quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A despedida

Quando ela entrou no restaurante, já ele a esperava. Era um homem alto, interessante, que esbanjava o charme discreto das pessoas bem nascidas . Elegante, como sempre, pensou ela, com amargura.
Tinham tido uma relação feliz, estável e longa. Ela, pelo menos, sempre pensara que tinham sido felizes. Que eram felizes! Amara-o muito! Amava-o ainda. Tanto!
Fazem um lindo par, diziam os amigos. Completam-se tão bem, diziam os familiares.
Às vezes, do que temos mais saudade, pensou, são das pequenas coisas, dos pequenos gestos, do banho apressado, de manhã, dos beijos roubados, debaixo do chuveiro, de um passeio molhado por uma chuva inesperada, de um filme especialmente bom, das conversas ligeiras ao jantar, do vinho tinto apreciado, lentamente, junto à lareira, do beijo à saída de casa, do beijo do reencontro, à noite, da partilha das novidades, das historietas do dia. Mas, era sobretudo o sorriso dele, aquele sorriso bonito, que vinha de dentro e lhe iluminava o rosto, lhe aquecia a alma e lhe dava sentido à vida, que lhe fazia mais falta!
Ele viu-a à porta e dirigiu-se a ela. Sorriu ligeiramente e cumprimentou-a com dois beijos distraídos, de circunstância.
Ela estremeceu de ansiedade, possuída de uma súbita incerteza, quando o sorriso dele, outrora caloroso e terno, a trespassou, gelado, como uma lâmina fria e afiada.
Acompanhou-a à mesa, trocaram trivialidades e escolheram o almoço.
Ela tinha-se esmerado e, sabia-o bem, estava muito bonita e elegante. Mas, também nervosa e angustiada.
“ Quando é o casamento?”
“ Dentro de quinze dias, mas isso, aqui, não interessa nada! Ainda não me disseste foi, porque razão, precisáste, palavra tua, deste almoço comigo.”
“ Para me despedir de ti e para te entregar esta caneta que esqueceste lá em casa. Fui eu que ta ofereci, lembras-te? É tua!
“ Ah! A caneta! Obrigado! Pensei que a tinha perdido.
“ Não, não a perdeste, embora se tenha perdido tanto, entre nós, ultimamente! Quase não acredito ainda, que tudo acabou, que tudo morreu e vai, dentro de quinze dias, ser esquecido e enterrado, definitivamente, no teu fraque de noivo!
“ Não digas isso! Nada acaba! Apenas, às vezes, como aconteceu connosco, se modifica! Continuo a ter um grande carinho por ti e os anos que vivemos juntos marcaram, profundamente, a minha vida!Esse é o meu passado, o nosso passado, e um pedaço de mim ficou, para sempre, preso a ele!"
Ela não respondeu, a garra na garganta cada vez mais apertada e o coração a debater-se no peito, numa pulsação aflita, de animal enjaulado.
Apeteceu-lhe bater-lhe, insultá-lo e...chorar! Mas, ficou quieta, calada!
Mantiveram-se em silêncio, durante grande parte do almoço, como se todas as palavras, entre eles, já tivessem sido ditas!
Ele, depois da sua tirada dramática, parecia enfastiado e distraído.
E ela, à sobremesa, com o coração quase a estourar de agonia, a garra na garganta, quase a soltar-se, manhosa, para se desafogar nas lágrimas que lhe começavam a alagar os olhos, disse, num rompante:
“ É muito bonito e comovente o que disseste há pouco! Mas, a verdade, é que nunca quiseste casar comigo e vais casar com essa rapariguinha loira, bem mais nova do que eu, é claro, e que, com o ar inocente e cândido de um anjo, te assegura, entre beijinhos castos, que nunca amou, nunca se entregou a nenhum homem, senão a ti! E tu, embasbacado e vaidoso, finges que acreditas...”
“ Cala-te! Não estragues o almoço, não amargures, ainda mais, esta despedida que quiseste, que me pediste!”
De cabeça perdida, sem o ouvir, doida de raiva e consumida na labareda incandescente , incontrolável do ciúme, continuou:
“ Essa rapariga que te enfeitiçou, já deve ter tido mais de uma dúzia de namorados, dormiu com todos eles mas, só porque ela te disse, num sussuro angélico: “ Só tu, antes e agora, meu amor!”, acreditas que é pura, como um recém-nascido, não é?
“ Vou-me embora! É melhor para ambos! Esquece-me! Deixa-me ir e segue com a tua vida!”
“ Tens assim tanta pressa de ir para os braços magricelas e desajeitados dela? E eu? Queres que, depois de todos os anos, todos os dias, todas as horas de amor que vivemos juntos, e que vejo agora lançados fora, como farrapos velhos, esteja serena, bem disposta e te deseje felicidades?”
Já sem a ouvir, cansado, meio-assustado com aquela veemência desesperada e com o coração pesado e submerso numa súbita tristeza, ele pagou a conta, junto à caixa, e saiu.

Ela continuou sentada à mesa, o coração aos tombos, o olhar vazio e as mãos a tremerem. Quando o empregado levantou os pratos, viu a caneta que lhe oferecera no dia 14 de Fevereiro, dois anos antes, e que ele usava sempre! Era uma Cartier, com as iniciais AC gravadas a ouro. As iniciais dela e dele: Ana Cristina / António César. Esse tinha sido, lembrava-se bem, um dia luminoso, prenhe de promessas e de amor!
Ele não levara de casa, nada que o fizesse lembrar-se dela! Nem a caneta!
Ficou muito tempo com aquela pequena jóia, comprada com tanto carinho, na mão.
Sentia-se pesada, carregada de recordações, de mágoa e de saudade. Era um carrego quase insuportável que estava condenada a arrastar consigo!
Aquele, fora apenas mais um almoço. Lamentável e escusado!
Compreendeu, no mais íntimo de si, que nunca seria capaz de, realmente, se despedir dele, nunca seria capaz de o “deixar ir”, como ele pedira! Iria guardá-lo, teimosamente, ciosamente, pateticamente, com ela, para sempre!
Esse pensamento doeu-lhe e...enfureceu-a!
Levantou-se para ir embora. Quando ía a sair, o empregado que os servira, veio a correr ter com ela, com a caneta na mão: “Esqueceu-se disto, minha senhora!” Ela olhou para ele e, sem um sorriso, perguntou-lhe: “ Como se chama?”
Aturdido, ele respondeu: “ João Miguel”
“ Fique com a caneta! Mande apagar essas iniciais e gravar as suas!
Boa tarde!”

MC

2 comentários:

redonda disse...

Que história mais triste. Queria que continuasse, que a Ana Cristina desse a volta por cima, arranjasse alguém muito melhor e que o António César quisesse depois voltar para ela em vão.

Maria Celeste Carvalho disse...

Obrigada, redonda, por "me leres". Já tinha saudades tuas! Com certeza a Ana Cristina vai dar a volta por cima! Dá-se sempre a volta, geralmente, por cima! Com o tempo! Pelo menos, começou bem: libertou-se da caneta, tão impregnada de recordações! Quanto a ele, ficou mais ou menos implícito que a rapariga que escolheu não tem a estrutura, a força e a garra da Ana! Foi ele quem ficou a perder!