quarta-feira, 25 de março de 2009

Uma sopa, um par de sapatos e... uns olhos azuis!

Eu tinha casado há pouco tempo e a vida tornara-se muito opressiva, fatigante e maçadora para a menina culta mas, mimada, e displicente que sempre fora.
Como os alemães dizem, “ Aller Anfang ist schwer”! E, de facto, tive dificuldade em me adaptar a um estilo de vida, a uma rotina sem graça, que me era completamente desconhecida: cuidar de uma casa, estudar e dar aulas.
Eu gostava de ter tempo para mim, adorava ler, ouvir música, ir ao restaurante, ao cinema, sair e conversar com as amigas! Agora tudo se modificara!
Vivíamos em Lisboa e eu tentava ser forte e cumprir as minhas novas tarefas mas, sentia-me só, desiludida, insatisfeita! Estava, pois, a atravessar uma fase muito difícil, muito desmotivante e cansativa!

Uma tia tinha-me oferecido, pouco antes de me casar, uma pequena mas lindíssima imagem do Menino Jesus, com os pés descalços, sobre o Mundo.
Era Inverno e faziam-me muita impressão aqueles pézinhos nus, pousados sobre um Mundo gelado, que me parecia tão cinzento, tão complicado e tão diferente do mundo morno e róseo dos meus sonhos!
A realidade pesava-me como uma armadura de ferro que me sofucava e os meus sonhos pareciam-me cada vez mais etéreos e longínquos!

Não sou, propriamente, uma católica praticante regular. Não sei meditar, não sei rezar, porque dificilmente me concentro e não tenho paciência para desfiar orações, com o pensamento a correr doido, à desfilada, por outros caminhos!
Mas, de acordo com as raízes da minha educação judaico-cristã, como a minha filha diz, gostava de “conversar” com a pequena imagem e pedia-Lhe que me ajudasse a ultrapassar o cansaço, o desconsolo e a profunda insatisfação daquela rotina desbotada e esgotante em que a minha vida se estava, paulatinamente, a transformar!
E, porque aqueles pés descalços me afligiam, prometi-Lhe que daria um par de sapatos, a um pobre, como se fosse a Ele mas, só quando eu pudesse, claro! Nesse tempo, as finanças eram muito frágeis!

Num desses meus dias mais cinzentos, vivia, então, num apartamento, no Dafundo, na marginal de Lisboa, tocaram à campainha.
Fui abrir e, no patamar meio-obscurecido, vi diante de mim, um homem alto, magro, o cabelo curto, loiro, encaracolado, quase frisado, com cerca de quarenta e cinco anos, ( pareceu-me, então, um senhor velhote), vestido modestamente, mas limpo.
“ Boa tarde!”
“Boa tarde, menina, pode ajudar-me?”
Quando me voltava para ir buscar uma moeda, ele disse: “Não, dinheiro, não! Uma sopa, por favor!”
Fiquei surpreendida mas, senti-me muito bem comigo mesma, porque tinha precisamente acabado de fazer a sopa para o jantar e, sem pensar, convidei-o a entrar para a cozinha, com o sorriso, a alegria e a confiança, com que se convida um amigo ou, um “velho” conhecido da nossa confiança!
Quando se sentou e o encarei, vi os olhos azuis mais espantosos que, algum dia, se fixaram nos meus!
Eram uns olhos de um azul belíssimo, puro, profundo que não posso comparar a safiras porque estas sairiam a perder e não sei, nunca soube, eu que tanto gosto de brincar com os adjectivos, definir a expressão daquele olhar de céu e de mar!

Não lhe fiz perguntas mas, ele contou-me que tinha saído, nesse dia, do hospital, onde tinha sido operado ao estômago. Não me recordo de me ter dito onde tinha estado internado mas, lembro-me, perfeitamente, da minha consternação porque só tinha, em casa, uma sopa de grão-de-bico para lhe dar!
“ Desculpe, não posso dar-lhe a minha sopa. É de grão-de-bico e é muito pesada! O senhor foi operado ao estômago e pode fazer-lhe mal.”
Nunca, desde que estudei Cesário Verde, digo, ouço leio, vejo ou, como grão-de-bico, que não me lembre do belíssimo poema “A tarde”, a gloriosa tela impressionista, magistralmente pintada com a cor e a beleza das palavras e onde o poeta diz, a certa altura, daquele pic-nic de burguesas “... foste colher, sem imposturas tolas, a um granzoal azul de grão-de-bico um ramalhete rubro de papoulas.”
Mas, ele disse-me com um sorriso sereno e bonito que inundou de luz a cozinha modesta e gasta: “ Posso comer, sim! No hospital davam-me tudo!”
Tirei-lhe a sopa, dei-lhe água, não me lembro se lhe dei pão e retirei-me, para a sala ao lado.
Deixei-o comer sossegado, por delicadeza, para que não se sentisse vigiado e porque, francamente, era difícil despregar os olhos daquele mar de veludo azul!
Quando calculei que tivesse terminado, regressei à cozinha e ofereci-lhe mais sopa. Não quis mais nada mas, delicadamente, disse-me que estava muito boa e que sentia o estômago mais aconchegado.

Meio-encabulada, perguntei-lhe em que o podia ajudar. Ficou calado uns instantes e, quando eu pensava que ele se ía levantar, para ir embora, disse-me baixinho, sem olhar para mim: “Se tivesse uns sapatos que me pudesse dar, agradecia-lhe muito! Os meus estão muito gastos e magoam-me.”
Com espanto, olhei para aqueles olhos de um azul puro, lindíssimo, como nunca vi outros iguais e que, então, fixavam os meus, à espera da minha resposta.
Num impulso, lembrei-me de uns sapatos do meu marido, a um canto da despensa, à espera de serem engraxados.
“ Tenho ali um par mas, não sei se lhe servem!”
Na verdade, os pés dele eram magros mas, aparentemente, bastante mais compridos do que os do meu marido.
“ Não se preocupe, se mos puder dar, servem-me com certeza!”
Dei-lhe os sapatos e ele calçou-os. Mirou os pés com aquele seu sorriso cheio de luz, sereno e bonito e disse: “ Estão muito bem! Muito obrigado! Deus a abençoe!”
Acompanhei-o à porta. Sorriu e eu fiquei, ali, pasmada, por uma fracção de segundos, presa ao azul puro e profundo, daqueles olhos, pousados em mim.
Antes de fechar a porta, desejei-lhe, timidamente, as melhoras. Voltou-se, sorriu, agradeceu e vi aqueles olhos azuis, pela última vez!
Ao escrever este texto, ocorreu-me que nunca soube o seu nome! Não lho perguntei, nem ele mo disse!

Depois de fechar a porta, caí em mim!
Não me preocupei com a minha imprudência, com o perigo em que, impensadamente, me poderia ter posto, ao meter em casa um completo desconhecido, como se fosse um “velho” amigo que merecesse toda a minha confiança!
Não, por estranho que pareça, lembrei-me, primeiro, com um sobressalto de alegria que já tinha cumprido a promessa e, a seguir, preocupei-me, aflita, com os sapatos!
E, se o meu marido me perguntasse pelos sapatos, ele que é e sempre foi, tão cuidadoso e meticuloso, com as suas coisas?
Nesse dia, quando “conversei” com a pequena imagem do Menino ainda descalço, pedi-Lhe que aquela estranha visita ficasse só entre nós! Eu tinha sido muito imprudente e impulsiva!

Pouco tempo depois, mudámos de casa. Aliás, toda a nossa vida mudou! Não mudou, assim de repente, como um milagre divino mas, foi sempre mudando para melhor, para muito melhor, em todos os aspectos!
Se tenho tido fases mais complicadas e dias maus, como toda a gente, a verdade é que, muitas têm sido as bençãos que têm fluído sobre mim, especialmente, as bençãos personificadas nas minhas filhas, duas jóias preciosas que têm enchido de luz, de amor, de alegria e de plenitude, a minha vida!
E mesmo, nos meus dias mais cinzentos e nas fases mais penosas, surge sempre, vindo não sei de onde, um raio de sol que ilumina e cobre de oiro e de paz, todos os recantos da minha alma, confortando-me e amparando-me, como se uma mão amiga, amorosa, permanecesse, docemente, pousada no meu ombro!

Curiosamente, o meu marido nunca se lembrou dos sapatos, a um canto da despensa, à espera de serem engraxados e eu nunca lhe falei neste episódio! Ficou comigo, guardado no meu coração, até ao dia em que o contei às minhas filhas! E, hoje, tantos anos depois, que o registo aqui!

Não sei o que se passou, nesse dia, na modesta e gasta cozinha do meu apartamento!
Não vivi, certamente, um momento de esplendorosa transcendência e recebi apenas, a prosaica visita, ainda que, indiscutivelmente, um pouco singular, de um homem meio-doente, que nunca esqueci e a quem dei uma sopa de grão-de-bico e um par de sapatos.
Mas, sei que, mesmo hoje, tantos anos depois, eu reconheceria aquele rosto magro, aquele sorriso luminoso, sereno e bonito, aquele cabelo loiro, encaracolado, quase frisado e aqueles olhos de um azul belíssimo, puro e profundo, entre outros mil rostos, no mundo!
Talvez, quem sabe, um dia, num outro plano, numa outra
dimensão, a luz daquele olhar azul que não sei, nunca soube definir, atravesse a minha alma, como tem atravessado a minha vida!

MC
( A Caridade - Virtude)

1 comentário:

Joana disse...

Lembro bem de me contares esta história e questiono-me, agora, se inspirei nela a minha obsessão por sapatos!!!
Continuo a insistir na publicação de uma compilação destes textos...