fez uma certa confusão, este meu tricot lento, desajeitado, com ponto incerto e malhas caídas!
MC
Fascinava-me a rapidez incrível com que tricotava e o ponto certinho, que quase tranformava aquelas tiras de malha, lindíssimas, em obras de arte, de leveza e perfeição!
Muitas vezes dei comigo a pensar para que serviriam aquelas longas tiras de tricot, cada qual de sua cor. Até que, decidi que deviam ser cachecóis!
Não sei fazer tricot mas, não resisto ao desafio de tentar tricotar uma longa tira de palavras., não sei ainda como mas, com certeza, nunca com a beleza da malha certinha, do meu professor escocês!
Neste meu tricot, as palavras são os meus novelos e a esferográfica e depois, as teclas do computador, as minhas agulhas.
As palavras são preciosas, como jóias antigas! Mas, também são flexíveis e, deixam-se modelar, vestir, colorir e perfumar por aqueles que as amam e fazem delas, fonte inesgotável, de criação!
Assim sendo, as palavras respiram a vida, tomam a forma, vestem-se da cor, compõem a música e exalam o perfume, que o Escritor quiser!
Mas, não sei se vou saber tricotar com elas! O meu professor, aqui a meu lado , sorri e diz-me que sim...
Na esteira de Cesare Pavese, que escreveu a frase “ o mar parece azeite”, escrevi, um dia, que “o mar parece um oleado ondulante e pardo”. Não é aquele, nem este mar que quero tricotar! Não tenho novelos esverdinhados e viscosos como o azeite, nem tenho novelos pardos como um oleado!
Prefiro aquela massa líquida, imensa, translúcida, de um azul profundo, salpicado de luz, que não quero rematado por espuma mas, por gatinhos brancos, pequenas bolinhas de pelo, que saltitam, rebolam e brincam contentes e libertos da dor de pensar, como o gato de Fernando Pessoa.
Estes gatinhos, só meus, não brincam na rua, brincam na areia, também, como se fosse na cama e, sem molhar as patinhas felpudas, são a mais bela cercadura viva, para esse mar do meu encantamento
E, no meu vestido azul, enfeitado de veludo branco, que me fica tão bem, eu tricoto
esse mar magnífico, com os meus novelos azuis, bordados a fio de prata e com os
meus novelos brancos, cansados de tanta brincadeira! E, à medida que se desenrolam osnovelos e as malhas se entrelaçam, enroscam-se, ternamente, no ar, a música deliciosa, sorridente de Mozart e o perfume, suave e macio, dos lírios do campo, da lavanda, da alfazema e do tomilho.
Mas, logo a seguir, desce a noite gelada e tempestuosa e o mar é, agora, um abismo imenso, negro, rasgado por relâmpagos que ziguezagueiam e se despedaçam nas vagas encapeladas, violentas que batem fortes, em furioso turbilhão, contra as rochas e açoitam, endoidecidas, a areia serena e branda. E, a música poderosa de Wagner, que traz consigo laivos de vermelho que lembram sangue e que lembram guerra, irrompe das profundezas desse abismo aterrador, com o cheiro a raiva, a vingança, a sal e a algas.
E eu tricoto esse mar com as palavras pesadas, assustadoras que são os meus novelos de escuridão e de pesadelo!
Foi muito penoso tricotar este mar, de vagas enormes, a ribombar, alterosas.
Enganei-me no ponto e deixei caír malhas, como lágrimas.
Estou cansada e encolho-me, com frio, no meu vestido escuro, com laivos vermelhos
que lembram sangue e lembram guerra.
Mas, a noite tempestuosa esvai-se e o dia nasce...
E, na claridade límpida e serena da madrugada, o mar que vejo, é azul cristalino,com pinceladas de cor-de-rosa, salpicado de ouro e vai-se aproximando, devagarinho, timidamente, num marulhar feito de ternura e de amor, ao encontro da areia dourada, fina, macia e húmida que o espera, também ela, témula e ansiosa. E o mar, num redemoinho de emoções, com o coração aos tropeços, o cor-de-rosa agora feito o vermelho da paixão, espraia-se nela e, cobrindo-a com um rendilhado delicado de espuma, qual renda de bilros, abraça-a, beija-a e sussurra-lhe inconfessáveis segredos, envolvendo-a nas suas ondas mansas, para logo se fundirem num abraço de luz!
Depois, na languidez preguiçosa, apaziguada, do amor saciado, ele deixa-se ficar, a revoltear, junto dela, numa suave ondulação.
E, eu, no meu vestido azul claro com pinceladas de rosa e de vermelho, vaporoso e, quase translúcido, tricoto com os meus novelos macios, a fio de luz entrelaçados, este mar enamorado e a areia, sua amada! Deles emergem, suavemente, a doçura de “Für Elise” de Beethoven, e o doce e envolvente perfume das rosas e do jasmim e o cheiro delicado e pensativo das gardénias.
O tempo muda e o mar reflecte o céu que, de repente, ficou cinzento e agora quase, mas quase, esverdinhado, viscoso e pardo. Este é o mar gélido, desolado dos náufragos, dos suicidas, do desespero e da loucura!
E, eu, no meu vestido cinzento, opaco e feio, tricoto este mar de infelicidade, de vidas violentamente interrompidas, esse mar onde repousam sonhos em pedaços, projectos destroçados, farrapos de Esperança perdida, com os meus novelos cinzentos, baços, e tristes e neles, agora, é Chopin que chora baixinho e cheira a velas e a flores murchas, apodrecidas! Como os afogados, como os sonhos desfeitos, como os projectos, para sempre, apenas projectos, como os farrapos de Esperança destroçada!
Esgotou-me, tricotar este mar a cheirar a morte e a podridão!
É tempo de voar, reencontrar a alegria de viver e de correr, ansiosamente, atrás do
sonho de voltar ao ponto de partida!
Mas, chorosa, deparei-me com um mar de luto. Um mar estranho que me enjoou, que me provocou a agonia do vómito e dos suores frios, quando o cheiro horrendo da fome mais negra, da doença sem remédio, da miséria mais pungente, da guerra mais impiedosa, me atingiu, em cheio, como uma bola incandescente!
Não sei tricotar este mar! Não vou tricotar este mar! Não quero tricotar este mar!
Então, com o poder imenso, fantástico, quase divino das palavras feitas novelos de lã, modifico este mar e transformo-o numa toalha imensa, esplêndida, cheia de cor e de luz, com um remate de espuma que é, afinal, uma sumptuosa renda de Bruges, que estendo sobre uma mesa infinita, agora alegre e farta pois, sobre ela há inesgotáveis alimentos e remédios, uma imensa solidariedade e uma forte e terna fraternidade! Para que não haja fome, nem doença, nem miséria, nem guerra!
E, eu tricoto esta toalha maravilhosa com os meus novelos amarelos, vermelhos, azuis, cor de laranja e verdes e deles brota a música sensual da kizomba, e o som agreste e excitante, dos batuques, e deles, brotam também os cheiros fortes, tropicais, da vegetação exuberante, do abacaxi, do maracujá, da papaia, do coco e o cheiro a barro, consolado da terra vermelha, depois da chuva!
E, tricoto, ainda, com os meus novelos, agora, endiabrados, carregados de erotismo e desejo, os corpos negros, lascivos, suados, que se agitam indomáveis, em frémitos de prazer e de paixão, ao ritmo inquietante e frenético dos batuques!
As palavras, meus novelos feiticeiros, conferem-me, ainda, com o seu poder mágico, quase divino, a possibilidade singular de criar, só para mim, um espaço de maravilhosa fascinação, neste mar africano.
Não vou pôr no mar, em seu lugar, um relâmpago, como fez Luís Miguel Nava. Os
relâmpagos são brilhantes, belos e poderosos mas, assustadores!
Também não vou pôr no mar, em seu lugar, um vasto campo de miosótis pequeninos e
azuis, onde eu pudesse dançar, solta e descalça, ao som de uma melodia belíssima,
fantástica, que o mar compusesse, só para mim, como fiz um dia!
Não! No lugar do mar, vou pôr um mangal, sem mosquitos, transbordante de encanto e de romantismo, com flamingos cor-de-rosa, só meus, acácias em flor, só minhas e uma cascata imensa, cristalina, cheia de luz e brilho, a brotar, deslumbrante, entrelaçada numa vegetação magnífica, vestida de verde de mil matizes, também, só minha!
Um mangal só meu, para me encantar, para me libertar, para me encontrar e nunca mais me perder! De mim!
E, eu, envolta em panos coloridos, artisticamente traçados sobre o meu corpo, modelando-o, com os meus novelos que escorrem beleza e magia, num delírio de cores e ofuscantes de luz, tricoto este mangal de fantasia, onde ressoam os batuques, a kizomba e, onde paira, provocante, o cheiro fresco mas, atrevido, das acácias em flor!
É espantoso, como este desenrolar dos meus novelos mágicos ora, luminosos e coloridos ora, baços e escuros, trouxe, de volta, até mim, depois de tanto tempo, o meu professor que aqui esteve comigo, em amena conversa, enquanto tricotei, com palavras, esta longa tira de escrita que, nem sequer pode ser um cachecol bonito, fofo e perfeito como os seus!
Já arrumei o meu texto tricotado.
O meu professor escocês já se despediu, e, como é um cavalheiro, limitou-se a sorrir e a dizer-me, docemente: “ My dear, don`t worry! It`s just a question of practice!”
Mas, lá no fundo, penso que lhe fez uma certa confusão, este meu tricot lento, desajeitado, com ponto incerto e malhas caídas!
MC
Poema tricotado
Sinto-te, procuro-te, chamo-te,
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
Recordo o teu olhar macio,
Nas estrelas, a fio de luz,
Bordadas...
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
Escuto a tua voz e o teu riso,
Na rua, no campo, nas serenas
Madrugadas...
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
Sinto-te, procuro-te, chamo-te,
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
MC
( A Paciência; a Perseverança)
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
Recordo o teu olhar macio,
Nas estrelas, a fio de luz,
Bordadas...
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
Escuto a tua voz e o teu riso,
Na rua, no campo, nas serenas
Madrugadas...
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
Sinto-te, procuro-te, chamo-te,
Revejo-te e não te vejo...
Há quanto tempo é assim?
Diz-me, amor, porque não sei,
Como te perdeste... de mim!
MC
( A Paciência; a Perseverança)
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
IRA: Libertação e Disciplina
Quando a Ira e o Ódio se defrontam...
Ela sentiu a porta de casa abrir, para logo se fechar com violência. Sentiu, com um arrepio, que ele estava, outra vez, mal disposto, zangado. O cheiro pútrido da sua ira que, como um polvo, parecia estender os tentáculos por toda a casa, procurando-a, maligno, para a prender e oprimir, atingiu-a, ainda mesmo antes de a encontrar, como uma pedra de fogo.
Respirou fundo e tentou sossegar o coração que disparara e batia forte e incerto, provocando-lhe uma aflitiva falta de ar. Teve medo!
Mexeu a sopa e começou a cortar o tomate, em fatias finas, para a salada. Não se voltou quando ele entrou na cozinha, infectando, tudo em seu redor, com os miasmas pestilentos, contaminados, da sua ira maléfica, que ela tão bem conhecia!
Onde estavas? Telefonei duas vezes, não atendeste, onde estavas?
Calada, continuou de costas para ele, a cortar fatias finas de tomate, com as mãos a tremer, quase sufocada.
Olha para mim e responde!
Ela voltou-se devagar, como em câmara lenta, a faca esquecida na mão e olhou para ele. Encolheu-se!
Aterrorizada, viu diante de si, aquele homem alto, forte, com os olhos brilhantes, raiados de sangue, um olhar duro e frio, como de uma serpente, o rosto alterado e uma veia grossa, como uma corda, a latejar na testa. Aquele homem que era, desgraçadamente, seu marido.
Fui à mercearia, respondeu , num sussuro.
À mercearia? Assim, tão bem arranjada? O que foste fazer?
Sem esperar pela resposta, aproximou-se dela, de um salto e esbofeteou-a! Atingiu-lhe o nariz, o sobrolho esquerdo e o lábio. O sangue jorrou! De cabeça perdida, agarrou-a pelos cabelos e bateu-lhe outra vez. Na mão, ficou-lhe um punhado de cabelo loiro, deu-lhe um empurrão brutal e ela caiu desamparada. Gritou e urinou-se quando ele lhe deu um pontapé impiedoso, nos rins!
Ali ficou, deitada no chão, vulnerável, cheia de dores, esgotada. Como de costume, ele falou, falou, gritou, como um demónio, a contorcer-se, num inferno de fogo e de ira! E, como sempre foi irónico, foi sarcástico, foi insultuoso! Foi malévolo e foi cínico!
Mas, ela não o ouvia!
Caída no chão, num repentino flashback, reviveu doze anos de agonia e de calvário! Doze anos de casamento, amassados com lágrimas, sangue, medo!
Recordou todas e cada uma das pancadas, dos pontapés, dos empurrões; recordou, com mágoa, o sofrimento dos dois abortos que sofrera, das humilhações e do constante terror que lhe enegrecia os dias!
Estarreciam-na aquelas frequentes e súbitas explosões de uma ira terrível, violenta, incontrolável, por pequenas coisas e, às vezes, que ela soubesse, por nada, seguidas de uma calma doentia, de uma quietação estranha que sempre a assombrara e de intoleráveis carícias e rudes manifestações de afecto que, geralmente, acabavam em longas sessões de sexo que a enojavam, vilipendiavam e eram uma torturante violação para o seu pobre corpo espancado!
Mas, como ele dizia depois, com um risinho lúbrico e maligno, excitava-o, irresistivelmente, senti-la assim frágil, cansada, submetida a si, aos seus mais loucos desejos!
Nunca ninguém a ajudara, nem a família, que não acreditava, ou fingia não acreditar, nos inenarráveis ataques de ira, daquele bom homem, como eles diziam, nem a polícia a quem, uma vez, para nunca mais, ousara apresentar queixa.
O agente destacado para levantar o auto, exigira que ela relatasse tudo, com todos os detalhes e ouvira-a, indiferente, como quem faz um frete, mas, com um leve sorriso canalha e o olhinho lascivo que a despia. Enfureceu-se, envergonhou-se, arrependeu-se! No fim, com um olhar velhaco para o colega do lado, o agente disse-lhe que veriam o que se podia fazer.
Já em casa, sozinha, com medo de represálias e de lhe despertar, mais furiosamente, a ira, não dormira nessa noite e retirou a queixa no dia seguinte!
Estava tão farta, tão exausta, tão desesperada!
De repente, esquecidas as palavras, ele perdeu-se no silêncio frio da cozinha e aquietou-se. Ainda caída no chão, ouviu-o dizer, nessa quietação estranha, que nunca deixara de a assombrar:
Levanta-te, amor! São horas de jantar. Sabes que te amo. Olha para mim! Levanta-te!
Limpa o sangue do teu corpo! Isso não é nada!
Casámos há doze anos e vamos ficar juntos para sempre! Eu só quero proteger-te! Sabes, querida, detesto que me contraries e teimes em não fazer as coisas, como eu gosto! Tens de aprender a satisfazer os meus gostos, a obedecer às minhas ordens! É assim tanto e tão difícil o que te peço?
E, com um olhar carregado de sensualidade, continuou:
Estás cada vez mais bonita, perfeita e desejável! Ah! Como és desejável e como eu te desejo!
Mas quem és tu sem mim? Uma qualquer, para aí, na rua.! Não quero isso para ti, amor! Lembra-te, só quero o teu bem!
Anda, levanta-te! Limpa o sangue do teu corpo, vá! São horas de jantar. Serve a sopa!
Este homem é doido, pensou. Tanto tempo, sozinha, nas mãos de um louco!
Estava farta daquele rosto, agora tranquilo e doce, como o de um noivo, mas, ainda há pouco, medonho, congestionado, contorcido; tinha medo daqueles olhos brilhantes, raiados de sangue, irados, que pareciam expedir chispas de fogo; enojava-a aquela boca que se abria, agora, num arreganho, a imitar um sorriso e onde, não há muitos minutos, os dentes escorriam ira!
Encolhida no chão, sentiu-se suja, humilhada, corrompida pela ira, pela loucura maldosa, pela irracionalidade daquele monstro!
A seu lado, sob a saia, sentiu a faca.
Levanta-te, anda! Está a fazer-se tarde para o jantar!
Ela levantou-se, devagar, a faca na mão, escondida nas pregas da saia.
A expressão dos teus olhos mete medo! Que tens? Não me provoques! Tem juízo! Anda, serve a sopa! Depressa ! Tenho fome e apeteces-me, depois, amor! A minha sobremesa predilecta és tu, sabes?
Uma vaga imensa e negra, de ódio, há tanto tempo acumulado, inundou-a e quase a submergiu, cegando-a!
Como uma sonâmbula, dirigiu-se a ele.
E, de repente, o dique que continha o seu ódio, um ódio vivo, que fora crescendo, crescendo, fortalecendo-se e refinando-se, ao longo do tempo, como um vinho especial, raro no corpo e no travo, cuidadosamente envelhecido, esse dique que barrava a sua repulsa, a sua raiva, o seu nojo, rompeu-se fragorosamente e, com um grito, arrancado do mais profundo das suas entranhas, do mais íntimo do seu ser, ela enterrou-lhe a faca no ventre.!
Uma vez... duas vezes... três vezes...
Umas facadas mais fundas, outras mais superficiais mas, todas temperadas com o ódio acerado, com o infinito desespero e com o terror sufocante, vividos, durante doze anos de amargura!
Agora, era ele que estava caído no chão, um corpo torcido, grotesco, com a expressão de um imenso espanto, na cara, agora branca como a cal, os olhos frios de serpente, já meio-opacos e, por fim, quieto, enfim, calado!
Com o rosto cheio de sangue, o olho esquerdo tão inchado, que não abria, uma dor excruciante a tolher-lhe os rins, toda urinada, o corpo dorido das pancadas, do empurrão brutal e da queda, ela ali estava, de pé, a ouvir, não as ironias baratas, não os sacasmos torpes, não os insultos gratuitos mas, o estertor cavo, aflitivo, horrendo, da morte. Ali ficou, serena, imóvel, a vê-lo morrer devagar, numa agonia lenta, como um animal feroz, danado, finalmente, abatido, subjugado, submisso!
A seus pés!
E, ela, pela primeira vez, em tantos anos, livre, apaziguada, tranquila, senhora de si, senhora do seu destino!
Fosse, qual fosse o seu destino!!!
MC
( A Ira - Pecado mortal)
Ela sentiu a porta de casa abrir, para logo se fechar com violência. Sentiu, com um arrepio, que ele estava, outra vez, mal disposto, zangado. O cheiro pútrido da sua ira que, como um polvo, parecia estender os tentáculos por toda a casa, procurando-a, maligno, para a prender e oprimir, atingiu-a, ainda mesmo antes de a encontrar, como uma pedra de fogo.
Respirou fundo e tentou sossegar o coração que disparara e batia forte e incerto, provocando-lhe uma aflitiva falta de ar. Teve medo!
Mexeu a sopa e começou a cortar o tomate, em fatias finas, para a salada. Não se voltou quando ele entrou na cozinha, infectando, tudo em seu redor, com os miasmas pestilentos, contaminados, da sua ira maléfica, que ela tão bem conhecia!
Onde estavas? Telefonei duas vezes, não atendeste, onde estavas?
Calada, continuou de costas para ele, a cortar fatias finas de tomate, com as mãos a tremer, quase sufocada.
Olha para mim e responde!
Ela voltou-se devagar, como em câmara lenta, a faca esquecida na mão e olhou para ele. Encolheu-se!
Aterrorizada, viu diante de si, aquele homem alto, forte, com os olhos brilhantes, raiados de sangue, um olhar duro e frio, como de uma serpente, o rosto alterado e uma veia grossa, como uma corda, a latejar na testa. Aquele homem que era, desgraçadamente, seu marido.
Fui à mercearia, respondeu , num sussuro.
À mercearia? Assim, tão bem arranjada? O que foste fazer?
Sem esperar pela resposta, aproximou-se dela, de um salto e esbofeteou-a! Atingiu-lhe o nariz, o sobrolho esquerdo e o lábio. O sangue jorrou! De cabeça perdida, agarrou-a pelos cabelos e bateu-lhe outra vez. Na mão, ficou-lhe um punhado de cabelo loiro, deu-lhe um empurrão brutal e ela caiu desamparada. Gritou e urinou-se quando ele lhe deu um pontapé impiedoso, nos rins!
Ali ficou, deitada no chão, vulnerável, cheia de dores, esgotada. Como de costume, ele falou, falou, gritou, como um demónio, a contorcer-se, num inferno de fogo e de ira! E, como sempre foi irónico, foi sarcástico, foi insultuoso! Foi malévolo e foi cínico!
Mas, ela não o ouvia!
Caída no chão, num repentino flashback, reviveu doze anos de agonia e de calvário! Doze anos de casamento, amassados com lágrimas, sangue, medo!
Recordou todas e cada uma das pancadas, dos pontapés, dos empurrões; recordou, com mágoa, o sofrimento dos dois abortos que sofrera, das humilhações e do constante terror que lhe enegrecia os dias!
Estarreciam-na aquelas frequentes e súbitas explosões de uma ira terrível, violenta, incontrolável, por pequenas coisas e, às vezes, que ela soubesse, por nada, seguidas de uma calma doentia, de uma quietação estranha que sempre a assombrara e de intoleráveis carícias e rudes manifestações de afecto que, geralmente, acabavam em longas sessões de sexo que a enojavam, vilipendiavam e eram uma torturante violação para o seu pobre corpo espancado!
Mas, como ele dizia depois, com um risinho lúbrico e maligno, excitava-o, irresistivelmente, senti-la assim frágil, cansada, submetida a si, aos seus mais loucos desejos!
Nunca ninguém a ajudara, nem a família, que não acreditava, ou fingia não acreditar, nos inenarráveis ataques de ira, daquele bom homem, como eles diziam, nem a polícia a quem, uma vez, para nunca mais, ousara apresentar queixa.
O agente destacado para levantar o auto, exigira que ela relatasse tudo, com todos os detalhes e ouvira-a, indiferente, como quem faz um frete, mas, com um leve sorriso canalha e o olhinho lascivo que a despia. Enfureceu-se, envergonhou-se, arrependeu-se! No fim, com um olhar velhaco para o colega do lado, o agente disse-lhe que veriam o que se podia fazer.
Já em casa, sozinha, com medo de represálias e de lhe despertar, mais furiosamente, a ira, não dormira nessa noite e retirou a queixa no dia seguinte!
Estava tão farta, tão exausta, tão desesperada!
De repente, esquecidas as palavras, ele perdeu-se no silêncio frio da cozinha e aquietou-se. Ainda caída no chão, ouviu-o dizer, nessa quietação estranha, que nunca deixara de a assombrar:
Levanta-te, amor! São horas de jantar. Sabes que te amo. Olha para mim! Levanta-te!
Limpa o sangue do teu corpo! Isso não é nada!
Casámos há doze anos e vamos ficar juntos para sempre! Eu só quero proteger-te! Sabes, querida, detesto que me contraries e teimes em não fazer as coisas, como eu gosto! Tens de aprender a satisfazer os meus gostos, a obedecer às minhas ordens! É assim tanto e tão difícil o que te peço?
E, com um olhar carregado de sensualidade, continuou:
Estás cada vez mais bonita, perfeita e desejável! Ah! Como és desejável e como eu te desejo!
Mas quem és tu sem mim? Uma qualquer, para aí, na rua.! Não quero isso para ti, amor! Lembra-te, só quero o teu bem!
Anda, levanta-te! Limpa o sangue do teu corpo, vá! São horas de jantar. Serve a sopa!
Este homem é doido, pensou. Tanto tempo, sozinha, nas mãos de um louco!
Estava farta daquele rosto, agora tranquilo e doce, como o de um noivo, mas, ainda há pouco, medonho, congestionado, contorcido; tinha medo daqueles olhos brilhantes, raiados de sangue, irados, que pareciam expedir chispas de fogo; enojava-a aquela boca que se abria, agora, num arreganho, a imitar um sorriso e onde, não há muitos minutos, os dentes escorriam ira!
Encolhida no chão, sentiu-se suja, humilhada, corrompida pela ira, pela loucura maldosa, pela irracionalidade daquele monstro!
A seu lado, sob a saia, sentiu a faca.
Levanta-te, anda! Está a fazer-se tarde para o jantar!
Ela levantou-se, devagar, a faca na mão, escondida nas pregas da saia.
A expressão dos teus olhos mete medo! Que tens? Não me provoques! Tem juízo! Anda, serve a sopa! Depressa ! Tenho fome e apeteces-me, depois, amor! A minha sobremesa predilecta és tu, sabes?
Uma vaga imensa e negra, de ódio, há tanto tempo acumulado, inundou-a e quase a submergiu, cegando-a!
Como uma sonâmbula, dirigiu-se a ele.
E, de repente, o dique que continha o seu ódio, um ódio vivo, que fora crescendo, crescendo, fortalecendo-se e refinando-se, ao longo do tempo, como um vinho especial, raro no corpo e no travo, cuidadosamente envelhecido, esse dique que barrava a sua repulsa, a sua raiva, o seu nojo, rompeu-se fragorosamente e, com um grito, arrancado do mais profundo das suas entranhas, do mais íntimo do seu ser, ela enterrou-lhe a faca no ventre.!
Uma vez... duas vezes... três vezes...
Umas facadas mais fundas, outras mais superficiais mas, todas temperadas com o ódio acerado, com o infinito desespero e com o terror sufocante, vividos, durante doze anos de amargura!
Agora, era ele que estava caído no chão, um corpo torcido, grotesco, com a expressão de um imenso espanto, na cara, agora branca como a cal, os olhos frios de serpente, já meio-opacos e, por fim, quieto, enfim, calado!
Com o rosto cheio de sangue, o olho esquerdo tão inchado, que não abria, uma dor excruciante a tolher-lhe os rins, toda urinada, o corpo dorido das pancadas, do empurrão brutal e da queda, ela ali estava, de pé, a ouvir, não as ironias baratas, não os sacasmos torpes, não os insultos gratuitos mas, o estertor cavo, aflitivo, horrendo, da morte. Ali ficou, serena, imóvel, a vê-lo morrer devagar, numa agonia lenta, como um animal feroz, danado, finalmente, abatido, subjugado, submisso!
A seus pés!
E, ela, pela primeira vez, em tantos anos, livre, apaziguada, tranquila, senhora de si, senhora do seu destino!
Fosse, qual fosse o seu destino!!!
MC
( A Ira - Pecado mortal)
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
DA HUMILDADE
“ A noite abre as flores em silêncio e deixa que o dia receba os agradecimentos” (Tagore )
Se me pedissem para dar uma forma visual, para ilustrar a Humildade, eu pintaria um lírio branco do campo. Um lírio roxo, não! A cor roxa significa luto, tristeza e lembra a Quaresma, e o sofrimento de Cristo.
A Humildade não tem, necessáriamente, de ser triste. Pelo contrário! É uma virtude delicada, positiva e enriquecedora, embora seja, talvez, uma das mais difíceis de pôr em prática.!
Na verdade, há situações na nossa vida, tão geladas, tão cinzentas e tão injustas, que nos perdemos, mesmo sem querer, da branda Humildade!
Todos sabemos como, instintivamente, rejeitamos uma crítica dura e, muitas vezes, sem sentido, a um trabalho feito com infinito cuidado e empenhamento; sabemos como é devastador ver um projecto, arquitectado com extrema dedicação, cair estilhaçado aos nossos pés e ser sumariamente, recusado; sabemos como dói que as nossas palavras sejam desvirtuadas ou escarnecidas ; sabemos como é arrasador sentir o trabalho de uma vida, desprezado, desvalorizado, e posto em causa, simplesmente, porque quem o avalia, não está à altura de o fazer!
Daí, dizer-se que a Humildade é coisa de Santo, pois implica aceitação sem reservas e, saber dar, de coração aberto, a outra face!
Não sei se será exactamente assim mas, pensando bem, o ser humano já deve trazer consigo, quando nasce, uma certa dose de Humildade pois tem, inevitavelmente, de aceitar as perdas e o sofrimento, como algo natural, que faz parte da vida e encarar as dificuldades como desafios, alguns bem penosos, que se empenha em vencer, para não soçobrar, liminarmente, na sociedade a que pertence! Para não sucumbir a um irremediável, excruciante desespero!
E, a constante percepção da fragilidade da sua condição humana dificilmente o deixa esquecer que, na vastidão incomensurável do Universo, é apenas um grãozinho de pó que o vento, um dia, levará consigo...
Eu gosto daqueles pequenos gestos, tantas vezes repetidos, feitos lírios do campo, de que poucos se apercebem mas, que estão lá, esguios e brancos, com o brilho suave do cetim, a enfeitarem –nos a vida! A nossa e a dos outros!
Gosto da humildade intelectual, delicada como a flor de cetim que se agita e ondula, na brisa suave do entardecer e nos permite dizer “não sei” , quando não sabemos, “ não fui eu que fiz”, quando não fizemos e nos leva a valorizar o talento daqueles que não gostam de nós e a quem nós, pessoalmente, também não apreciamos!
Creio, no entanto, que a grande dificuldade, na prática desta virtude, será, talvez, saber encontrar a sua justa medida! Santo, certamente, sabe e percorre, sem grandes tropeços, o caminho espinhoso da Humildade!
Mas, para o comum dos mortais esse caminho não é fácil e, a qualquer momento, pode resvalar para o terreno infecto da subserviência ou, descambar para o terreno lodoso e fétido da arrogância!
Na verdade, não será, talvez, difícil, no cruel jogo de interesses da vida, que o ser humano, quase sem se dar conta, dispa a veste branca e acetinada do lírio do campo e vista, acocorado, ou, com uma vénia servil, o fato horrendo e negro da subserviência!
O subserviente não tem coluna vertebral, é um títere nojento que, perdendo a sua independência e individualidade, verga-se, submisso, ao jugo de outros que se consideram seres superiores, aceitando-os, ele também, como tal! E, na sua condescendência abjecta, o subserviente rebaixa-se! Despersonaliza-se! Rasteja!
Por outro lado, se o ser humano que se diz humilde, ultrapassar certos limites, e não resistir a impor a sua vontade, conspurca o vestido branco, de cetim, dessa virtude que eu quis flor do campo, lança-o fora e enverga, com vaidade e orgulho, o atavio vermelho e áspero da arrogância, que, de mãos dadas com o egoísmo, a prepotência e a ignorância, é própria daqueles que recusam o enriquecimento que o contacto com os outros lhes pode proporcionar, e fecham-se num círculo tão pequenino, estreito e medíocre, como eles próprios, recusando aprender com a riqueza e a diversidade deste mundo variado e deslumbrante, onde vivemos!
Há, por exemplo, palavras de pretensa solidariedade e pedidos de desculpa que, escondidos sob a capa diáfana da humildade, mais não são do que arreganhos de malícia, de acinte, de insulto!
Quando é esta virtude de cetim , fugidia, branca e frágil, que está em estudo, é importante também, que se reflicta sobre aqueles que nos governam e nos gerem, uma vez que dependemos, em larga medida, da sua capacidade ou, incapacidade governativa!
Perante essa responsabilidade tremenda, penso, que a virtude principal de um governante é, exactamente, a Humildade!
Os verdadeiros governantes são aqueles que, com grandeza de alma e conscientes da sua transitoriedade nos cargos e da sua pouca importância, neste vasto e multifacetado mundo, se preocupam em ouvir, em compreender, em aceitar e em corrijir, quando percebem que estão errados.
Porque, essencialmente, nunca esquecem que ninguém é perfeito, que ninguém possui a verdade absoluta!
E, quando, na sua Sabedoria e Humildade, aceitam voltar atrás, seja no que for, acreditam que não estão a ceder, nem a perder a face, nem se estão a diminuir, nessa aceitação!
Pelo contrário, agigantam-se e, mais importante ainda, sabem que se tornam mais fortes, mais confiáveis, mais respeitados!
Se um governante, ou um qualquer superior hierárquico, quando fala, diz eu, eu, eu e persiste, teimosamente, cegamente, em manter as suas opiniões, porque, no seu juízo toldado pela ignorância, ceder é cair, ele ou ela descredibiliza-se, esvazia-se, como um saco inútil, cheio de ar e jactância e rapidamente cai no ridículo e torna-se passado!
Porque: “ Ninguém é tão grande que não possa aprender nem tão pequeno que não possa ensinar.”
Nesta reflexão sobre a Humildade, a virtude de medida difícil, que eu quis, com a aparência de lírio do campo, ataviada de branco e de cetim, e sem pretender ser aduladora, não resisto a perguntar:
Não estaremos nós, neste Atelier da Escrita, nesta sala, neste momento, a dar um fantástico exemplo de Humildade, quando lemos os textos, incompletos e toscos, que vamos escrevendo, esforçadamente, perante todos os outros participantes e, muito especialmente, perante um escritor de talento, experiente e arguto?
E, não será, também, um gratificante acto de Humildade, esse escritor galardoado, lido por esse mundo fora, escolher debruçar-se sobre esses textos, incompletos e toscos, escutá-los atentamente, comentá-los, apontando falhas e particularidades com a superior intenção, quero crer, de, corrijindo-os, nos ajudar a abrir novas perspectivas, no tortuoso, solitário mas arrebatador, caminho da escrita?
Dei a forma de lírio à Humildade, porque vejo, nesta virtude, a beleza, a graça e a simplicidade dessa flor do campo, branca e acetinada que, forte na sua fragilidade, enfrenta e resiste às intempéries e ressurge linda, delicada e graciosa, cada Primavera!
MC
“Atai as mãos a vosso vão receio
Que, eu só, resistirei ao jugo alheio”
“Atai as mãos a vosso vão receio”
Nessa manhã serena de Outubro, a primeira de um ano lectivo já perdido no tempo, vi-o tranquilo e sorridente, na aula de apresentação.
Era mais um aluno, entre tantos e nada me fazia advinhar a satisfação que me daria depois, no decorrer desse ano, pela vivacidade da sua inteligência, pelo seu incansável interesse por tudo o que o rodeava, pela sua gentileza de pequeno cavalheiro, numa turma de rapazinhos irrequietos.
Escoaram-se os meses, o ano acabou e outro começou, numa sucessão infinita de fim e de princípio.
E, entre surpreendida e orgulhosa, fui-me apercebendo de como crescia e se preparava com afinco, para o brilhante futuro que se abriria perante ele.
Com o tempo, porém, uma incómoda sensação de distanciamento, como se, tendo tomado a direcção errada, se afastasse para muito longe, muito para além do meu alcance, começou, de mansinho, a apoderar-se do meu cérebro, dos meus sentidos, do meu coração, alertando-me, inquietando-me, como um sinal de aviso irritante, insidioso e contínuo.
Primeiro, uma leve modificação, mais pressentida do que observada, de tão subtil e ténue; depois, cada dia mais acentuadamente, as marcas de uma terrível mudança foram-se estampando no seu rosto pálido e vincado, nos olhos encovados, sem brilho, nos ombros curvados e magros, no seu aspecto, ora desolado e triste como um grito mudo de desesperado abandono e de pungente desalento, ora agressivo, arrogante e cínico.
Nunca andava sozinho, parecia fazer parte de um bando qualquer, sempre acompanhado de indivíduos desleixados, emagrecidos, com um aspecto terrível!
Foi-se afastando cada vez mais e rejeitou, como algo inútil, que se deita fora, o convívio terno e a preocupação, cheia de incertezas, dos pais, as amenas conversas comigo, essencialmente, sobre livros, e a companhia dos “velhos” amigos.
E, de súbito, atordoada, com a alma transida de aflição e de espanto, compreendi que, já pouco ou nada, restava do rapazinho que, um dia, me fora confiado e que, orgulhosa, eu via crescer ! Crescer demasiado rapidamente, talvez!.
Mas, se crescer é difícil, o crescimento sem estruturas sólidas que lhe sirvam de suporte, pode ser tremendamente perigoso.
É então, que o apelo do desconhecido, o desejo de experimentar sensações novas, a ânsia incontrolável de afirmação, se tornam demasiado fascinantes para se lhes resistir.
Tornou-se-lhe difícil e, mais tarde, mesmo impossível, deixar de perseguir, ainda que cada dia mais inseguro, inquieto e só, a tentadora miragem de mundos diferentes e excitantes, os paraísos dourados de completa felicidade, que o pó prometia, e sem dúvida, mais sedutores do que a realidade rotineira e morna do dia-a-dia de um jovem inconformado.
Não sabia, nem podia ainda saber, que a vida é assim mesmo: rotina mesclada de tudo, pequena manta de retalhos feita de estranhas calmarias, violentas tempestades, ocultas elevações místicas e doces arroubos de amor.
E, assim, nessa eterna simbiose de Bem e de Mal de que somos feitos, todos temos os nossos ideais de bondade, de perfeição e de grandeza; zonas de luz e de paz que nos conferem dignidade e nos aproximam de Deus.
Mas, todos temos também os nossos abismos, buracos negros, imundos, onde habitam os monstros sombrios dos nossos medos ancestrais, da nossa iniquidade.
E, quando muito jovens ainda, frágeis e vulneráveis, ousamos descer ao fundo do nosso terror e mergulhar no pântano viscoso e negro das nossas angústias e frustrações inconfessadas – como ele fez – corremos o risco de um completo desiquilíbrio , num resvalar lento, contínuo e imparável que fere, dilacera e acaba por matar!
Tantas vezes tentei falar-lhe e estender-lhe a mão mas, isolado, fechado num casulo tecido de medo, dúvidas e contradições, foi perdendo a capacidade de discernimento entre o real e o fantástico. Como um animal ferido e assustado, deixou-se ficar sem defesas, a tremer de frio, mas agressivo e arrogante, ainda assim, no deserto gelado de solidão e de desamparo que criara para si!
A família, incapaz de o enfrentar, contemporizou com ele e foram, insensatamente, minimizando a gravidade do seu estado, teimosamente agarrados, na sua ignorância, na sua impotência e, talvez também, na sua vergonha, à ideia de que tudo, um dia, voltaria a ser como dantes.
Presos nessa louca esperança, davam-lhe força quando, orgulhoso, repelia auxílio, ajudando-o, sem se darem conta, a mergulhar cada vez mais fundo!
Desorientados, desalentados, vencidos, desistiram dele e entregaram-no, sem fé, nas mãos de Deus!
E, silenciosa e impotente, fui assistindo, sem querer, à tua gradual aniquilação.
Tu viste, como se, realmente, não visses, a agonia e a morte passar a teu lado.
Cada vez mais fechado em ti, isolado e frio, não compreendeste que era impossível resistir, tu só, ao jugo maligno que, ferozmente, te submetia e deixaste-te ficar com as mãos, a alma e a vontade, atadas ao cavalo negro, indomável, a resfolgar fogo e morte, que te dominava, que te ía desmembrando e que, impiedosamente, acabou por te devorar!
E, não sei se este desconsolo que me gela e amarfanha, quando te recordo, como agora, é revolta, é remorso, é tristeza ou, é, simplesmente, saudade!
Ou, é tudo isso junto!
Esta é uma pequena evocação de ti, que nunca chegarás a ler. Uma evocação do que foste, do muito que prometias vir a ser, do nada que soubeste colher da vida!
Intocável e distante, descansas, enfim, para além da dor, para além da esperança, para além da vida!
Mas, perfeito, eternizado na minha memória, enquanto memória eu tiver, vive o rapazinho que foste e permanece, intacto, o projecto de uma vida, para sempre em projecto, porque, irremediavelmente, sem futuro!
A tua Professora
“ Que, eu só, resistirei ao jugo alheio.”
MC
( A Arrogância - Pecado mortal )
Que, eu só, resistirei ao jugo alheio”
“Atai as mãos a vosso vão receio”
Nessa manhã serena de Outubro, a primeira de um ano lectivo já perdido no tempo, vi-o tranquilo e sorridente, na aula de apresentação.
Era mais um aluno, entre tantos e nada me fazia advinhar a satisfação que me daria depois, no decorrer desse ano, pela vivacidade da sua inteligência, pelo seu incansável interesse por tudo o que o rodeava, pela sua gentileza de pequeno cavalheiro, numa turma de rapazinhos irrequietos.
Escoaram-se os meses, o ano acabou e outro começou, numa sucessão infinita de fim e de princípio.
E, entre surpreendida e orgulhosa, fui-me apercebendo de como crescia e se preparava com afinco, para o brilhante futuro que se abriria perante ele.
Com o tempo, porém, uma incómoda sensação de distanciamento, como se, tendo tomado a direcção errada, se afastasse para muito longe, muito para além do meu alcance, começou, de mansinho, a apoderar-se do meu cérebro, dos meus sentidos, do meu coração, alertando-me, inquietando-me, como um sinal de aviso irritante, insidioso e contínuo.
Primeiro, uma leve modificação, mais pressentida do que observada, de tão subtil e ténue; depois, cada dia mais acentuadamente, as marcas de uma terrível mudança foram-se estampando no seu rosto pálido e vincado, nos olhos encovados, sem brilho, nos ombros curvados e magros, no seu aspecto, ora desolado e triste como um grito mudo de desesperado abandono e de pungente desalento, ora agressivo, arrogante e cínico.
Nunca andava sozinho, parecia fazer parte de um bando qualquer, sempre acompanhado de indivíduos desleixados, emagrecidos, com um aspecto terrível!
Foi-se afastando cada vez mais e rejeitou, como algo inútil, que se deita fora, o convívio terno e a preocupação, cheia de incertezas, dos pais, as amenas conversas comigo, essencialmente, sobre livros, e a companhia dos “velhos” amigos.
E, de súbito, atordoada, com a alma transida de aflição e de espanto, compreendi que, já pouco ou nada, restava do rapazinho que, um dia, me fora confiado e que, orgulhosa, eu via crescer ! Crescer demasiado rapidamente, talvez!.
Mas, se crescer é difícil, o crescimento sem estruturas sólidas que lhe sirvam de suporte, pode ser tremendamente perigoso.
É então, que o apelo do desconhecido, o desejo de experimentar sensações novas, a ânsia incontrolável de afirmação, se tornam demasiado fascinantes para se lhes resistir.
Tornou-se-lhe difícil e, mais tarde, mesmo impossível, deixar de perseguir, ainda que cada dia mais inseguro, inquieto e só, a tentadora miragem de mundos diferentes e excitantes, os paraísos dourados de completa felicidade, que o pó prometia, e sem dúvida, mais sedutores do que a realidade rotineira e morna do dia-a-dia de um jovem inconformado.
Não sabia, nem podia ainda saber, que a vida é assim mesmo: rotina mesclada de tudo, pequena manta de retalhos feita de estranhas calmarias, violentas tempestades, ocultas elevações místicas e doces arroubos de amor.
E, assim, nessa eterna simbiose de Bem e de Mal de que somos feitos, todos temos os nossos ideais de bondade, de perfeição e de grandeza; zonas de luz e de paz que nos conferem dignidade e nos aproximam de Deus.
Mas, todos temos também os nossos abismos, buracos negros, imundos, onde habitam os monstros sombrios dos nossos medos ancestrais, da nossa iniquidade.
E, quando muito jovens ainda, frágeis e vulneráveis, ousamos descer ao fundo do nosso terror e mergulhar no pântano viscoso e negro das nossas angústias e frustrações inconfessadas – como ele fez – corremos o risco de um completo desiquilíbrio , num resvalar lento, contínuo e imparável que fere, dilacera e acaba por matar!
Tantas vezes tentei falar-lhe e estender-lhe a mão mas, isolado, fechado num casulo tecido de medo, dúvidas e contradições, foi perdendo a capacidade de discernimento entre o real e o fantástico. Como um animal ferido e assustado, deixou-se ficar sem defesas, a tremer de frio, mas agressivo e arrogante, ainda assim, no deserto gelado de solidão e de desamparo que criara para si!
A família, incapaz de o enfrentar, contemporizou com ele e foram, insensatamente, minimizando a gravidade do seu estado, teimosamente agarrados, na sua ignorância, na sua impotência e, talvez também, na sua vergonha, à ideia de que tudo, um dia, voltaria a ser como dantes.
Presos nessa louca esperança, davam-lhe força quando, orgulhoso, repelia auxílio, ajudando-o, sem se darem conta, a mergulhar cada vez mais fundo!
Desorientados, desalentados, vencidos, desistiram dele e entregaram-no, sem fé, nas mãos de Deus!
E, silenciosa e impotente, fui assistindo, sem querer, à tua gradual aniquilação.
Tu viste, como se, realmente, não visses, a agonia e a morte passar a teu lado.
Cada vez mais fechado em ti, isolado e frio, não compreendeste que era impossível resistir, tu só, ao jugo maligno que, ferozmente, te submetia e deixaste-te ficar com as mãos, a alma e a vontade, atadas ao cavalo negro, indomável, a resfolgar fogo e morte, que te dominava, que te ía desmembrando e que, impiedosamente, acabou por te devorar!
E, não sei se este desconsolo que me gela e amarfanha, quando te recordo, como agora, é revolta, é remorso, é tristeza ou, é, simplesmente, saudade!
Ou, é tudo isso junto!
Esta é uma pequena evocação de ti, que nunca chegarás a ler. Uma evocação do que foste, do muito que prometias vir a ser, do nada que soubeste colher da vida!
Intocável e distante, descansas, enfim, para além da dor, para além da esperança, para além da vida!
Mas, perfeito, eternizado na minha memória, enquanto memória eu tiver, vive o rapazinho que foste e permanece, intacto, o projecto de uma vida, para sempre em projecto, porque, irremediavelmente, sem futuro!
A tua Professora
“ Que, eu só, resistirei ao jugo alheio.”
MC
( A Arrogância - Pecado mortal )
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