domingo, 28 de junho de 2009

A velha Senhora

A casa já era antiga.
A porta ficava à face da rua mas, para se ter acesso à casa, propriamente dita, entrava-se para um pequeno "hall" e subia-se um lanço grande de escadas.
Para evitar subir e descer a escadaria, sempre que alguém tocava à campainha, puxava-se, em cima, um fio, preso ao trinco.

Juliana tocou a campainha e, no cimo da escada, esperava-a a velha senhora que lhe arrendara um quarto, com direito ao uso da cozinha, por uma renda barata, a única que podia pagar, com o seu baixo salário.
Acabava de vir para Lisboa, para ingressar no seu novo emprego, numa Repartição Pública.
A velha senhora tinha um aspecto distinto: os cabelos muito brancos, a pele fina e rósea, como a de um bebé, uns olhinhos cinzentos, piscos, de míope, e um sorriso doce. Estava vestida de cinzento e cheirava bem, a rosmaninho e a alfazema.
Recebeu Juliana com simpatia e mostrou-lhe o quarto modesto, mas limpo e arejado, onde ela pousou os seus poucos pertences.
Eram já quase horas de jantar e Juliana sentia-se cansada, deprimida e ansiosa por se deitar. Foi, no entanto, à cozinha, a convite da dona da casa que lhe ofereceu chá, torradas e bolachas.
A bonomia da velha senhora que, sorrindo, a observava com os seus olhinhos piscos, de míope, acalmou, um pouco, o nervosismo de Juliana.
Ao deitar-se, sentiu, como nunca, umas imensas saudades dos pais!
“É curioso”, pensou, já meio adormecida, “ a casa parece que cheira, ligeiramente, a velas, a incenso e a flores murchas!”

No dia seguinte saiu cedo para o emprego e regressou tarde, era quase noite.
Quando se dirigia para o seu quarto, passou, por ela, no corredor, quase deslizando como uma sombra comprida, um velho encatarrado, alto e magro, com uma expressão severa, que pareceu não a ver.
Tinha um ar ausente e estranho! Juliana estremeceu mas cumprimentou-o, timidamente. Ele, silencioso e fugidio, como uma nuvem, desvaneceu-se no escuro, ao fundo do longo corredor, inundado do cheiro enjoativo e inusitado a velas e a incenso.

Juliana teve medo! Tentou acalmar-se e decidiu ir à cozinha, porque tinha de comer alguma coisa. Estava em fraqueza e a alucinar, pensou ansiosa.
A caminho da cozinha, espreitou para o que presumiu ser a sala de estar. Viu, na sala sombria e pesada, umas cinco ou seis pessoas, sentadas, sérias, caladas, com o olhar vago e os rostos sem expressão que, como o velho encatarrado, pareceram não a ver!
Juliana teve a sensação terrível de estar a observar um quadro de pessoas cegas, surdas e perfeitamente imóveis!Estavam, certamente, vivas mas, pareciam já mortas!
“Estarei a enlouquecer?”
Sentiu-se, subitamente, atravessada por uma corrente de ar gélido e espalhou-se, no ar, aquele cheiro assustador, a velas, a incenso, agora, com um traço do odor acre a podre e a dissolução!
Arrepiou-se, o coração bateu descompassado e, num susto, a suar frio, fugiu para a cozinha, acolhedora e morna.

Estava gelada, desorientada e nervosa!
A velha senhora entrou e Juliana perguntou-lhe se tinha outros hóspedes. Ela meneou a cabeça muito branca, olhou-a com os olhinhos cinzentos, piscos de míope e sorriu.
Juliana, pela primeira vez, achou-a estranha e sentiu-se pouco à vontade, sozinha, com ela!
Acendeu o fogão para aquecer a sopa que trouxera, colocou a sandes e o sumo na mesa, ansiosa por se despachar depressa.
Foi, então, que a velha senhora perguntou, com a sua vozinha baixa e doce:
“ Gosta de lírios roxos?”
“ Não, particularmente! Prefiro os lírios brancos”
“Aos mortos dão-se lírios roxos! Ficam-lhes tão bem, aos mortos, os lírios roxos!”
Juliana olhou para ela, atónita e sobressaltada. Teve a impressão de ver nos olhos piscos da velha senhora, um brilho maldoso, que a assustou.
Comeu rapidamente e foi para o quarto. Fechou-se à chave e procurou acalmar-se.
“ É velhota e não sabe o que diz! Mas, lá que o que disse é muito esquisito, isso é! Vou ter de ir embora! Não me sinto bem aqui!”
Havia, de facto, naquela casa, qualquer coisa de estranho, quase maligno que a perturbava e começara a assombrar-lhe os dias e as noites!

No dia seguinte, jantou num barzinho e rezou para não encontrar a velha senhora.
Era ainda relativamente cedo para se deitar e decidiu escrever à mãe.
Estava, concentrada, a escrever, quando teve a sensação aterradora de não estar sozinha.
Cheirou-lhe a velas e, arrepiada, cheia de medo, olhou para trás de si. E viu, sentada na sua cama, uma rapariga alta, magra, de cabelos loiros, compridos, com o olhar vago e o rosto pálido, sem expressão e, exactamente, como as outras pessoas que tinha visto naquela casa, pareceu não a ver!
Quis gritar mas não conseguiu.
A rapariga levantou-se e, silenciosa, saiu do quarto. Como o velho, parecia que não andava, deslizava! Deslizava ou, pensou com terror, levitava!
“ Tenho de ir embora! Não posso continuar aqui!”
Preparou-se para dormir e, quando regressou ao quarto, viu, sobre a almofada, um lírio roxo!

Lívida, completamente fora de si, gritou, gritou muito alto, histericamente! Ninguém pareceu ouvi-la.
Em camisa de dormir, correu à procura da velha senhora que, com o seu imperturbável sorriso, a ouviu, aos gritos e atabalhoadamente, contar os sustos que apanhara e falar dos seus medos. Depois, foi calmamente, com ela, até ao quarto.
O lírio roxo tinha desaparecido!
A velha senhora olhou para ela, sem sorrir, com os olhinhos cinzentos, agora bem abertos, o olhar duro e frio como gelo e disse-lhe, com uma voz firme e irritada, que Juliana desconhecia:
“ Vamos lá, menina! Chega de disparates! Vê um velho que levita, no meu corredor, vê pessoas fantasmagóricas, reunidas na minha sala, vê uma rapariga, sentada na sua cama e agora vem com a história de um lírio roxo, pousado na sua almofada! Acalme-se, menina, e durma! Boa noite!”
Aturdida e humilhada, Juliana sentiu-se, de novo, criança e, obediente, deitou-se.

Às voltas na cama, decidiu ir embora. Era só mais uma noite, esta noite! Mas, a verdade é que se sentia só e encurralada, perdida!

Desejou, ardentemente, a reconfortante benção do sono que teimava em não vir!
Lembrou-se de rezar. Já não rezava há tanto tempo!
Procurou, nas recordações de infância, as orações aprendidas na catequese: Pai nosso que estais no céu... bendita sois Vós entre as mulheres... Anjo da Guarda, minha companhia... Santa Maria rogai por nós... perdoai as nossas ofensas ... seja feita a Vossa vontade...agora e na hora da nossa morte...
Pedaços soltos de orações há muito esquecidas, brotavam, em cascata da sua memória, num rebuliço caótico!
“Já não sei rezar!”, pensou, com desespero!
“Ajudai-me, Senhor!”
Exausta, adormeceu.

De madrugada, ainda a claridade não luzia nas frinchas das portadas da janela, Juliana acordou, num sobressalto!
O quarto estava gelado, cheirava fortemente a velas, a incenso e a flores murchas e sombras moviam-se pelos os cantos.
A opressão, no peito era tão forte que Juliana mal conseguia respirar! Era como se um elefante ali tivesse pousado a pata, para, ferreamente, a prender.
Paralisada de medo e de aflição, Juliana viu debruçado, sobre si, o rosto pálido da rapariga que a olhava, sem ver e cujos cabelos loiros pareciam roçar a sua face!
Aos pés da cama viu as cinco ou seis pessoas silenciosas, severas, o mesmo olhar cego e a mesma indiferença. O mesmo quadro vivo, (seria vivo?), que já a assombrara antes!
No canto esquerdo do quarto, viu, estarrecida, a velha senhora, com os seus cabelos brancos, o seu eterno sorriso e nos olhos cinzentos, um brilho metálico, maligno e, vagamente, trocista!
Com a garganta apertada num nó, grosso e forte, como deve ser o nó de um enforcado, sentiu-se ficar molhada e suja.
Urina quente e algo pastoso, sem ela saber como, tinham-se soltado, subitamente, de dentro de si!
Um cheiro horrendo, a urina e a fezes, inundou o quarto e misturou-se com o cheiro a velas, a incenso e a podre. Compreendeu o que se passara e, mesmo, naquele momento de extrema angústia, sentiu-se esmagada por uma tremenda humilhação!

A velha senhora foi-se aproximando. Também ela, agora, parecia deslizar, com um molho de lírios roxos, apertados contra o peito e os lábios semi abertos, não no seu sorriso doce mas, num arreganho medonho, donde escorria uma baba viscosa e esverdinhada, de animal danado!
Juliana não soube se ouviu a velha senhora dizer, com a sua vozinha baixa e doce ou, se foi na sua cabeça que ecoaram aquelas duas frases assustadoras, como um cântico sinistro e fúnebre:
“ Aos mortos, dão-se lírios roxos! Ficam tão bem, aos mortos, os lírios roxos!”


Nota: Esta é uma incursão num género que só aflorei no texto, "O gato".
Eu, "A desalinhada", dedico este conto(?) muito desalinhado e um bocadinho amalucado, aos meus queridos seguidores, com ternura, com muito afecto e com imensa gratidão por terem a gentileza e a pachorra de me lerem! Obrigada!


MC/SC

2 comentários:

redonda disse...

Assustador e muito bem escrito.

Estou a gostar muito de passar por aqui e muito grata por poder ler. Obrigada.
Gabriela

Maria Celeste Carvalho disse...

Olá, Gabriela,
Gostei muito da bonequinha que aparece, agora, no quadradinho, como minha seguidora, querida redonda!
Já tenho saudades dos teus comentários, embora os meus últimos textos sejam diferentes!
Mas há um conto que não deves ter lido...
MC