quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O perú


Numa planície , viviam um Pavão e um Urubu. Certo dia, o Pavão reparando bem no Urubu, pensou: "Sou a ave mais bonita do mundo animal , tenho uma belíssima plumagem, macia, colorida e exuberante, porém, nem voar eu posso, de modo a mostrar, a todos, a minha beleza! Feliz é o Urubu que é livre para voar, para onde o vento o levar!
O Urubu, por sua vez, também reflectia, no alto de uma árvore: "Que infeliz ave sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos! Quem me dera ser belo e vistoso tal qual aquele Pavão!
Foi então que ambas as aves tiveram uma brilhante ideia e juntaram-se para discorrer sobre ela: cruzarem-se seria óptimo para ambos, gerando, assim, um descendente que tivesse a beleza e a graciosidade de um Pavão e voasse, livre, como um Urubu .
Cruzaram-se, cheios de esperança, e nasceu o Perú! Que é feio e não voa!

Moral da história: Se a situação não está boa, é melhor não tentar compor, porque pode ficar pior!

Os Bichos na Mitologia

MC

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Natal de quem?

Mulheres atarefadas
Tratam do bacalhau,
Do peru, das rabanadas.

-- Não esqueças o colorau,
O azeite e o bolo-rei!

- Está bem, eu sei!

- E as garrafas de vinho?

- Já vão a caminho!

- Oh mãe, estou pr'a ver
Que prendas vou ter.
Que prendas terei?

- Não sei, não sei...

Num qualquer lado,
Esquecido, abandonado,
O Deus-Menino
Murmura baixinho:

- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?


Senta-se a família
À volta da mesa.
Não há sinal da cruz,
Nem oração ou reza.
Tilintam copos e talheres.
Crianças, homens e mulheres
Em eufórico ambiente.
Lá fora tão frio,
Cá dentro tão quente!

Algures esquecido,
Ouve-se Jesus dorido:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?


Rasgam-se embrulhos,
Admiram-se as prendas,
Aumentam os barulhos
Com mais oferendas.
Amontoam-se sacos e papeis
Sem regras nem leis.
E Cristo Menino
A fazer beicinho:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?


O sono está a chegar.
Tantos restos por mesa e chão!
Cada um vai transportar
Bem-estar no coração.
A noite vai terminar
E o Menino, quase a chorar:
- Então e Eu,
Toda a gente Me esqueceu?

Foi a festa do Meu Natal
E, do princípio ao fim,
Quem se lembrou de Mim?
Não tive tecto nem afecto!

Em tudo, tudo, eu medito
E pergunto no fechar da luz:

- Foi este o Natal de Jesus?!!!


(João Coelho dos Santos
in Lágrima do Mar - 1996)

Natal

Nasce mais uma vez,
Menino Deus!
Não faltes, que me faltas
Neste inverno gelado.
Nasce nu e sagrado
No meu poema,
Se não tens um presépio
Mais agasalhado.
Nasce e fica comigo
Secretamente,
Até que eu, infiel, te denuncie
Aos Herodes do mundo.
Até que eu, incapaz
De me calar,
Devasse os versos e destrua a paz
Que agora sinto, só de te sonhar.

(Miguel Torga)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O Pavão e a ursa


Júpiter era um amante do sexo feminino e, por esse motivo, Juno, sua esposa e rainha dos deuses, representada por um pavão, possuía muitas rivais, entre elas, a bela Calisto, que Juno, enciumada, transformou numa ursa. Calisto passou, assim, a viver sozinha com medo dos caçadores e das outras feras da floresta, esquecendo-se de que ela própria era uma.
Um dia, Calisto reconheceu, num caçador, o seu filho Arcas. Esquecida que era uma ursa felpuda, ela quis dirigir-se a ele e abraçá-lo ternamente, como a mãe amorosa que era, mas Arcas, ao ver aquele enorme animal correr direito a si, assustou-se e já erguera sua lança para matá-lo, quando Júpiter, vendo a desgraça que estava para acontecer, afastou-os e lançou-os ao céu, transformando-os nas constelações de Ursa Maior e Ursa Menor.
Juno, enfurecida por Júpiter ter dado tal privilégio à sua rival, sai à procura de Tétis e Oceanus, as antigas divindades do mar. Conta-lhes que essas estrelas, pedaços flutuantes de luz e de brilho no céu, são a eternização de uma das mais dolorosas ofensas que Júpiter lhe fizera, e pede para que eles não deixem que essas constelações se escondam nas suas águas. É por isso que a Ursa Maior e a Ursa Menor se movem em círculo no céu mas nunca descem por trás do oceano, como as outras estrelas.

Os bichos na Mitologia


MC

sábado, 19 de dezembro de 2009

As andorinhas

Era uma casa térrea, pintada de branco, com um jardinzinho, bem cuidado, à frente e uma pequena horta, com três árvores de fruto, atrás.
À entrada, na parede branca, pousavam, em fila, da maior para a mais pequena, seis andorinhas toscas, de barro, como um símbolo ingénuo de alegre harmonia familiar, como um singelo prenúncio de uma Primavera eterna naquele lar.
A casa estava mobilada sem luxos, mas com um gosto simples, onde não faltavam os naperons de renda, tecidos com mil pacientes laçadas e sempre meticulosamente limpa.
Na cozinha, uma mulher baixa e roliça, preparava o jantar. Curvava-se, ligeiramente, para a banca e desprendia-se dela, a aura cinzenta de um infinito cansaço e de um triste desalento, a boca sumida num rictus de amargura.
À entrada, soaram uns passos pesados e, ligeiramente incertos.
Nesse instante, uma incontrolável aversão, mesclada de medo e de uma imensa incerteza, submergiu-a.
Pouco depois, entrou, de rompante, na cozinha, um homem de estatura mediana, gordo, com os olhos injectados, pequeninos e piscos, e o pescoço baixo, um rolo de gordura lustroso e vermelho, como o de um porco. O cabelo grisalho, ralo mas comprido, colava-se, em desordem, à testa.
Ela percebeu, de imediato, que ele já estava meio bêbedo. Como sempre!
“ O jantar está pronto?” rosnou, grosseiro.
“ Está quase!” respondeu ela, sem olhar para ele, o coração a bater, num desatino, muito quieta, junto do fogão.
Parecia ainda mais baixa, encolhida e curvada sobre o tacho que fervia. Estava exausta! Estava farta! Dele, daquela amargura, da vida!
“ Não sei o que fazes todo o dia, em casa, mulher! Nem agora que estás desempregada, as coisas estão prontas a horas! És uma preguiçosa, uma relaxada, é o que tu és!”
Ela suspirou e não respondeu.
Estava, realmente, desempregada, há três meses, mas continuava a trabalhar! Trabalhava, talvez, ainda mais duramente, a dias e a lavar as escadas de uns escritórios.
“ Faço o que posso e não te peço dinheiro, pois não? Não te peço nada, aliás!”
Ele ignorou-a e ela começou a servir o jantar.
Já sentado, ele comeu,sôfrego, a sopa e logo a seguir a massa guisada com frango, sem esperar por ela.
Ao vê-lo sorver a comida, como um animal esfaimado, uma onda de nojo e de desesperado ódio, inundou-a, sufocando-a.

Tinham dois filhos.
A filha, uma rapariga de dezanove anos, trabalhava, para seu desgosto, num bar, à noite. A mãe mal a via. Entrava em casa, já alta manhã. Dormia horas a fio e só se dignava sair do quarto, para comer e tomar banho. Falava continuamente, ao telemóvel e estendia, na mais absoluta desarrumação, as roupas e os sapatos, pelo quarto.
Curiosamente, o pai não a enfrentava! Desde sempre, tivera para com a filha, gestos, inesperados nele, de delicada doçura e de meiguice! Ela tinha sido sempre a sua menina, a quem perdoava tudo, a quem permitia tudo! Levava-a ao parque, ao circo, ao cinema e comprava-lhe guloseimas, brinquedos e revistas.
Já crescida, quando se tentara impor, ela enfrentara-o, provocadora, uma luz estranha, maligna, no olhar. E ele calara-se submisso e sumira-se, sorrateiro!
O filho, um bom rapaz, inteligente e sensato, era a luz dos seus olhos, o seu enlevo e o seu orgulho! E, como a sua ternura, o calor do seu sorriso lhe faziam falta! Tanta falta!
Trabalhava em Espanha e mandava-lhe, sem o pai saber, algum dinheiro, dádiva preciosa para equilibrar as despesas, em casa.
Como se lesse os seus pensamentos, ele disse, com incontida raiva: “ Aquele ingrato do Alberto não diz nada! Lá está em Espanha, a viver como um lorde. Quando cá veio, no Verão, parecia um principe, vaidoso e tolo!” E, a inveja que ressumava, ferina, das suas palavras, atingiu-a como uma bofetada.
“ Se ele está bem, é porque trabalha muito. E, telefona, todas as semanas, bem sabes!” disse ela com os olhos, rasos de lágrimas, uma fúria danada a crescer, impetuosa, dentro dela.
“ Telefona, todas as semanas? E dinheiro? Manda dinheiro para casa? Não é obrigação dele, mandar dinheiro para casa?”
“Obrigação dele, mandar dinheiro para casa? Porquê? Ele é um homem de bem e um bom filho! Tu, que és forte e saudável, porque não deixas de beber e trabalhas, a sério, como ele? Como eu, mesmo desempregada, como não te cansas de mo lembrar?”
Ele levantou-se, os olhos faiscantes de cólera, o rosto torcido de ódio, o pescoço arroxeado, as veias dilatadas, a latejarem, ameaçadoramente!
O diabo, ele lembra-me o diabo, do meu catecismo, quando eu era criança, pensou ela, num sobressalto aflito!
Um ronquido irado escapou-se-lhe, então, da garganta e ele fez menção de lhe atirar com o copo, que tinha mão, ao rosto, mas não se atreveu! O olhar dela, agora duro e frio, donde pareciam desprender-se chispas acesas de ódio e de desprezo, fixava-o desafiador!
Descontrolado, atirou o copo ao chão que se estilhaçou em mil pedaços de raiva! Depois, com um esgar de maldade, puxou uma ponta da toalha e a louça que estava em cima da mesa, partiu-se, em mil bocados.
Com a casquinada estrídula e alvar, de um vencido, saíu, cambaleante, da cozinha.
Poucos minutos mais tarde, a porta da frente bateu com tanta força que a casa abanou e pareceu desconjuntar-se. Ela estremeceu assustada mas, em seguida, respirou de alívio.
"Logo vem a cair de bêbedo! Como sempre!" E, exausta, encolheu os ombros!
A filha passou por ela, numa pressa indiferente, como se não se tivesse apercebido de nada. “ Até amanhã, mãe!” E dirigiu-se para a porta da rua.
Vestia uns jeans muito justos, um top muito decotado, que também lhe deixava parte da barriga de fora, um casaco de curto a imitar pele, o rosto, ainda muito jovem, carregado de maquilhagem. Atrás de si deixou o rasto forte de um perfume barato. Era tudo barato e vulgar nela! Ela própria, a sua filha, era uma prostituta barata e vulgar!
Abanou a cabeça e prendeu as lágrimas que se amontoavam no seu coração, que insistiam, teimosas, em subir e ameaçavam estrangulá-la, num nó apertado!
No súbito silêncio da casa, ela respirou fundo e começou a varrer os estilhaços dos copos e os cacos da louça, como destroços das vidas, que as telhas da sua casa encobriam, e que, agora, juncavam o chão da cozinha.

Lá fora, pousadas, em fila, na parede branca, da maior para a mais pequena, como um símbolo ingénuo de alegre harmonia familiar, como um singelo prenúncio, de uma Primavera eterna naquele lar, as inocentes andorinhas de barro continuavam, imperturbáveis, o seu infinito e infantigável voo, sem saírem do mesmo sítio!

MC

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Pavão e a bezerra











Juno, também conhecida como Hera na mitologia grega, a esposa de Júpiter é a rainha dos deuses. É representada pelo pavão, a sua ave favorita.

Júpiter era um amante do sexo feminino e, por esse motivo, Juno possuía muitas rivais, entre elas, a bela Io, que Júpiter, para defender de Juno, transforma numa bezerra. Juno, desconfiada, pede a bezerra de presente. Ora, Júpiter não podia negar um presente tão insignificante a sua mulher, e então, pesaroso, entrega a bezerra a Juno que a coloca sob os cuidados de Argos, um monstro de muitos olhos. Como Argos tinha cem olhos e nunca fechava mais do que dois para dormir, vigiava Io dia e noite.
Júpiter, perturbado pelo sofrimento da amante, pede a Mercúrio que mate Argos. Com músicas e histórias, Mercúrio consegue fazer com que Argos feche seus cem olhos e corta-lhe a cabeça. Juno entristecida recolhe os olhos que haviam perdido toda a luz e coloca-os na cauda de seu pavão, onde permanecem até hoje.

Os bichos na Mitologia



MC

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Confissões de uma cobaia humana

Ainda não nasci, nem sei quando vou nascer. Ainda não vejo, não conheço mas, já ouço tudo!
Sei, por isso, que, juntamente com a minha mãe, sou uma cobaia humana. Co-bai-a, gosto deste som!
A minha mãe tem o vírus da Sida! Ouvi-a contar que foi infectada pelo meu pai, um drogado manhoso. Eu não sei o que é um pai, nem sabia que tinha um, mas parece que pai é coisa ruim que traz desgraça! Também não sei o que é drogado manhoso mas, coisa boa, não pode ser!
Estamos as duas a experimentar um medicamento novo, que trata e pode impedir a transmissão da Sida, a doença da minha mãe, para mim e eu serei saudável.
Para que isso aconteça, somos cobaias humanas! Não sei o que é uma cobaia mas, deve ser bom, pelo menos, acho que sempre será melhor do que pai!
Sinto-me muito confortável, neste ambiente quentinho e aquoso da barriga da minha mãe embora, uma vez por outra, me tenha sentido mal, muito inquieta e aflita!
Sei tudo isto, porque ouvi a minha mãe dizer ao senhor doutor, (não sei o que é um senhor, nem sei o que é doutor), que me sente inquieta e aflita.
Ele disse-lhe que é normal e que estou a crescer cheia de energia.
Se calhar, energia são umas espetadelas fininhas que fazem doer, e os meus pontapés, quando me apetece mudar de posição!
A minha mãe diz que sou uma menina e que me vai comprar roupinhas bonitas, com lacinhos e um bercinho branco e cor-de-rosa, com o dinheiro que lhe deram para deixar experimentar o medicamento novo, nela e em mim.
Parece que era pobre mas, agora está tranquila e feliz! Acho que pobre é uma outra doença que ela também tinha mas o dinheiro, que, parece, é um medicamento muito bom, curou-a!
Ouço-a dizer que não me vai faltar nada, vou ter muitos peluches fofinhos, um quarto branco e cheio de luz!

Não sei o que é ser menina, não sei o que são lacinhos, não sei o que é o branco, nem sei o que são peluches. O que será a luz? E, fofinho, o que será?
Pela vibração da voz e do riso da minha mãe, deve ser tudo, assim muito quentinho, muito suave, como a barriga dela e, por tudo isso, estou ansiosa por nascer!
Mas, de há umas semanas para cá, ela não se tem sentido bem e eu também não. Ouvi-a dizer que está assustada e tem medo, por mim e por ela! Por sermos cobaias humanas! Mas, eu acho que deve ser bom ser cobaia, afinal, foi ela que quis!
Eu ouvi o doutor, (doutor faz-me lembrar pai!), dizer-lhe que ela sabia, perfeitamente, o que fazia quando assinou o contrato! Não gosto deste som: con-tra-to! Magoa, quando o ouço! Não é macio, como bercinho, cor-de–rosa ou roupinhas!
Senti que ela estava nervosa e ele disse-lhe para ter paciência, que esse mal-estar, (também não sei o que é um mal-estar!), não tem importância, vai tudo correr bem, ela vai ficar melhor e eu vou ser uma menina saudável! Saudável, eu acho que deve ser como o ninho macio, onde que me estendo e me enrolo!
Às vezes, a minha mãe diz-me, muito baixinho, que espera que eu tenha cabelo loiro e olhos azuis, como ela.
E, eu, embora não tenha a mínima ideia do que sejam cabelo, olhos, loiro e azuis, estou ansiosa por ter o cabelo loiro e os olhos azuis , para ser igualzinha a ela!
A minha mãe costuma cantar para mim e eu ficava muito quieta, só para a ouvir! Ultimamente, tenho andado muito agitada e, mesmo quando ela canta, já não me aquieto, dou pontapés e revolvo-me, revolvo-me, no ninho morno e sedoso, onde me aconchego! A voz da minha mãe já não suaviza estes picos fininhos, que me espetam tanto...
Sei que não estou bem, porque foi, exactamente isso, que a ouvi dizer ao doutor, quando também lhe disse que está farta de sermos cobaias humanas, que nunca devia ter assinado o contrato, (este som magoa!) e preferia nunca não ter recebido dinheiro nenhum!
Acho que, agora, preferia, mesmo, ter ainda aquela doença que se chama pobre, porque afinal isto de ser cobaia é que me tem feito mal! A mim e a ela!
Hoje, ouvi a minha mãe falar muito alto com o doutor, (não gosto dele!), que falou ainda mais alto e disse-lhe: “Cale-se!” A minha mãe não disse mais nada, mas chorou, que eu ainda a ouvi, embora um bocadinho ao longe, o que é estranho, porque estamos sempre muito juntinhas...!
De repente, apercebo-me que nem sequer me revolvo, ou dou pontapés! Já mal consigo respirar ou mexer-me Estou muito cansada!
Já pensei que talvez esteja assim porque estou, mesmo, para nascer e poderei, então, rebolar-me nos lacinhos cor-de–rosa, no bercinho, nos peluches e na luz! Gosto deste som: luz!
Se for isso, fico muito contente porque vou, enfim, ver o rosto da minha mãe e tocar e sentir o cheiro da pele dela. Ouvi-la, já não é muito importante porque já lhe conheço a voz e o riso e o choro.
Mas não! Não devo estar, ainda, a nascer! E, estou tão ansiosa por nascer...
Mesmo agora estou a ouvi-la gritar:” Doutor, que me deu para tomar? Porque me convenceu a ser cobaia e, comigo, a minha filha, desse medicamento novo, se não o conhecia, se não tinha a certeza de nada? Não sinto o meu bebé! A minha menina morreu! Posso não lhe ter transmitido a Sida, mas matei-a!”
Não sei o que é matar, nem quero saber! Estou muito cansada!
Continuo sem saber, realmente, o que é ser cobaia mas, seja o que for, agora sei, que não é bom! Estou muito cansada e tenho muito frio, tanto frio, apesar da barriga da minha mãe ser muito quentinha!
Para falar verdade, também não sei o que é morrer! Ou, talvez saiba!
Porque, se morrer, é não respirar, se morrer, é deixar de ouvir, se morrer é este indiferente e gelado abandono, então...morri!

Nota:Este texto, que pretende ser uma sentida homenagem a tantas vítimas inocentes de um doloroso flagelo, não foi lido, na sessão de 9/12 e ainda bem, porque o seu registo, que é o meu registo, é completamente diferente dos óptimos textos, que ouvi ler.

MC