sábado, 16 de outubro de 2010

O importante é... a rosa!

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos,
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

One need not be a chamber to be haunted

One need not be a chamber
to be haunted;
One need not be a house;
The brain has corridors
Surpassing Material place

Emily Dickinson


Não é preciso ser um quarto, para ser
assombrado.
Não é preciso ser uma casa;
A mente tem corredores que superam
Qualquer lugar concreto

Emily Dickinson

Não, não é preciso ser casa para ser assombrado!
Nós somos assombrados! Naquelas noites, de estranha quietude, quando os lobos dormem silenciosos e somente a lua uiva, assombra-nos o nosso passado! Assombram-nos as nossas angústias, os nossos sonhos desfeitos, todos os projectos abandonados, os nossos desapontamentos! E, sobretudo, assombram-nos os nossos medos, aqueles medos ancestrais, medonhos, que já nascem connosco e que os temporais, malévolos, da vida,de repente, despertam! E que nos fazem tremer de frio e de solidão e nos magoam, magoam!

E, é então que o passado, que não se pode anular ou esquecer, se pode transformar numa cruel assombração!

A minha mente não é um quarto assombrado!
Nos corredores do meu cérebro, não silenciam lobos, nem uiva a lua!
O meu passado acompanha-me como uma parte de mim, criado e esculpido, dia a dia, hora a hora, por minhas mãos! Hábeis, seguras, prudentes, mas também, desajeitadas, impulsivas, apaixonadas!

Ou, talvez não!
Talvez eu não tenha criado nada, não tenha esculpido nada e me tenha limitado a seguir um Plano superior qualquer...

Mas, não lamento nada! Talvez nem mudasse nada! Afinal, o meu passado é uma manta tecida com fiapos de alma, uma tela preciosa, bordada com fios de vida! Vida que, como uma dança, vou dançando de acordo com a música que o destino, (será destino?), vai compondo e tocando para mim! Pautas e pautas de canções, de baladas, de sinfonias e de alguns réquiens que acomodo num relicário sagrado, só meu: a minha memória!

And if I don't regret my past I just regret the time I've wasted with the wrong people!

But in life, we must keep moving on. Looking back, what we see it`s just a chapter written in the past tense.
We can`t close the book. We mustn`t close the book! Just turn the pages! And live! And hope...


MC

So true...

"I'm selfish, impatient and a little insecure. I make mistakes, I am out of control and at times hard to handle. But if you can't handle me at my worst, then you sure as hell don't deserve me at my best." - Marilyn Monroe

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RIDÍCULA! "MEMO"!

Foi com incredulidade e espanto que assisti, hoje, ao vídeo da Ministra da Educação, na sua mensagem, absolutamente patética e risível, aos alunos, no início deste ano lectivo!!!
A euforia anormal, a alegria forçada, os erros e a postura, sem classe, da senhora pareciam indicar que não estava bem, "memo" nada bem!!!
Não me lembro de ter assistido a um "discurso"(?) tão sem nexo, tão despropositado e tão cheio de erros, como este, para assinalar uma data que gostaríamos fosse marcante, para milhares de crianças e de jovens!! Mas que acarretou, para muitos, grandes e duras mudanças e pesados sacrifícios, em nome da redução de despesas!!!

A única palavra que me ocorreu, perante uma ministra que parecia tonta, a bater a pestana, numa excitação sem sentido e visivelmente descontrolada, foi, com muita misericórdia, (porque quero ir para o céu!!!), a palavra "RIDÍCULA! "MEMO"!!!

Um "MEMO" que, para culminar a desgraça, a ministra não se cansou de repetir...

MC

Ao contrário da Escola de sucesso

No início deste ano lectivo, muitas escolas já não abrem. E se, em algum casos, esta medida será compreensível, em muitos outros não é!
A Escola de sucesso preconizada e em vigência nos países nórdicos tão citados, pelos nossos governantes, como exemplo a seguir, é a escola de pequena dimensão, de proximidade e onde o ensino ministrado é sério, rigoroso, exigente, mas, naturalmente, diferenciado.

Em Portugal, ao contrário dessa Escola de sucesso, implementa-se o mega-agrupamento, a mega-escola, fria, distante e disciplinarmente permissiva, onde o ensino é, forçosamente, de massas e indiferenciado!
Esta é a escola que obriga os alunos, muitos deles crianças a iniciar o seu percurso escolar, a deslocarem-se, de camioneta, em percursos mais ou menos longos, saindo de casa de madrugada, ainda escuro, atordoados de sono e regressando já escuro, exaustos, cheios de frio, enjoados e vomitados.

A Educação é, cada vez mais, uma floresta de incertezas, revelando uma confrangedora incapacidade para preparar os alunos, de modo a que, mais tarde, possam servir o país, com inteligência, saber e responsabilidade.
Sabemos que quem decide e lesgisla pretende, acima de tudo, cortar nas despesas, talvez porque não creia no poder do estudo, do trabalho sério, do rigor e do pensamento! Esta escola exige tempo, a formação certa, dos agentes de ensino e custa dinheiro!
Quem decide e legisla parece crer, isso sim, na ignorância encapotada sob duvidosos diplomas, tirados à pressa, na habilidade manhosa, no facilitismo néscio que proporcione umas belas estastísticas para apresentar na UE, em termos de sucesso escolar, comprometendo, sem um tremor de conciência, uma cabal e tão necessária formação intelectual e cívica dos jovens, empenhando, assim, despudoradamente, o futuro da Nação!

MC

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Até quando...?

Num país onde grassa a confusão e o desperdício, onde a corrupção alastra, onde o favorecimento e o nepotismo são já naturalmente aceites e onde o crescente empobrecimento da população é indesmentível, o discurso do Primeiro Ministro ainda surpreende pela rósea fantasia e destoa, brutalmente, da negra realidade!

Num país onde a Justiça se debate num caos assustador, onde o desemprego não pára de aumentar, onde é visível o abrandamento do crescimento económico, onde a despesa pública aumenta vergonhosamente e as contas derrapam com estrondo, onde a escola pública se desfigura e se desmorona e onde a insegurança se instala, o Primeiro Ministro relativiza, despudoradamente, a profunda crise que nos consome e entusiasma-se, gesticula, tem esperança e tem certezas!

Segundo ele e sob a sua sábia égide, o país cresce, equilibra-se, enriquece e afirma-se, aquém e além fronteiras!

O país vai-se afundando no pântano da pobreza, da intriga e da arrogância, vai-se dissolvendo entre os tentáculos da incompetência e do improviso, mas o Primeiro Ministro parece viver num outro Portugal de faz-de-conta, farto, limpo, organizado e florescente, um verdadeiro paraíso de bem-estar e de desenvolvimento, bem ao alcance das nossas mãos e, pelo qual, deveríamos, talvez, agradecer-lhe penhoradamente, mas que não é, seguramente, este nosso pobre, cinzento e esgotado Portugal, onde vamos, penosamente, sobrevivendo!

Até quando...?

MC

domingo, 8 de agosto de 2010

Guerra Junqueiro e a Pátria!

Este texto foi escrito pelo escritor português Guerra Junqueiro há 113 anos criticando a situacão política de Portugal no final do século XIX.
A sua pungente actualidade leva-nos a concluir, com mágoa, que Portugal é um país ESTAGNADO no tempo.
Continuamos a ser um povo bovinamente resignado, estupidamente passivo e aflitivamente medroso! E, continuamos, unanimemente, a abdicar! De tudo!

Até quando???


"Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.

[.] Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.

Um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.

A justiça ao arbítrio da Política, torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.

Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."

Guerra Junqueiro, "Pátria", 1896

MC