quinta-feira, 7 de abril de 2011

Retalhos do diário de um Bernardo qualquer...

Chamo-me Bernardo, estou numa casa de correcção e vou usar este caderno de capa preta, que me deram ontem, para escrever o meu diário.

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Hoje, não sei o que hei-de escrever. Amanhã...

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Tento fazer de conta, mas tenho pena que a minha mãe venda o corpo na prostituição e venda a alma no tráfico da droga!
Contudo, não gosto dela! É seca, fria, ríspida e agressiva!

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Às vezes, tenho saudades da minha mãe que já se esqueceu de mim, há muito tempo, e do afecto e do companheirismo do pai que nunca conheci!
Nos meus momentos de delírio, penso como tudo seria diferente se eu tivesse tido outros pais e o que chamam, uma vida normal e tranquila! E, sobretudo, se tivesse sido amado... Nunca ninguém me amou e eu acho que nunca amei ninguém... Por isso, a bem dizer, nem sei o que é isso de amar...

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Gostava de conhecer umas miúdas giras, que não fossem fáceis e soubessem conversar, sem dizerem um palavrão em cada três palavras!
Gostava, mesmo, de ter uma namorada que me curtisse, como sou: feio, com espinhas na cara, desengonçado e pouco esperto! Bronco, pronto! Aqui, dizem que sou um bronco!

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Eu não queria, mas vivo roído de inveja! Tenho uma inveja tremenda dos gajos da minha idade que são bem-parecidos , andam bem vestidos e cheiram bem, têm um quarto só para eles, com computador e televisão e nunca se viram atirados para o gamanço, porque era preciso trazer dinheiro para casa!

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Dizem que cobiça é querer o que não se tem!
Inveja é querer que o outro não tenha o que não se tem e mostra o instinto do roubo!

Eu não sou filósofo, mas sinto que ando roído por tudo isso, pela cobiça e pela inveja! E, também por esta revolta, esta raiva imensa que me sufoca e me consome e que estas grades pesadas, que me prendem, não conseguem conter!
Porque não é aqui, nesta casa, que me vou tornar num homem digno, um homem de bem e honesto, como eles dizem, embora não acreditem! Porque não acreditam!

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Sei, isso sim, que já tenho uma vida, à minha medida, lá fora, à minha espera!
Uma vida, como a de nós todos que aqui estamos, que é um beco escuro, sem saída, onde não se vislumbra a Esperança, nem se vê Futuro! Porque, se calhar, nem queremos, sei lá!

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Vou ter de parar de escrever porque, para dizer a verdade, não vejo mesmo nada!
Estou cego pelas lágrimas grossas de pura raiva, que me encharcam o rosto e por esta inveja má, virulenta, medonha, cada vez mais forte, cada vez mais mortal, cada vez mais profundamente, enraizada em mim!

MC

10 comentários:

Pentacúspide disse...

Eu acho a inveja construtiva, dependendo do tipo de inveja é claro; porque esse tipo que autor do texto definiu é insana.

Eu invejo muito; invejo os meus amigos, invejo pessoas que admiro, e outros tipos, mas a minha inveja não é para que eles percam o que têm, ou deixem de o ter, mas é para eu conseguir essas características que eles possuem. Por exemplo, tenho um colega que fala 7 línguas, porque o invejo, já vou em 4,5. Pode-se dizer que isso não é inveja, mas eu não conheço outro termo.

A desalinhada disse...

Olá, Pentacúspide! Obrigada por me ler e pelos seus comentários. Concordo consigo quando diz que há a "inveja" construtiva que nos leva a melhorar e a querer ser igual ou melhor do que aquele/a que "invejamos". Eu também cometo esse "pecado"!
Neste texto, a inveja é talvez insana, como diz, porque quem a confessa é um garoto infeliz, descompensado e despojado de tudo, sobretudo de amor e de protecção.

Pentacúspide disse...

Este retalho foi cortado da manta de um autor qualquer ou é um trabalho teu?

A desalinhada disse...

É um trabalho meu! A manta foi tecida por mim.

Pentacúspide disse...

Neste caso: minha redobrada admiração. Gostaria de conhecer mais o Bernardo, se escreveres mais sobre ele, acompanharei com as minhas críticas, se publicares um livro sobre ele, vou comprar.

José Almeida da Silva disse...

Gostei muito deste diário inventado a revelar uma atenção extraordinária ao mundo dramático que rodeia o diarista, que veste a tragédia que enforma a alma de Bernardo (qualquer que ele seja).

Tantos Bernardos e Bernardas por aí, a viver em lugares desalmados como desalmados são os seus progenitores.

Estas páginas de um diário dão conta de um olhar bem penetrante e de uma alma chaia de sensibilidade. Uma mão cheia de páginas, atravessadas pela poesia do quotidiano consciente; um grito que tem de ser ouvido nos quatro cantos da vida.

Tal como Pentacúspide, também eu desejo que o diário seja retomado: está bem escrito e não podia ter mais actualidade, apesar do tema que o atravessa ser intemporal e universal.

Bendito seja quem tão bem escreve!

A desalinhada disse...

Obrigada, Pentacúspide, pelas tuas palavras de apreço, mas as mantas que vou tecendo são pequeninas e o Bernardo é um rapazinho modesto, algo desorientado, mas que se fica por uma espécie de pequeno conto. Outros diários, outros retalhos de registo diferente serão, por esta desalinhada, tecidos. Talvez!
Já procuraste aqui uns pedaços de uma paixão?
Abraço amigo!

A desalinhada disse...

Olá, Zé! Há tanto tempo que não sabia de Si! O seu comentário, como sempre, é um afago para a minha alma! Obrigada, Amigo! Um elogio vindo de Si, Zé, um Poeta de mão cheia, por cuja Poesia perpassa um delicioso imaginário, uma requintada sensibilidade e uma técnica apurada, é motivo de uma imensa alegria e... alguma inevitável vaidade! Vaidade, outro pecado mortal... Abraço e muita Amizade.

Pentacúspide disse...

A desalinhada, tu és tão viciada nas palavras que isso se sente até nos teus comentários; não que eu seja contra, mas gosto da maneira como colocas a poesia no coloquial.

A desalinhada disse...

E a Poeta, sou eu, Pentacúspide?