sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Os putos que morrem de fome são tão bem educados

Os putos que morrem de fome são tão bem educados..
Não falam com a boca cheia.
Não desperdiçam o pão.
Não brincam com o miolo fazendo bolinhas.
Nem fazem montinhos na borda do prato.
Eles não têm caprichos.
Eles não dizem: "não gosto disto".
Eles não fazem caretas quando se lhes põe o prato à frente.


Os putos que morrem de fome são tão bem educados...
Não bulham para terem bombons,
Nem dão aos cães a gordura do fiambre.
Não sobem para o nosso colo,
Nem vão a lado nenhum,
pois têm o coração tão pesado e o corpo tão fraco...
que vivem de joelhos...
Tranquilizai-vos! Os putos que morrem de fome não vão gritar.


Estas criancinhas são tão bem educadas...
Choram sem barulho, não as ouvimos.
São tão pequenas que as não vemos.
Não vão gritar, não têm forças...
Só os seus olhos podem falar...


Os putos que morrem de fome são tão bem educados...
Cruzam os braços sobre o peito e ventre inchado,
E posam para o fotógrafo europeu,
Que fará uma boa reportagem.
Morrerão lentamente... sem barulho... sem incomodar...
Estas criancinhas são verdadeiramente bem educados.
Pe. Guies Gilbert

 
O meu comentário:
 
Os putos bem educados, que morrem de fome, olham o vazio, mudos, aquietados, na tremenda indiferença de quem nada tem.
Olhar perdido, mãos esquálidas, escuras, geladas, cheias de nada, repousam, cruzadas, num desalento, sobre  barrigas redondas, grávidas de fome.
Os putos bem educados, que morrem de fome, não pedem nada, nem comida, nem roupa, nem sequer compaixão... Esperam, silenciosos, sem incomodar, esperam!

Enquanto os putos bem educados esperam e definham, num doloroso abandono, escrevem-se comoventes poemas, tiram-se fotografias perturbadoras, fazem-se exaltadas reportagens, ganham-se prémios e projecção e, até eu, aqui, estou a escrever este comentário oco, inútil, com palavras velhas e revelhas, sem nada dentro!
Entretanto, os putos bem educados, famintos, esgotados, doentes, choram, baixinho, lágrimas pequeninas que ninguém vê, e gritam, gritos mudos, pungentes, que ninguém ouve, e se dissolvem no ar.
Os putos bem educados, coração pesado e corpo fraco, esperam a morte que, negra, imóvel, paciente, como um abutre medonho, também os espera, gulosa, espera...
 
MC

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