segunda-feira, 22 de junho de 2009

O vestido novo

A menina irradiava alegria, como um pardal saltitante, em dia de primavera.
Tinha um vestido novo, amarelo, como um raio de sol e ía passear com o pai. Era bonito e elegante, o pai!
As amigas do irmão diziam que parecia um actor de cinema. Para ela, ele era, simplesmente o pai, o seu herói, o seu aconchego, a sua segurança!

Quando passaram pela casa do Luisinho, viu o pai dele no jardim. Era feio, vermelhusco e pançudo. Nesse momento, ria e a falava alto com a D. Berta que empurrava, docemente, o filho, no baloiço.
A menina teve muita pena do Luisinho que não tinha um pai que parecia um actor de cinema, bem parecido e charmoso. Devia ser triste, ter um pai feio, que não tinha um sorriso bonito e que não o levava a passear, como o dela!

“ Queres ir comer um gelado, princesa?”
“ Um gelado? Quero, papá! Que bom!”
Olhou orgulhosa e com ternura para o pai e lembrou-se, de novo, do Luisinho, mal vestido, despenteado, sem graça, a andar de baloiço, no jardim.

Na esplanada da gelataria, uma senhora morena, de cabelos compridos e óculos escuros, estava sentada a uma mesa. O pai corou ligeiramente, como um rapazinho e o seu rosto iluminou-se num enorme sorriso, ao vê-la. O pai beijou-a, levemente, no rosto e sentaram-se à mesma mesa.
Chamava-se Ângela.
Era simpática mas a menina não gostou dela! Na verdade, evitava encará-la . O grande decote , a saia muito curta e as suas risadas nervosas intimidavam-na! A mãe não era nada assim! Pior, no entanto, era o desapontamento, o enorme desapontamento, de não ter o pai só para si, nessa tarde de encantamento!
Calada, saboreou, devagar e gostosamente, o gelado de chocolate e de morango.
O pai conversava, ria gesticulava ligeiramente, tocando levemente, as mãos, os braços, o cabelo de Ângela, e parecia tê-la esquecido!
Cansou-se de estar, ali, como uma boneca, momentaneamente, deixada a um canto, e pediu para ir à papelaria que ficava mesmo ao lado. O pai autorizou de imediato e disse-lhe que, daí a pouco, iria buscá-la.
Ela lá foi, vaidosa, no seu vestido novo, amarelo como um raio de sol e, de novo, alegre, como um pardal saltitante, em dia de primavera.
Na papelaria, encantou-se com uns blocos pequeninos e coloridos que iriam ficar muito bem na sua colecção.
Decidiu ir ter com o pai.

A meio do caminho, estacou, quase sofucada de espanto e de angústia: o pai, de costas para ela, debruçava-se para a senhora morena, de cabelos compridos e, agora, sem os óculos escuros. De mãos dadas, os dois olhavam-se embevecidos, perdidos num mundo só deles, os rostos tão juntos que quase se tocavam e acariciavam, na cumplicidade amorosa de um beijo, em suspenso.
A menina sentiu os olhos alagarem-se de lágrimas, as pernas tremeram, como se fossem geleia, um nó esquisito apertou-lhe a garganta e, do estômago, subiu uma agonia azeda. Encostou-se a uma árvore, respirou fundo e o nó, forte como um garrote, desapertou-se num vómito que a aliviou mas, que lhe sujou o vestido novo, com salpicos grossos e viscosos.
Voltou à papelaria e, pouco depois, viu o pai, à porta, a sorrir.

A menina entrou no carro. Estava triste, aturdida e muito cansada! Não tentou, sequer, falar. Talvez para quebrar aquele silêncio pesado, que o incomodava, o pai disse-lhe que a Ângela era médica, como ele, trabalhavam juntos e eram amigos. O marido era deputado em Bruxelas e tinham dois filhos.
Silenciosa, sem o ouvir, olhou para o pai e achou-o diferente: não lhe pareceu assim tão bonito, o seu sorriso enjoou-a e, estranhamente, não se sentiu orgulhosa, nem feliz, nem segura, a seu lado!
Na verdade, nesse momento, detestou-o!

Quando passou pela casa do Luisinho, viu-o com o pai, feio, vermelhusco e pançudo, a manápula grande e peluda, pousada, ternamente, na nuca do filho.
E teve muita inveja do Luisinho! Sentiu uma inveja danada, que lhe oprimiu o peito e quase lhe estrangulou a respiração, daquele menino que tinha um pai que não parecia um actor de cinema mas ria, falava alto e brincava com ele, no jardim e não tinha uma amiga, morena e espaventosa, que se chamava Ângela.

Quando entrou em casa, correu para a mãe, abraçou-a e, num arroubo de ternura, disse-lhe baixinho:
“ És tão bonita, mamã! És a mãe mais bonita do mundo! Gosto tanto de ti!”
E foi para o quarto, o vestido novo, amarelo, já sem a luz e o brilho cintilante de um raio de sol, amarrotado, salpicado de vómito escuro e viscoso e a cheirar a azedo.
Antes de fechar a porta ainda ouviu a voz clara da mãe, a escorrer carinho, dizer:
“ Tens de levar a Ritinha mais vezes à gelataria, querido!”

A menina deitou-se na cama e aí ficou, muito quieta, atordoada, sem forças, como um pardal desorientado, cheio de frio, com uma asa, subitamente, ferida de morte, numa tarde de temporal.

MC

2 comentários:

redonda disse...

Gostei muito

Maria Celeste Carvalho disse...

Obrigada, por me leres e pelos teus comentários, redonda!
Leres-me, dá-me uma grande alegria!
Também gostava imenso de te ler! Onde?
MC