domingo, 18 de outubro de 2009

Terror azul

Amélia era uma senhora alta, magra, já entrada em anos, mas ainda bonita.
Vivia naquela rua desde que casara, há mais de três décadas, e era uma referência de afecto e simpatia para os vizinhos, porque sempre tinham tido a sorte de poderem contar com ela, para ficar com os filhos, quando tinham de sair à noite, nas férias escolares ou, quando chegavam tarde do trabalho. Amélia não tinha tido filhos mas ajudara a criar muitas crianças.
Enquanto o marido foi vivo, elas vinham para casa dela. Ali, lanchavam, brincavam, faziam os trabalhos e casa e, muitas vezes, almoçavam ou jantavam. Em casa, havia sempre uma alegre agitação que lhe preenchia os dias.
Agora, que estava sozinha, não se importava de ir ela, sobretudo à noite, a casa dos vizinhos, ficar com as crianças que adoravam os seus biscoitos gostosos e estaladiços e as histórias que lhes contava ou lia, antes de adormecerem.
Havia, no entanto uma casa onde jurara a si própria nunca mais voltar. O André, um rapazinho de oito anos, loiro, com olhos azuis e rosto angélico era, mais do que muito travesso, um menino inquieto e inquietante, imprevisível, com reacções estranhas, que lhe causava uma inexplicável repulsa e lhe provocava arrepios e aquele incómodo friozinho na base do estômago!
Havia qualquer coisa de maligno no brilho metálico e gelado do olhar azul, daquele menino com aspecto de anjo!
Na última noite que lá estivera, faltara, subitamente, a luz e, na profunda escuridão que pareceu submergir tudo na sala, bateram portas, soaram gemidos angustiados e gritos roucos, medonhos, à mistura com gargalhadas pesadas, horrendas a ressumarem maldade! Umas mãos, certamente umas mãos, grandes e carnudas, enrolaram-se-lhe, no pescoço, como uma serpente assassina! Sentiu-se quase morrer de susto e de aflição!
Quando aquele horror parou e a luz inundou, de novo, todos os recantos da sala, o André dormia, serenamente, , a seu lado, no sofá e, quando ela, numa incontrolável perturbação, tentou comentar, com ele, um pouco do torvelinho de horripilante violência que vivera, ele olhou-a, com espanto e com uma indisfarçável desconfiança, como se ela fosse louca!
Nunca tivera coragem de falar com alguém sobre aquela estranha noite! Muito menos com os pais do André. Teve medo que a julgassem doida ou, que pensassem que estava a ter uma perigosa recaída, no abismo negro da tristeza depressiva que a amarfanhara, depois da morte súbita do marido!
Tanto mais, que os sulcos fundos e vermelhos, deixados por aquelas mãos, eram certamente mãos, fortemente, enroscadas no seu pescoço, tinham desaparecido, como por magia!
Amélia estava nervosa.
A mãe do André telefonara a pedir-lhe que ficasse com o filho, na noite seguinte. Ela recusara de imediato mas, a senhora insistiu no seu pedido, porque confiava inteiramente nela, não tinha mais a quem recorrer e tinha de acompanhar o marido áquele jantar que, na verdade, a aborrecia mas que era muito importante para a carreira dele.
Por fim, acedera mas sentia-se inquieta, quase zangada consigo própria pela sua fraqueza e, sem saber porquê, levou a Bíblia consigo!
Nessa noite, porém, o André parecia cansado e sem disposição para travessuras.No ambiente sereno e acolhedor, da casa, Amélia começou a sentir-se melhor, mais calma e descontraída!
Deu, aliás, consigo a admirar a beleza suave e pura daquele rosto de menino que falava sobre a escola, os amigos e as brincadeiras no recreio, e sorria, inocente, para ela!
No quarto, leu-lhe uma história particularmente bonita de que ela sempre gostara muito: “O Principe Feliz”. Depois aconchegou-lhe a roupa e, quando ía a sair do quarto, o André pediu-lhe que se sentasse um bocadinho no sofá azul, perto da cama. Surpreendida, foi à sala buscar a Bíblia e sentou-se. Abriu-a, à sorte, e começou a ler o “ Sermão de Montanha”, Evangelho, segundo S. Mateus: "Olhai os lírios do campo; eles não trabalham nem fiam...”
Lindo e muito poético este sermão! E os lírios, tão bonitos, tão aveludados, tão esguios!
Tinha de plantar lírios, lírios brancos, roxos e amarelos, no jardim e reler o belíssimo livro de Erico Veríssimo, decidiu, com um ligeiro sorriso.
De repente, o André, com uma vozinha ensonada, pediu-lhe que lhe desse um beijo de boa noite. Um pouco aturdida, levantou-se, pousou o livro aberto no sofá e surpreendeu-se, de novo, com a serenidade, a beleza delicada daquele rosto de criança e com a doçura dos olhos azuis do André.
“Que engraçado, nunca tinha reparado como esta criança é linda e como são ternos e irresistíveis os seus olhos de um azul tão límpido mas tão profundo!” pensou, com espanto.
Debruçou-se e quando se preparava para lhe beijar a face macia, o André abraçou-a. Com força! Com uma força brutal que ele não podia ter e que quase a sufocou!
Depois o abraço enfraqueceu ligeiramente e ela viu, com horror, aquele belo rosto de criança, escurecer e desfigurar-se, num esgar maligno, assustador.
No quarto, avançava, aos roldões, uma escuridão densa que parecia engulir tudo. As coisas íam perdendo a forma, fundindo-se num todo viscoso, informe, afogado num mar de repugnante negrume! Como se a essência das coisas, dissolvendo-se, se tornasse parte de um caos infinito!
Aterrada, apenas viu dois pontos de luz: uns olhos que já não eram olhos, mas eram duas chamas vivas, brilhantes e vermelhas e os braços que, agora, a estrangulavam, eram fortes, negros, gelados e coleantes como cobras poderosas.
Simultaneamente, explodiam , no ar, gargalhadas roucas, enlouquecidas,demoníacas e,
no ar, espalhava-se o cheiro acre a queimado, da Bíblia, agora reduzida a um pequeno monte de cinzas, em cima do sofá azul.

MC

2 comentários:

redonda disse...

Assustador!
Será que não há nada que a possa salvar ainda?

Maria Celeste Carvalho disse...

Obrigada, redonda, pelo teu comentário. Como o nosso querido Mestre diz, quem escreve deve deixar, quem o lê, participar e dar a volta, que quiser, ao texto.Se ela ainda se pode salvar? Isso, querida redonda, é contigo!Um desafio: escreve um final do "conto", com a salvação dela.
E, tu escreves tão bem!