sexta-feira, 17 de junho de 2011

" O ano da morte de Ricardo Reis" - José Saramago

Gosto da comparação do livro, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago, a um labirinto cerrado, tortuoso, mas fascinante, repleto de citações, referências históricas, aqui uma ode de Ricardo Reis, ali um poema de Fernando Pessoa, onde adorei perder-me para me reencontrar, literariamente mais rica, mas também pequenina e reverente perante a genialidade e a imaginação poderosa de um grande Escritor! Com a leitura deste livro, confesso que me "reconciliei", definitivamente, com José Saramago! E, fiquei a gostar, ainda mais, de Ricardo Reis.
Este é um texto magistralmente estruturado, profundamente denso, poético, irónico, labirintico, que tem de ser lido cuidadosamente, e tão ardilosamente assimilado, como foi ardilosamente entretecido, e que começa com um verso dos Lusíadas “ Aqui o mar começa e a terra principia” e termina com a frase "Aqui onde o mar se acabou e a terra espera."


“Mas será que é possível escapar deste complicado labirinto que é esta obra? Será possível encontrar a saída da labinrítica cidade de Lisboa (“descendo pela Rua do Norte chegou ao Camões, era como se estivesse dentro de um labirinto que o conduzisse sempre ao mesmo lugar”), encontrar sentido nas mulheres (“um enigma, um quebra-cabeças, um labirinto, uma charada”), no homem (“o homem, claro está, é o labirinto de si mesmo.”) e até do mundo (caracterizado pelo anúncio do Freire Gravador: “este anúncio é um labirinto, um novelo, uma teia.”)?”


A teia que constitui este livro começa a urdir-se, quando Ricardo Reis chega a Lisboa, vindo do Brasil, no barco Highland Brigade, uma alusão, talvez, à barca de Caronte, presumindo que ele já não está no mundo dos vivos, no ano em que Fernando Pessoa morreu e cujo túmulo ele faz questão de visitar.
Se pensarmos que Ricardo Reis nunca existiu, compreendemos a dificuldade do Autor na constução do romance, que pretende verosímil, integrando a sua acção na realidade histórica da época, um mundo a debater-se num tremendo conflito que prenuncia uma nova guerra, tempos de ditadura, de ditadores e de intensa convulsão!
É aqui, na urdidura da vida de Ricardo Reis, nesse ano da sua morte, que brilham, a grande altura, o génio de José Saramago e o seu gigantesco poder imaginativo.
Muito interessantes as conversas entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa morto, que o visita, enquanto, como diz, lhe é possível, enquanto não se distancia e parte para sempre.

É difícil desembaraçar essa teia intricada, mas deixo aqui aberto um caminho laboriosamente percorrido por Regina Helena Dvorzak, uma das trilhas mais sinuosas desse labirinto e que se refere a um dos aspectos mais complexos da obra: O TEMPO.

Ricardo Reis inicia sua jornada em Lisboa esquecendo-se de devolver o livro à biblioteca do navio, depois disso, suas lembranças são poucas, seu afastamento do mundo quase completo, tudo é um labirinto, seu tempo de vida encerrou-se com a morte de Fernando Pessoa. Seu percurso no romance é a aventura de um morto em busca de si mesmo, um mesmo que não existe mais.
Ao tomar consciência de que também não existe mais, Ricardo Reis vai embora com Fernando Pessoa, levando “The god of the labyrinth”, mesmo sabendo que não poderá ler para, como ele mesmo diz, deixar o mundo aliviado de um enigma. Que enigma? Quem sabe a vida, quem sabe a morte.

O tempo, que ficara suspenso no Hotel Bragança, retoma seu curso na consciência da morte:

“Meia hora passou assim, ouviram-se as pancadas de um relógio no andar de cima, É estranho, pensou Ricardo Reis, não me lembrava deste relógio, ou esqueci-me dele depois de o ter ouvido pela primeira vez.” (RR, p. 427)

Os tempos se agregam, seja o tempo de inverno, frio, que remete ao passado longínquo e às lembranças que praticamente inexistem; seja o tempo do relógio que lembra a personagem que já é hora de ir; seja o tempo interior desta mesma personagem, um tempo de espera ou de preparação para sua retirada final.

Tempos em que vivemos, tempos que são um só, aquele tempo que, parafraseando Borges, é a substância de que somos todos feitos.


“A multiplicidade da personagem Ricardo Reis é lembrada durante toda a narrativa, seus duplos participam de sua despedida final até à sua integração definitiva em Fernando Pessoa, o único que realmente é parte dele ou de quem ele é parte.
O narrador comenta o mal estar de Ricardo Reis ao sair do cemitério em visita ao túmulo de Fernando Pessoa. Talvez o choque de se deparar com seu próprio fim tenha resultado neste mal estar:
Enquanto ia subindo a rua, devagar, sentiu dissipar-se a náusea, apenas lhe ficava uma vaga dor de cabeça, talvez um vago na cabeça, como uma falta, um pedaço de cérebro a menos, a parte que me coube.” (RR, p. 37)”


Não quero, não posso dar por terminada esta deambulação por um livro de que gostei particularmente, e onde perpassa uma Lídia, prosaica criada no hotel, que o Poeta escolheu para se instalar, e mais tarde sua amante, sem transcrever esta ode magnífica de Ricardo Reis, o heterónimo mais clássico, de Fernando Pessoa:


Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio

Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Ricardo Reis é o Poeta da Razão e de quem Pessoa disse:

“ Pus em Ricardo Reis a minha disciplina vestida da música que lhe é própria.
Reis escreve melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado.”


Nota: Homenagem singela a José Saramago, que faz um um ano após a sua morte.

MC

1 comentário:

Roberto França disse...

Um belo texto.